Por mais que Gisella tentasse adivinhar a identidade da mulher encapuzada que a atacou na noite passada, ninguém lhe veio à mente. Compartilhou o ocorrido com Gaion e ela também não conseguiu imaginar de quem se tratava.
Nas noites que se seguiram, Gisella continuou sendo assombrada. Sentia que alguém a observava, ouvia passos e também um sussurro feminino que a chamava. Quando vencida pelo cansaço, sofria com o pesadelo que agora tornava-se recorrente…
Ela se levantava de sua cama e ia até a sala ou a cozinha, onde encontrava a porta aberta. Assustada, corria para fechar a porta e quando olhava para fora tudo o que via era escuridão, uma escuridão assustadora e então um par de olhos azuis flamejantes. Recuava, assustada e corria de volta para o quarto e se deparava com seu corpo, dando-se conta de que aquilo era um sonho. Era quando sofria com a paralisia do sonho e sentia todo o seu corpo enrijecer a ponto de ela não conseguir mais se mover. Tentava gritar, mas sua voz ficava presa em sua garganta. Aquela tortura durava até que ela conseguisse despertar, geralmente, quando repetia alguma prece católica como o Pai-Nosso ou a oração ao Arcanjo Miguel.
Preocupados com Gisella, os elfos começaram a vigiar os sonhos dela, pouco adiantou, ela continuava sofrendo com os pesadelos e com a paralisia do sonho.
— Talvez, as ninfas possam ajudar… — Sugeriu Irwan.
Dessa forma, Gisella foi levada até as ninfas. Sob a p******o delas, Gisella, finalmente, conseguiu dormir.
Dilek ficou com ódio quando não pode se aproximar de Gisella para assombrá-la. Seu plano era enlouquecê-la, mas ela esperaria pacientemente por outra chance.
Talvez, dormir não tenha sido uma boa ideia, afinal, pois, mesmo sem a influência de Dilek, Gisella sofreu ao ter uma lembrança triste de Maria.
|Como uma banshee, Maria podia prever as mortes de certas pessoas, em especial, as de sua família, e ela previra as mortes de mulheres de sua família, mas não dissera nada, achando que se ficasse quieta, poderia vencer a maldição.
As mulheres morreram, mesmo, sem terem recebido o aviso da banshee e quando os familiares estranharam que Maria tivesse previsto sobre aquelas mortes, ela confessou que, na verdade, previra, sim. Todos se revoltaram contra ela e ela jurou que nunca mais faria algo semelhante.
Porém, depois de um tempo, Maria previu a morte de sua prima, uma adolescente de quatorze anos, com a pele branca quase translúcida, olhos castanhos e cabelos longos, negros e lisos. Sua prima se chamava Olivia e a admirava muito.
Maria se recusou a acreditar que a hora de Olivia chegou e mais uma vez, manteve silêncio. Na noite de natal, o inevitável aconteceu, Olivia passou m*l ao comer a ceia envenenada e morreu nos braços da prima que não pode fazer nada por ela.
Olivia, assim, como Maria, deixou o reino feérico e reencarnou como humana, ainda como prima de Maria depois que ela também reencarnou (primeiro que Olivia, sendo que ela esperou pela prima). Em sua nova existência, com o nome de Lorena, ela sofria com distúrbios alimentares. |
As ninfas tiveram trabalho para acalmá-la quando ela despertou, chorando. Contou-lhes sobre a lembrança que teve e ficou desesperada para rever a prima, abraçar-lhe e pedir-lhe perdão. Como sabia que isso era impossível, insistiu em ver Mabel. Já que ela gostava tanto de se fazer passar por Lorena, aquele seria o momento perfeito para aliviar um pouco a consciência de Gisella.
Mabel aceitou ver Gisella e ficou ao lado dela sem reclamar. Ela gostava da atenção que recebia e se esforçava ao máximo para imitar perfeitamente a prima de Gisella, buscando informações através de suas lembranças. Seria assustador se Gisella não sentisse tanta falta de Marina. Por isso, não se atrevia a reclamar.
