20 - O Tribunal

1438 Palavras
Imperador Narrando Eu tava sentado no meu trono de madeira e ferro, bem no fundo do galpão grande, o lugar reservado pros julgamentos sérios do comando. As paredes de tijolo aparente tavam sujas de fumaça, umas poucas lâmpadas amarelas penduradas no teto piscando fraquinhas, criando sombras longas no chão de cimento. O ar dentro do galpão tava abafado, cheirando a cigarro, suor e pólvora. Todo mundo calado, só o barulho distante dos tiros de festim lá fora e o zumbido de um gerador no canto. Eu olhava tudo com calma de quem já viu mërda demais. Do meu lado esquerdo, o Pitel, de braço cruzado, cara fechada. Do direito, o Bial, o vapor que tinha levado a Lívia pro hospital na noite anterior. Aí ela chegou. Lívia. Andando devagar pelo meio do galpão, com o olho ainda inchado pra c*****o, roxo, mas o resto. pörra, o resto era de tirar o fôlego. Vestia um vestido verde simples, curto no meio das coxas, colado no corpo de um jeito que não deixava nada pra imaginação. Linda pra dedéu. Parecia uma adolescente de uns dezoito, pele lisinha, cabelo solto caindo nos ombros. Mas eu sabia a verdade. Essa menina carrega nas costas um peso que muita mulher de quarenta não aguenta nem um mês. Eu achei ela linda pra pörra, mas não abri a boca pra falar nada. Fiquei só olhando, sem dar mole. No meio do galpão, Juca tava amarrado numa cadeira velha de madeira. Mãos pra trás, amarradas com corda grossa. Pés presos nas pernas da cadeira. Suado, camisa rasgada, cara de quem já tava sentindo o cheiro da morte. Eu bati o martelo improvisado na mesa de madeira e comecei, voz grave, sem pressa: — Juca, vapor do morro, servo do comando. Você tá aqui pra ser julgado pelo tribunal do crime. Por quatro anos inteiros você manteve Lívia presa contra a vontade dela dentro de casa. Espancava ela todo dia, quebrava o corpo dela com soco, chute, cinto. Estüprava ela quando queria, dopava ela com remédio pra fazer o que bem entendesse. E ainda maltratava o seu filho de três anos, que é autista. Isso aqui não é briga de casal, é covardia pura. O comando não tolera isso. Aqui a gente julga e decide. Todo mundo tava quieto. Eu olhei pro Juca e dei a palavra pra ele, como manda a lei do morro: — Fala, seu filho da püta. Tem direito de se defender. Ele ergueu a cabeça, olhos injetados de ódio, cuspiu no chão e começou a gritar: — O Imperador só pode tá pegando a minha mulher, ou querendo pegar ela! Olha pra cara dela, pörra! Tá me trocando pelo chefe né? Ele tem mais grana do que eu, mais poderoso, é isso que tu queria né, não cachorra? Eu te tirei daquele muquifo que tu morava, te botei numa casa de responsa, com comida na mesa, roupa no corpo. E tu foi pedir a minha cabeça, sua püta! Ele olhava pra Lívia com nojo puro, cuspe voando da boca enquanto gritava cada vez mais alto: — Não cachorra, eu te dei tudo e tu foi correndo pro chefe. Sua vadïa traidora! Lívia não abaixou a cabeça. Ficou parada, encarando ele direto nos olhos, sem piscar, sem tremer. O silêncio era tão grande que dava pra ouvir o coração batendo. Eu mandei seco: — Cala a boca, Juca. Ele não calou. Continuou berrando, cuspindo mais insulto. O Pitel não esperou segundo aviso. Deu um tapa com as costas da mão na boca dele, forte pra Carälho. O sangue voou, lábio rasgado, dente tilintando no chão. Juca gemeu, cabeça pendendo pro lado. — Cala a boca, seu pörra — rosnou o Pitel, limpando a mão na calça. Eu levantei a mão, fiz sinal de silêncio total e olhei pra Lívia. Dei a palavra pra ela, voz baixa mas firme: — Fala, Lívia. O que você tem pra dizer. Ela respirou fundo, voz tremendo um pouco mas firme. O olho inchado brilhava de raiva contida. Olhou pro Juca uma última vez, depois virou pra mim: — Acho que o meu rosto fala por si, chefe. Mas eu quero adoçar ainda mais o que eu passei nas mãos desse monstro. O homem que me estüprou enquanto eu tava dopada, me levou pra casa