Ananda O sol batia forte no vidro do carro, quente o bastante pra desenhar brilhos dourados no painel. Eu recostei a cabeça no banco e fechei os olhos por um segundo, sentindo o carro deslizar pelas curvas. Cada metro que a gente deixava pra trás parecia aliviar um peso no peito. Era estranho — bom e estranho — sair do morro sem olhar pra trás esperando ouvir tiro, grito ou sirene. Só o som da voz da Bebel, doce e acelerada, enchendo o carro de vida. — Papai, vai ter escorrega? — Ela perguntava de novo, os olhinhos brilhando de ansiedade. Khalil riu, aquele riso leve que eu aprendi a amar — e temer — porque sempre fazia meu coração sair do compasso. — Vai ter de todo tipo, pequenininha. De água, de corda, de pedra. Só não pode ter medo, hein? Ela cruzou os bracinhos, toda dona de si,