No entanto, o tempo que passou ao lado de Mabel não foi suficiente para acalmá-la e ela continuou triste. Por mais que Evin repetisse que foi só uma lembrança distante, Gisella sentia como se aquilo tivesse acabado de acontecer. Ainda podia sentir a prima em seus braços e ouvi-la pedindo por ajuda.
Hendrik teve de drenar uma parte da energia de Gisella e doar outra para que ela se tranquilizasse. Evin deitou ao lado dela na cama e leu um livro sobre fadas, pois, conhecia o fascínio que Gisella tinha por aqueles seres. No livro tinham vários tipos de fadas que Gisella ainda não conhecia e a devida maneira de contatar seus favores. Também, tinha uma história engraçada com ilustrações de fadas que fugiram para não ajudar dois humanos preguiçosos que nunca arrumavam a casa. Gisella riu e quando estava quase adormecendo, virou-se e viu uma garota agachada no canto de sua cama. Era morena clara, com cabelos longos e negros. Aparentava ter no máximo treze anos de idade. Quando a viu, a garota levou o dedo indicador até os lábios em um sinal para que Gisella ficasse em silêncio. Antes que Gisella dissesse qualquer coisa, foi vencida pelo cansaço e adormeceu.
— Bons sonhos. — Dilek sorriu, maliciosa.
Não revelaria para Gisella sua verdadeira identidade, pelo menos por enquanto. Se divertiria um pouco mais.
† † †
Evin e Dinorah se sentaram em frente a lareira e enquanto tomavam um chá, conversavam sobre Gisella.
— Que “sorte” essa garota tem! — Falou Dinorah. — Não seria prudente devolvê-la ao marido ou então ao pai?
— O marido dela é maluco! E o pai… Eu não sei… Me parece um bom homem, mas… Tenho a impressão que ele não sabe como lidar com ela. — Disse Evin.
— O Hendrik já sabe? — Dinorah perguntou.
— Não. Por Deus! Não. Eu nem sei como contar a ele. — Disse Evin, nervosa.
— Ora… É uma coisa natural… Ele sabia que poderia acontecer. Aconteceu! — Falou Dinorah.
Antes que Evin respondesse, alguém bateu a porta. Ela se levantou, achando que fosse uma das ninfas, mas ao abrir a porta, se deparou com a irmã gêmea de Gisella. Elas eram idênticas e Evin só não as confundiu porque sabia que Gisella estava no quarto e porque Suoni, além de estar elegantemente vestida, tinha um ar imponente.
— Sou Suoni e estou aqui por causa da minha irmã gêmea.
— Acho que não tem nada para fazer aqui. — Falou Evin com raiva.
— Engana-se. Senti que minha irmã precisa de mim e por isso, estou aqui. Não vou embora até falar com ela, ou até que ela mesma me peça para ir! — Falou Suoni deliberada.
Evin se voltou a Dinorah e assentiu para ela. Dinorah entendeu o recado e foi até o quarto de Gisella. Ficou com pena de acordar a garota, mas não teve jeito. Disse-lhe que sua irmã gêmea estava ali e queria falar com ela. Gisella só desceu quando Dinorah garantiu que Suoni viera sozinha.
— Oh, irmãzinha! Como você está? — Suoni quis se aproximar de Gisella, mas ela recuou, assustada.
— O que faz aqui? — Gisella perguntou a Suoni.
— Podemos falar a sós? — Suoni perguntou, se sentindo incomodada com a presença das elfas.
— Não. Elas ficam, caso eu precise de p******o. — Falou Gisella. Ela estava paranoica porque não sabia quem era a mulher que a assombrava em seus sonhos e começava a suspeitar de Suoni.
— p******o? Eu sou sua irmã e nunca te machucaria. — Disse Suoni.
— Eu não acredito em mais nada do que você diz. — Falou Gisella. — Por que não me contou que também era casada com Kadir?