dele enquanto eu tava inconsciente, fez o que quis comigo. Me trouxe pra esse morro, me prendeu dentro de casa, me humilhou todo dia, abusou de mim quando queria, me bateu até eu desmaiar. Maltratava o meu filho, que também é filho dele, o menino autista, deixava ele chorando no canto, sem carinho, sem nada. Quatro anos de inferno. Ela parou, olhou direto pra mim, lágrima descendo devagar pelo rosto inchado mas a voz não falhou: — Por favor, chefe, me tira das mãos desse homem. Manda ele pro inferno. Só assim eu e meu filho teremos paz. O galpão ficou em silêncio absoluto. Eu sentia o peso de tudo, o olhar dela em mim, o ódio do Juca, o Pitel e o Bial esperando a minha palavra. O tribunal do crime tava decidido. O morro inteiro sabia o que vinha. E eu, ia decidir o destino daquele covarde ali mesmo, sem piedade. O ar tava tão carregado que parecia que ia explodir. O julgamento continuou no galpão, o ar ainda mais pesado, como se as paredes de tijolo fossem apertar todo mundo. Eu tava com o sangue fervendo por dentro, mas mantive a cara de pedra. Olhei pro Bial, que tava do meu lado direito, e fiz sinal com a cabeça: — Fala, Bial. Você que atendeu a Lívia na porta da minha casa, que levou ela pro hospital e viu os exames de perto. Conta tudo que sabe. Bial pigarreou, voz baixa mas firme, olhando pro chão primeiro antes de encarar o Juca amarrado: — Chefe, eu vi a Lívia chegar toda quebrada naquela noite. Olho roxo, corpo marcado de pancada. Levei ela pro hospital, fiquei lá enquanto fazia raio-X, exame de corpo inteiro. Tinha marca de soco nas costelas, e o laudo falava em estüpro recente. Eu levei ela e trouxe de volta. Seguindo a sua ordem. Eu me inclinei pra frente no trono, sentindo o ódio subir pela garganta: — E você sabia da existência dela, Bial? Ele baixou a cabeça um segundo, depois confirmou: — Sabia, chefe. Todo mundo no morro sabia que o Juca tinha uma mina do asfalto. Eu explodi, voz rouca de raiva, batendo o punho na mesa de madeira: — Por que tu não me falou nada, pörra? Por que ninguém nunca me falou nada? Eu sou o Chefe aqui, Carälho! Isso tava acontecendo debaixo do meu nariz e ninguém abriu a boca? Bial engoliu em seco, sem recuar: — Eu sabia que ele tinha uma mulher, chefe. Mas não sabia o que ela passava dentro de casa. Ninguém sabia. Ele mantinha ela trancada, dizia que era ciúme, que era coisa de casal. Ninguém imaginava o inferno que tava rolando. Eu virei pro Pitel, que tava do outro lado, braço ainda cruzado: — E você, Pitel? Sabia também? Pitel deu de ombros, cara séria: — Sabia sim, Imperador. Sabia que o Juca tinha uma mina do asfalto. A Jordana é marmita dele, e a outra que ele arrumou também. Mas era a mesma coisa: achava que era só mulher em casa, nada além disso. Ninguém entrava na casa dele pra ver o que rolava. O galpão ficou em silêncio de novo, só o Juca respirando pesado na cadeira, sangue seco no lábio. Eu me levantei devagar, olhei pra todo mundo e soltei a sentença, voz gelada: — Juca, seu covarde filho da püta. Pelo que fez com essa mulher e com o seu próprio filho, o tribunal do crime condena você à tortura e à morte. Vai sentir cada soco, cada humilhação que deu nela. Depois vai pro inferno que merece. Juca começou a se debater na cadeira, gritando, mas o Pitel deu um chute na perna dele pra calar. Eu olhei pra Lívia, que tava parada ali, linda e destruída ao mesmo tempo: — Lívia, você e o seu filho ficam com tudo que era do Juca. Casa, dinheiro, tudo. O comando vai garantir que ninguém encoste em vocês. Agora vai embora. Não quero que você veja o que vai acontecer aqui agora. Ela me encarou um segundo, acenou devagar e saiu do galpão, o vestido verde balançando nas coxas. O ar ficou ainda mais carregado. O Bial e o Pitel já tavam preparando as ferramentas no canto. O morro vai ter justiça hoje, do jeito que a gente faz. Sem piedade.
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