Gisella insistiu que Valda lhe desse a chave do portão e ameaçou fazer um escândalo. Não adiantou. Valda disse que não deixaria ela sair naquele estado e que era perigoso.
— Ah! Por favor? Eu já enfrentei elfos sombrios, trolls e até “zumbis”! Nada pode me fazer m*l! — Era verdade. Gisella fugira muitas vezes dos elfos e enfrentara diversos seres sombrios. Alguns encontros a deixaram tão assustada que Hendrik e Evin precisaram apagar de sua memória.
— Nós temos muitos inimigos que adorariam colocar as mãos em você. É por isso que Kadir está aqui, para protegê-la. — Falou Valda.
— Como? Ele m*l se aguenta em pé! O que ele tem? Está virando um zumbi? — Gisella disse.
Júlia riu e quando Valda a encarou, carrancuda, a garota disfarçou, rápido.
— Não adianta, Maria! Você não vai a lugar algum! — Falou Valda.
— Não pode me tratar como se eu fosse uma criança porque eu não sou! — Falou Gisella irritada.
— Júlia e você só me trazem problemas! Será possível? — Valda suspirou e tentou aparentar a calma que não tinha. — Você não conhece esse mundo, ou pelo menos, não se lembra dele. Não tem como prever os perigos que a esperam. Há bandidos a cada esquina.
— Pode me dizer por que não consigo mais voar? — Gisella disse.
— Quanto tempo faz que você não voa? Certas habilidades requerem a prática constante. — Respondeu Valda.
† † †
Uma vez descoberto, Kadir deixou de se esconder. Por isso mesmo, Gisella deixou de sair do quarto. Júlia e ela ficavam confinadas como duas princesas em uma torre tramando uma fuga. Na hora das refeições, Júlia buscava comida para Gisella e ela.
Secretamente, Gisella treinou suas habilidades mágicas como voo e velocidade. Não precisava ser uma fada para dominar tais habilidades, qualquer pessoa em uma Viagem Astral poderia dominá-las, e também a projeção astral.
— Preciso que você me vigie e se alguém vier, minta que estou dormindo. — Gisella disse a Júlia.
— Tudo bem. — Júlia disse.
Gisella fechou os olhos e se concentrou na pessoa que desejava encontrar. No instante seguinte se viu em uma floresta que lembrava Aokigahara, a floresta dos suicidas. À sua frente havia uma cabana caindo aos pedaços. Gisella se aproximou da cabana e respirou fundo antes de agarrar e girar a maçaneta, empurrando a porta que se abriu com um rangido.
Ao contrário do que imaginara, a cabana era diferente por dentro, lembrando um quarto de hotel. Gisella reconheceu aquele lugar de um sonho recorrente que costumava ter antes de ser raptada pelos elfos. Até então, aquele sonho nunca fizera sentido, mas agora, revendo-o, as peças finalmente pareciam se encaixar em seus devidos lugares.
Sempre se via deitada naquela cama com Theodred. Ele a abraçava, apaixonado, mas ela não conseguia sentir outra coisa por ele senão desprezo. Ele não passara de um capricho que agora não lhe satisfazia mais. Maria se levantava em seguida e se vestia e pedia para Theodred levá-la de volta para a sua casa. Em seguida, como se editassem a cena, o casal de amantes já estava em um carro, estacionado em frente a uma casa.
— Eu te amo. Por favor? Fuja comigo? — Pedia Theodred segurando a mão dela e a olhando nos olhos.
— Eu não posso, Theo. Sinto muito. — Falava Maria antes de sair apressada do carro e entrar em sua casa.
Maria seguia pelo corredor e parava em frente à porta de seu quarto onde Adrian estava sentado no tapete, de costas para ela, sem camisa, mexendo com uma papelada. Maria recuava, aborrecida, pensando numa forma de evitar qualquer contato íntimo com seu marido, o homem maravilhoso que, infelizmente, ela não conseguia amar.
— Ah, meu Deus! — Gisella disse, enxugando algumas lágrimas que rolavam por seu rosto. O que pensara ser um sonho, na verdade, era uma lembrança.
O cenário mudou para uma cena mais recente.
Dessa vez, Gisella se aproximando timidamente do boxe de vidro do banheiro onde Theodred tomava banho. Ela estava fascinada por ele, mas com um pouco de medo, pois não sabia se aquilo era real ou um sonho. Ao notar a presença dela, Theodred sorriu, abriu o boxe e puxou Gisella sem se importar que ela ainda estivesse vestida.
Gisella virou o rosto para essa lembrança e nesse instante, se deparou com Theodred. Foi estranho ouvir suas réplicas logo atrás de si quando os dois estavam bem ali.