— Hein? O s****o tem duas mulheres? — Falou Dinorah achando aquilo um absurdo.
— Porque, talvez, você não entendesse. — Disse Suoni ignorando Dinorah. — E não sou mais esposa de Kadir. “Até que a morte os separe”… A morte nos separou e ele se casou com você… Duas vezes.
— Sei… E você não me odeia por isso? — Disse Gisella.
— Eu só quero que o Kadir seja feliz e se a felicidade dele é você, irmãzinha… — Disse Suoni.
— Ah, fala sério? Ele te mandou aqui? — Perguntou Gisella.
— Kadir está sofrendo por sua causa. Acha certo magoá-lo como tem feito? Por favor, irmã? Reconsidere e volte para casa? Ele não está bravo. Sente sua falta. — Falou Suoni.
— Já estou em casa! — Disse Gisella.
— Se não quer fazer por você, pelo menos, faça por essa criança que carrega no ventre. — Falou Suoni.
— Que… Criança? — Gisella olhou para sua barriga e depois para Dinorah e Evin.
Evin abaixou a cabeça, chateada.
— Não. Eu perceberia se estivesse grávida.
Evin moveu os dedos indicador e médio em círculo, retirando a ilusão que usara para ludibriar Gisella. Só então, ela percebeu que sua barriga começava a crescer.
— Não! Não! — Gisella disse chorando e sentou no sofá. — Isso não pode ser! Hendrik e eu… Nós íamos… Não.
— Volte para sua família, irmã? — Suoni se sentou ao lado dela e apertou sua mão.
— Não. — Gisella afastou sua mão da de Suoni. — Eu posso criar essa criança sozinha.
— Kadir nunca permitiria que seu filho crescesse entre os elfos! Ele tomaria a criança de você! — Falou Suoni.
— Ele teria de me m***r antes de tirar meu filho de mim! — Falou Gisella se levantando.
Hendrik ouviu vozes alteradas e desceu para ver o que estava acontecendo quando ouviu o que Gisella disse. Se aproximou, atônito e perguntou-lhe:
— Filho? De que filho você está falando?
Foi quando reparou na barriga dela.
— Até quando pretendia esconder isso de mim? Até nos casarmos? — Disse Hendrik revoltado.
Evin tentou explicar que foi ela quem ocultou a gravidez de Gisella, mas Hendrik não quis saber. Cerrou os punhos com lágrimas vertendo de seus olhos e disse a Gisella:
— Eu deveria saber… Porque é sempre assim… Eu confio em você e você me apunhala pelas costas. Sempre.
— Acredite em mim, Hendrik? Eu não queria essa criança! — Falou Gisella.
— Guarde suas desculpas para você. Não acredito mais. — Hendrik voltou para o quarto.
— Viu o que você fez? Espero que esteja feliz! — Gisella disse a Suoni. — Vá embora e diga ao Kadir que não preciso dele para nada! Cuidarei essa criança sozinha e se ele fizer tanta questão de ficar com ela, a entrego a ele. Talvez, assim, ele me deixe em paz!
— Não deveria falar assim do seu filho. — Disse Suoni.
— E por que não? Essa não seria a primeira criança que abandono! — Falou Gisella.
Ela jamais permitiria que Kadir ou quem quer que fosse a chantageasse com aquela criança. Falara sério quando dissera em entregá-la a Kadir, afinal, ele era o pai e certamente, cuidaria bem dela. Pelo menos lhe daria conforto e uma boa educação.
— Eu sei que só está dizendo isso da boca pra fora porque se arrepende do que fez a Emily. — Disse Suoni.
Gisella soluçou. Então, o nome de sua filha mais velha era Emily? Um lindo nome!
— Não negue também a essa criança o direito de ter uma família. Emily cresceu longe de você, e Camila chama a madrasta de mãe. — Falou Suoni antes de ir, deixando Gisella, pensativa.