Laís Alcântara
Acordo com a cabeça doendo, sinto o peso do tecido que me mantinha aquecida, tento encontrar pontos em minha memória que possa me levar até onde estou nesse momento.
Aperto os olhos quando as lembranças de sentir o Henrique me encurralando na parede me deixou sem fôlego, desejava que ele beijasse meus lábios, que sua barba fizesse cócegas pelo meu pescoço.
Porém, me recordo quando ele sacou a sua pistola e apontou para o chão, um sinal que ele estava ali para algo e que não importava o que acontecesse, ele iria terminar o que estava fazendo no meu quarto.
Me viro na cama e abro os olhos, estava sozinha no grande quarto, mas na mesinha ao meu lado havia uma jarra com água e uma cartela de comprimidos, ao lado um bilhete que me estiquei para pegar.
“Caso esteja com dor de cabeça”
Pego a cartela e olho o verso, realmente era um analgésico, pego dois e coloco na boca de um só vez, na esperança que como um truque de mágica a dor suma da minha cabeça, então me lembro.
— Merda a Lena. — Olho para debaixo da coberta e percebo que estou pelada.
Um calafrio surge na minha espinha, o desespero de imaginar que ele possa ter feito alguma coisa comigo me faz ficar tensa e com pavor, não me guardei para que ele a tirasse de mim assim.
Me levanto e me enrolo no tecido de cetim azul-escuro, percebo que minha mala estava no canto do quarto, mas já estava aberta e vazia, olho para as portas que davam acesso o que imagino ser o banheiro.
Entro e as luzes se acendem, percebo que minhas roupas estavam todas ali guardadas por cor, havia outras peças que não eram as que trouxe para a viagem, mas não me preocupo com isso, agora quero apenas me vestir para enfrentar o que tiver lá fora.
Decido tomar um banho, preciso saber se ele fez alguma coisa enquanto ele me dopou, tranco a porta do banheiro e entro no box e me ajoelho enquanto deixo que a água me tranquilize.
Ser filha de Carolina Alcântara me trouxe certas experiências, uma delas foi receber treinamento do Haruta o tutor do Tanaka, ele me ajudou a controlar a ansiedade e o medo com o som da água.
Faço tudo o que ele me ensinou e consigo manter a calma que preciso, com cuidado levo minhas mãos até minha i********e e percebo que ela estava intacta, solto um suspiro aliviada, menos um motivo para poder matá-lo.
Preciso saber onde estar a minha amiga, sei que ele não fará m*l algum a ela, podem não ser parentes de verdade, mas eles se consideram, mesmo que ela tenha uma mágoa muito grande dele, me levanto e tomo um banho para tirar esse suor do meu corpo, me sinto pegajosa.
Não sei o que ele me aplicou, com certeza é o motivo para que me sinta assim tão pegajosa, olho para o nicho e percebo que meus produtos de higiene estavam lá dispostos com uma organização que duvido que seja dele.
Preciso pensar no que fazer, fui treinada por todos para caso de sequestro, tio Alex sempre me alertou em como me portar, babi Hassan me ensinou várias técnicas de ganhar tempo para que ele pudesse me achar com meu pai.
Tenho certeza que eles devem ter recebido alguma mensagem sobre o que aconteceu, mas ainda não entendo os motivos do Carter, até onde sei, ele não tem problemas com o conselho.
Então por que ele me sequestrou?
O que ele deseja com isso?
Como ele planeja em deixar a Helena em segurança sem que ela conte sobre o meu paradeiro?
Tantas perguntas em minha cabeça, mas aqui dentro trancada não conseguirei nenhuma delas, termino o meu banho, me enrolo em uma toalha e vou até o closet para escolher uma roupa.
Pego uma roupa de academia e uma camisa de botões, arrumo meu cabelo em uma trança lateral deixando alguns fios soltos por meu rosto, volto para o quarto e me aproximo das cortinas, talvez consiga me localizar, abro uma fresta e observo o Central Park aos meus pés.