— Gisella? É você mesma ou outra ilusão deste lugar c***l? — Theodred disse se aproximando.
Gisella recuou antes que ele a tocasse.
Ele recuou, constrangido.
— Gostaria de ouvir a sua versão da história, Theo.
— Por que isso agora? — Ele inquiriu, desconfiado.
Gisella deu de ombros.
Theodred andou de um lado a outro, nervoso, antes de se voltar a Gisella e perguntar-lhe:
— Do que você se lembra?
Gisella contou-lhe sobre suas visões, omitindo, claro, o pesadelo que tivera com Elliot.
— Todos sabiam da sua instabilidade mental e quando você disse que não era nenhuma princesa, Sneja e Elliot pensaram que você estava sofrendo uma crise. Por isso, decidimos mantê-la em nosso esconderijo, pois você poderia ser útil nos dando informações. Se se recusasse a falar ou ficasse muito confusa, ainda poderíamos exigir um alto preço pelo seu resgate. — Contou Theodred.
— Meu deus! O que será que eu vi em você? — Disse Theodred sentindo raiva de si mesma.
— Eu levava água e comida para você todos os dias e nós conversávamos. Foi assim que surgiu uma conexão entre nós. — Theodred sorriu. — Nos apaixonamos e eu a ajudei a fugir.
— Ok. Vamos pular a parte da Síndrome de Estocolmo… — Gisella revirou os olhos. — Como envenenaram a ceia de natal?
— Eu tentei te avisar. Enviei mensagens, mas… Você não respondia. Não sei se as mensagens chegaram até você. Ninguém conhecia Elliot, ele tomou o lugar de um dos cozinheiros e envenenou a ceia. — Respondeu Theodred. — Nem todos morreram. Você foi uma das sobreviventes. Elliot tinha certeza que você o deduraria e por isso, você se tornou seu alvo número um. Ele estava certo, você o dedurou. Elliot e Sneja foram caçados e quando encontrados foram executados. Suas almas foram banidas para o Umbral, felizmente, bem longe dessa parte que estou.
— E que parte é essa que você está? — Gisella perguntou, curiosa.
— A parte dos que morreram por amor. — Theodred percebeu que ela ficara espantada e riu, amargo. — Eu me enforquei porque sabia que você me culparia pela morte de sua família e jamais me perdoaria.
— Não… Pode… Ser. — Gisella disse, incrédula.
— Como acha que virei um vampiro? — Theodred a encarou.
— Aqueles clarões que via em alguns de nossos encontros… Era você roubando a minha energia? — Perguntou Gisella.
— Sinto muito. — Theodred virou o rosto, envergonhado. — Eu me reduziria a uma sombra se não me alimentasse e sua energia sempre foi tão boa… Especialmente porque você libera muita energia. Seus pensamentos são quase ininterruptos… Talvez, por causa da sua ansiedade. Logo, você é uma fonte perfeita de energia.
— Eu não acredito que estou ouvindo isso de você. — Falou Gisella, recuando e balançando a cabeça, chateada. — O Theodred que eu amei não era assim.
— Não. Não era. Só que ele está morto agora. — Theodred disse e suspirou.
Gisella despertou, sobressaltada. Júlia a sacudira com força.
— O que foi? — Gisella, logo, entendeu o que estava havendo quando viu um estranho parado em frente à porta, apontando uma arma para Júlia e ela. — Quem é você?
— Não importa. Seu marido tirou de mim quem eu mais amava, agora, farei o mesmo com ele para que sinta na pele. — O estranho disse.
— Faz o que quiser, mas deixa a minha irmã fora disso. Por favor? — Pediu Gisella levantando suas mãos.
O homem encarou Júlia que chorava, assustada e decidiu deixá-la ir. Deu sinal para que ela saísse e não precisou falar duas vezes. Júlia correu.
— Está cometendo um erro, senhor, porque o Kadir não me ama. Aliás, ele não ama ninguém… Não sabe o que é o amor. — Falou Gisella.
— Mas ele casou com você, então… Deve ser importante para ele de alguma forma. — Disse o homem.
— Vamos descobrir quando eu morrer. — Falou Gisela. Ela não estava com medo, não agora que tinha certeza que existia vida após a morte. Morrer em Annwn não significava nada.
Fechou os olhos e esperou até ouvir o disparo. Não sentiu dor e abriu os olhos. Logo, entendeu o que acontecera. Kadir surpreendera o estranho e o matara com um tiro na cabeça. Gisella e Kadir se encararam por um tempo antes de ele perguntar se ela estava bem. Ela não respondeu e quando ele quis se aproximar, ela recuou. Ele abaixou a cabeça e pensou por um momento antes de retirar o cadáver do quarto.