Tudo Começou no Santo Amaro/ 02

1426 Palavras
Lívia Narrando Quatro Anos antes... Quando fechei a porta de casa atrás de mim, encostei nela por alguns segundos, tentando respirar direito. — Tu tá bem? A voz da minha mãe veio da cozinha, junto com o cheiro de café fresco. — Tô — respondi rápido demais. Ela apareceu na porta, me analisando de cima a baixo. Mãe é föda, né? Vê coisa que a gente nem fala. — Virou a noite? — Foi. — Bebeu? Dei de ombros. — Um pouco. Ela estreitou os olhos, mas não insistiu. Só virou as costas. — Vai tomar um banho e depois come alguma coisa. Se ela soubesse... Entrei pro quarto, joguei a bolsa em cima da cama e fiquei olhando pro nada por alguns segundos. Minha cabeça ainda girava, não só pela bebida, mas por tudo. O quarto. Ele. O vazio na minha memória. Fui pro banheiro quase no automático. Liguei o chuveiro e deixei a água cair de novo, como se fosse apagar qualquer resquício daquela noite. Mas não apagava. Tem coisa que fica grudado. O cheiro dele. O jeito que ele me olhava. A forma como tudo parecia. natural pra ele. — Que loucura. — murmurei, apoiando a mão na parede. Saí do banho mais leve, mas não em paz. Passei o resto do dia tentando agir normal. Ajudei minha mãe, mexi no celular, respondi as meninas no grupo. — Amiga, tu sumiu do nada! —Tu foi com quem??? — Nem vi quando tu saiu, fiquei com um gatinho, também. Meu coração deu uma apertada. Eu não sabia responder. — Depois eu conto — mandei, fugindo. Mas nem pra mim eu tinha resposta. Perdi minha virgindade, com um cara que nunca tinha visto na vida, e nem lembro como foi. Os dias passaram. E ele não mandou mensagem. No começo, eu nem liguei. Ou pelo menos tentei fingir que não ligava. Afinal, foi só uma noite, né? Só que não era tão simples. Porque às vezes, do nada, eu lembrava daquele sorriso de lado. Ou da forma como ele falou: eu assumo. Ou daquele beijo rápido na porta da minha casa. E aquilo ficava martelando na minha cabeça. — Que ódio — resmunguei uma tarde, jogando o celular na cama. E foi exatamente nesse momento que ele vibrou. Número desconhecido. Meu coração disparou. Abri a mensagem com a mão levemente tremendo. — Oi, Sumida. Fiquei encarando a tela por uns bons segundos. Respirei fundo e respondi. — Sumida nada. Tu que desapareceu. A resposta veio rápido. — Eu tava ocupado, Gatinha, virando plantão. — E agora tá fazendo o quê? Demorou alguns segundos. — Pensando em tu. Revirei os olhos, mas sorri, igual uma idïota. — Convencido. — Só falo a verdade. Mordi o canto do lábio, tentando segurar o sorriso. — E qual é teu nome de verdade? Dessa vez, ele demorou mais. — Tu vai descobrir. — Ah não. — falei sozinha, rindo. — Tu é cheio de mistério, né? — Só o necessário. Fiquei um tempo olhando pra conversa, sem saber exatamente o que sentir. Curiosidade? Raiva? Vontade? Talvez tudo junto. — E quando eu vou te ver de novo? A mensagem foi no impulso. Quando percebi, já tinha enviado. Meu coração acelerou na hora. Ele demorou. E cada segundo parecia uma eternidade. Até que… — Hoje. Engoli seco. — Hoje? — Se tu tiver coragem. Meu peito aqueceu de um jeito estranho. Coragem. Era exatamente isso que eu não sabia se tinha. Olhei pro espelho. Pra mim mesma. Pra garota que tinha ido no primeiro baile achando que era só diversão, e voltou completamente diferente. Talvez eu já não fosse mais a mesma. Respirei fundo. — Que horas? A resposta veio como se ele já soubesse que eu ia aceitar. — Mais tarde eu passo aí, pra te pegar. Se arruma. Joguei o celular na cama, passando a mão no rosto. — Eu sou maluca. Mas no fundo? Eu já tava decidida. Porque, por mais confuso que fosse, por mais errado que talvez fosse. Eu queria entender o que tinha começado naquela noite. E principalmente. Eu quero conhecer ele