— Droga! — Exclamo frustrada.
Como fugirei do meu sequestrador no terreno dele, a preocupação começa a me tomar, se já estamos aqui é sinal que já se passou pelo menos dois dias, minha mãe deve estar desesperada, ainda mais que essa semana seria a primeira missão do Matheus.
Se não entrei em contato para que eles soubessem que estava bem, ela deve ter cancelado a missão, o que pode ser um problema.
Mas parando para pensar, talvez seja isso que o Carter quer já que ele é associado com o cartel do México, será que ele está querendo tomar para si e vai me usar para que a minha mãe não interfira no que o Carillo irá fazer?
Bom, para essas perguntas tenho que de alguma forma descobrir suas respostas, a única coisa que sei é que ele não vai me matar, ou logo ele será morto, pelo menos é essa a minha confiança. Saio do quarto andando de queixo erguido, já que a porta não estava trancada é porque não preciso esperar pelas refeições no quarto.
Começo a andar tranquilamente pelo corredor e começo a ouvir gemidos e sussurros, não acredito que esse filha da p**a está mesmo trepando na sala, minha respiração começa a acelerar, mas me controlo.
Madame Suíça me ensinou que as emoções são nossos piores inimigos, finjo uma indiferença que nesse momento não existe, quando chego na sala olho para a mulher, que estava sentada no Carter enquanto ele sugava os s***s dela, passo por eles e vou em direção à mesa já posta para o almoço.
Puxo a cadeira fazendo barulho alto, o que chama atenção dos dois que estavam se divertindo, me sento e me sirvo com o que estava na mesa, olho para eles enquanto seguro um talo de aspargo entre os dedos e olho para os dois.
— Podem continuar, não te quero de bolas roxas, querido. — Falo desdenhando dele, olho com desaprovação para a empregadinha que estreita os olhos na minha direção.
Posso ser uma refém aqui dentro, mas que farei essa serviçal ser retirada desse apartamento, isso vou, uma ousadia sem tamanho ter que ver ela trepando com ele pelos cantos.
Enquanto ele a tira de cima dele e se arruma, desvio o olhar seria humilhante demais, me lembro de uma conversa que tive com a minha mãe no fim da festa de 18 anos, estava triste e magoada.
Mesmo que Carolina nunca tenha dito com todas as palavras, ela me treinou para que pudesse estar à altura do Carter, fique decepcionada que ele não me disse nenhuma palavra naquela noite, estava tão magoada e nem sabia bem o motivo por me sentir daquela forma, depois que um dos meus colegas de faculdade me puxou dele e começamos a dançar, me senti até um pouco vingada, pena que ele não ficou muito tempo para me ver nos braços de outro.
— Filha o que houve? — Evito olhar para a minha mãe, sei que ela estava preocupada, meu pai conversava com Hassan e os dois tinham o mesmo olhar na minha direção.
— Nada mamãe. — Digo frustrada, ela se aproxima e me puxa para fora do prédio.
— Nunca te ensinei a mentir, principalmente para mim, muito pelo contrário, em nossa família o que mais existe é a confiança e a verdade, agora me diga o que te deixou frustrada. — Ela fala e faz um carinho no meu rosto.
E como uma menina ainda sonhadora, deixo que as lágrimas escorram pelo meu rosto, revelando os sentimentos que não quero alimentar.
— O que ele poderia achar de interessante em mim mamãe, tenho apenas 18 anos enquanto ele está com quase 30 anos, ele deve me ver como uma criança ainda. — Minha mãe estreita os olhos e ergue meu queixo me fazendo olhar para ela.
— Quando você diz “Ele”, está querendo falar sobre o Henrique? — Sinto que minhas bochechas ganham vida e apenas confirmo.
— Ele não trocou nenhuma palavra comigo e percebi que ele ficou irritado, só não entendi o motivo. — Minha mãe começou a rir e beijou a minha testa.
