Lívia Narrando
Quatro anos antes...
Já fazem três meses desde que eu subi o Santo Amaro com mala e cuia, achando que tava vivendo um conto de fadas. Se eu pudesse voltar no tempo, talvez eu pensasse duas vezes, mas agora já era. No começo, tudo parecia perfeito. Eu não via problema em ficar mais em casa, em evitar sair sozinha, porque na minha cabeça aquilo era cuidado. Hoje eu vejo diferente. Hoje parece prisão.
Eu quase não saio, mäl mexo no celular e, quando mexo, é sempre com cuidado, pra não falar demais. Minha mãe liga quase todo dia, e eu sempre tenho uma resposta pronta, mesmo sem saber o que dizer de verdade.
— Filha, quando tu vai voltar pra escola?
— Tô vendo isso ainda, mãe.
— E vir aqui em casa? Tô com saudade.
— Também vou ver.
É sempre assim, eu enrolando, empurrando com a barriga, porque no fundo eu nem sei se posso sair daqui. Outro dia ela perdeu a paciência.
— Lívia, eu vou aí.
— Não precisa.
— Precisa sim, eu quero te ver!
— Mãe, para com isso, deixa eu cuidar da minha vida.
Falei mais ríspido do que queria, mas já tava nervosa. Do outro lado ficou um silêncio pesado.
— Eu só tô preocupada com você.
— Não precisa. Eu tô bem.
Mentira. Desliguei antes que ela continuasse. Fiquei olhando pro celular, sentindo um aperto estranho no peito, mas engoli. Era melhor assim, ou pelo menos era o que eu tentava acreditar.
Porque o meu príncipe encantado, tava virando sapo.
O Juca não era mais o mesmo. Não tinha mais aquele carinho, aquele cuidado, aquele jeito leve que me fez me apaixonar. Agora ele saía cedo e muitas vezes nem voltava no mesmo dia. E quando voltava, vinha diferente, cansado, estressado, distante.
Uma vez tentei puxar assunto.
— Tu vai sair hoje?
— Vou.
— Vai demorar?
— Não sei.
Seco, direto, sem nem me olhar. Aquilo foi me incomodando aos poucos. Eu fui percebendo que só saía com ele, e mesmo assim era sempre a mesma coisa.
— Bora.
E a gente ia pro mercado, pra padaria, resolver coisa rápida. Nada de baile, nada de sair pra se divertir, nada de viver. Era só casa. Sempre casa.
Eu fui me calando, porque toda vez que eu tentava questionar, acabava piorando. Uma noite ele chegou mais irritado que o normal, jogou a chave em cima da mesa e passou a mão no rosto, claramente nervoso.
— Tá tudo bem?
Ele não respondeu de primeira, ficou andando de um lado pro outro, inquieto.
— Juca?
Ele parou e me olhou com o maxilar travado.
— Não é da tua conta.
— Eu só perguntei.
— E eu já respondi.
Aquilo me cortou na hora. Eu fiquei quieta, mas não consegui ignorar completamente. Depois, enquanto ele falava no telefone em outro cômodo, acabei ouvindo sem querer.
— Já falei que prenderam ele, agora complicou.
Meu coração apertou. Eu não sabia quem era, não sabia o que tinha acontecido, não sabia de nada. E talvez fosse melhor assim.
Quando ele voltou pro quarto, eu fingi que não ouvi nada, fingi que tava tudo normal, porque no fundo eu já tinha entendido que, quanto menos eu soubesse, melhor seria pra mim.
Então eu fiz o que eu vinha fazendo cada vez mais: fiquei quieta. Engolindo as perguntas, engolindo o medo, engolindo aquela sensação de que eu tava perdendo o controle da minha própria vida.
Porque naquele lugar, silêncio era proteção, e eu tava começando a aprender isso da pior forma possível.
Seis meses se passaram e tudo só piorou. O que antes parecia cuidado virou controle, depois virou agressão, e agora já não tem mais nome bonito pra dar. O Juca não é mais o mesmo, ou talvez eu que fui burra de não enxergar quem ele sempre foi.
No começo eram só palavras atravessadas, respostas secas, aquele jeito grosso que ele começou a ter comigo sem motivo. Eu tentava entender, relevava, ficava quieta. Só que o silêncio foi virando sufoco. Ele passou a me tratar como se eu fosse um peso dentro da casa, como se minha presença incomodasse.
Os empurrões começaram depois. A primeira vez me deixou sem reação, eu fiquei parada olhando pra ele, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Ele agiu como se fosse nada, como se eu tivesse provocado. Eu engoli aquilo, mas alguma coisa dentro de mim já tinha trincado. A segunda vez doeu mais, não só pelo impacto, mas porque eu já sabia exatamente o que aquilo significava.
Mesmo assim, eu tentei colocar um limite. Falei que queria ir embora, que aquilo não dava mais certo, que o melhor era a gente se separar. Eu achei que ele ia me perdoe desculpas, quem sabe até discutir, gritar, mas não.
Ele me bateu. O tapa veio forte, me deixou zonza, e o grito veio logo depois, dizendo que eu não ia pra lugar nenhum, que eu era dele. Eu chorei a noite inteira, sozinha, com o rosto ardendo e o coração destruído.
Como se não bastasse, ele pegou meu celular. Disse que era pra eu não ficar de conversinha. Na prática, ele me deixou isolada. Eu não podia falar com a minha mãe, não podia pedir ajuda, não podia nem fingir que tava tudo bem. Eu tava presa ali, completamente sozinha.
As brigas viraram rotina. Só que eu mudei também. Eu não ficava mais calada. A raiva começou a falar mais alto que o medo. Quando ele vinha pra cima de mim, eu revidava. Empurrava, gritava, rasguei ele de unha, uma vez, tentava me defender. Aquilo virou um ciclo horrível, uma guerra dentro de casa. Já não existia mais carinho, não existia respeito, não existia nada além de agressão e desgaste.
Eu tava vivendo um inferno, e o pior era saber que eu mesma tinha entrado nele achando que era amor.
Mas nada doeu tanto quanto aquele dia.
Eu tava na frente de casa, encostada na grade, tentando respirar um pouco, quando vi a moto dele subindo. Na hora meu coração acelerou, mas não foi de saudade, foi como se alguma coisa dentro de mim já soubesse. E então eu vi. Ele tava com uma mulher na garupa.
Ela era bonita, arrumada, segurava nele com intimïdade. Quando passaram por mim, ela olhou direto nos meus olhos e sorriu. Um sorriso debochado, como se soubesse exatamente quem eu era, como se estivesse se divertindo com aquilo.
Naquele momento, não foi tristeza que eu senti. Foi ódio. Um ódio frio, pesado, que tomou conta de tudo. Eu apertei a grade com força, sentindo meu corpo tremer, mas minha cabeça ficou clara como nunca.
Ali eu entendi que tinha acabado.
Acabou o sentimento, acabou a ilusão, acabou aquela história que eu inventei pra mim mesma. Eu não era mulher dele, nunca fui. Eu era só mais uma presa dentro da vida dele.
Respirei fundo, tentando segurar tudo que tava explodindo dentro de mim, e falei baixo, mais pra mim do que pra qualquer outra pessoa:
Acabou essa mërda de marido e mulher.
Ele não era mais nada meu.
E, pela primeira vez em meses, eu senti que ainda existia alguma força dentro de mim.