— Filha, não se preocupe com o Carter, o destino tem muitas formas para que seu coração encontre um protetor. — Minha mãe é cheia dos mistérios e nunca fala diretamente o que pensa, motivo para deixar todos da nossa família com os nervos aflorados.
Mas essa foi a única vez que ela me ouviu falar assim diretamente sobre o Carter, depois disso nunca mais toquei no assunto, principalmente com a Helena que ainda era bastante magoada com ele.
Agora olhar para ele trepando com uma mulher no sofá me deixou com um sentimento desconhecido, mas preciso me concentrar, aqui sou a refém dele, duvido que ele tenha me sequestrado para me seduzir.
Henrique se levanta e começa andar logo atrás da emprega que tinha um sorriso vitorioso na cara, pelo visto, ela quer me desafiar, mas por quê?
O vejo andando na direção da cadeira principal da mesa, se senta e me olha antes de se virar para pedir algo da empregada com cara de p*****a, a voz dela me tira dos meus pensamentos.
— Obrigada, pela tarde, senhor Henrique. — Olho para a mulher que fala com ele em português, apenas sorrio.
— Vejo que está bem servido com as criadas, não é mesmo Carter? — Pergunto em português assustando a empregada que me olha torto. — Saia, agora. — Olho para ela lhe dando uma ordem direta.
Henrique olha de mim para a empregada e fica sem saber o que fazer, mas é hora de que ele me dê alguma explicação da merda que está acontecendo, a mulher finca os pés e não se retira, minha raiva que estava contida, surpreende o Henrique quando pego uma das facas e arremesso em direção da empregada e acerto a parede atrás dela como se fosse o meu alvo.
Ela teve sorte que não atirei para acertar, ou estaria morta nesse momento, Henrique olha de mim para ela e revira os olhos.
— Mikaela por favor se retire. — Ele volta a me olhar, já estava concentrada novamente no meu aspargo enquanto os olhos dele me sondavam.
— Me diga Carter, por que estou aqui? — Ele começa a comer, espero pacientemente que ele me diga alguma coisa, mas pelo contrário que imaginei, ele fica mudo, começando a me irritar.
Largo minha comida de lado e ponho toda a minha atenção nos movimentos que ele estava fazendo, a raiva começa a subir em um nível que não consigo controlar, termino a minha refeição e saio da mesa.
— Não dei permissão para se levantar. — Volto até o lado da cadeira, sorrio para ele com um sorriso mais falso que tinha em meu arsenal e mostro o dedo do meio.
Constato o quanto ele ficou irritado com a minha atitude, mas não me importo, Henrique é quase da altura do meu pai, ou seja, não passo do seu peito, sei que posso vencer ele na luta, tenho agilidade e sem contar que sou bem mais jovem.
Vou para a sala e me aproximo da parede de vidro com a visão para o Central Park, respiro fundo para pôr a irritação para fora quando sinto uma presença vindo por detrás de mim, fico na mesma postura que estava, coloco todos meus anos de treinamento em prática.
Sinto que ele toca em meus cabelos e roçando o seu corpo no meu, minha respiração descompassa, fecho os olhos para me concentrar e me lembrar que não sou mais aquela menina de 18 anos, hoje sou refém desse i****a, preciso ganhar tempo para que meus pais e meus tios me achem.
— Ficou enciumada pequena esmeralda? — Reviro os olhos e me mantenho na mesma posição.
— Porque acha isso, apenas porque atrapalhei enquanto você trepa com a empregada? — Começo a rir dele, não era ciúme.
Definitivamente não era ciúme.
— Olhe para mim, Laís. — n**o com a cabeça e percebo a movimentação das pessoas pelo parque.
— Porque fez isso comigo, Henrique, o que deseja… — Minha voz falha e deixo uma lágrima escorrer pelo meu rosto.
— Cadê a minha amiga, porque não a deixou comigo até que consiga o que precisa, ou o que deseja… — Seco as lágrimas que saem como uma cascata.
— Por que estava nua naquela cama, Henrique? — Me viro, na esperança que ele me responda pelo menos a última pergunta.