melhor. Tomei banho mais demorado do que o normal. Não era só pra me arrumar, era pra tentar acalmar a ansiedade que tava crescendo dentro de mim. A água quente caía pelo meu corpo enquanto minha cabeça girava. — Tu tá ficando maluca, Lívia. — murmurei, fechando os olhos. Mas mesmo assim, eu sabia que ia. Saí do banho decidida. Abri o guarda-roupa e fiquei alguns segundos encarando minhas roupas até escolher. Short de couro falso, bem colado. Um body preto, decotado na frente, marcando tudo. Tênis branco. Simples, mas impossível de ignorar. Me olhei no espelho e comecei a me maquiar com mais calma dessa vez. Delineado saiu melhor, milagre. Passei gloss, dei um jeito no cabelo, deixando ele solto, caindo natural. Quando terminei, dei um giro na frente do espelho. — Tá, dá pro gasto. Peguei o celular e mandei mensagem pra minha mãe. — Vou sair, tá? Qualquer coisa te aviso. Ela demorou um pouco, mas respondeu. — Se cuida. Sorri de leve. Fiquei sentada na cama, esperando. O tempo parecia não passar. O céu foi escurecendo, a ansiedade aumentando, até o celular vibrar. — Já tô na tua porta. Meu coração disparou. Levantei na hora, respirei fundo e fui. Quando abri a porta Dei de cara com ele. Lindo. Cheiroso. Com aquele mesmo sorriso de lado que parecia saber exatamente o efeito que causava. — Caraca. — ele falou baixo, me olhando de cima a baixo — Tu se vestiu pra matar hoje, foi? Revirei os olhos, tentando disfarçar o sorriso. — Para de graça. Ele se aproximou e me deu um selinho rápido, como se aquilo já fosse normal entre a gente. E, de algum jeito, parecia mesmo. — Bora? Assenti. Subi na garupa da moto e segurei nele. O cheiro dele invadiu meus sentidos de novo, e meu coração acelerou sem pedir permissão. A noite tava fresca, o vento batendo no rosto enquanto a gente cortava as ruas. Dessa vez, eu não tava com medo. Tava curiosa. Ele parou em frente a uma pizzaria que eu nunca tinha ido, mas que dava pra ver de longe que era outro nível. — Tu merece coisa boa — ele falou, desligando a moto. — Gostei disso. — respondi, descendo. — Só trato bem quem eu gosto. Aquilo bateu diferente. Entramos, sentamos, e a noite foi leve. A gente conversou sobre um monte de coisa. Sobre música, sobre o baile, sobre coisas aleatórias. Eu falei da minha rotina, dos estudos, dos b***s que eu fazia. Mas quando o assunto era ele? Ele desviava. — E tu faz o quê? — perguntei, apoiando o queixo na mão. Ele deu um sorriso de canto. — Depois eu te conto. — Tu é muito misterioso, sério. — Calma, apressada. Balancei a cabeça, rindo. Depois que comemos, ele pagou tudo sem nem deixar eu tentar ajudar, e a gente voltou pra moto. — Agora tu vai me contar — falei, já desconfiada. — Quando a gente chegar — ele respondeu. Subimos pro morro, e dessa vez eu já prestava mais atenção em tudo. Onde ele morava, o caminho, as pessoas. Quando entramos na casa dele, meu coração deu uma acelerada diferente. Fechei a porta atrás de mim e fui direto ao ponto. — E aí? O que que tu faz? Ele encostou na parede, me olhando por alguns segundos. E então falou, simples: — Sou gerente da boca. Eu congelei. — Sério? Ele assentiu, tranquilo. Fiquei de boca aberta, processando. Aquilo era pesado. Ele é Perigoso. Ele deu um sorriso de leve, se aproximando. — Relaxa, tu não precisa ter medo de mim. Nem de nada. Antes que eu pudesse responder, ele já tava perto demais. A mão dele na minha cintura. O olhar preso no meu. E quando ele me beijou, eu simplesmente deixei. De novo. Dessa vez eu sentia tudo com clareza. Cada toque, cada arrepio, cada batida do meu coração acelerado. Era intenso. Viciante. Quando a gente se afastou, eu ainda tentava organizar meus pensamentos. — Qual teu nome de verdade? — perguntei, meio sem fôlego. Ele sorriu. — Jonathan. — Bonito. — Mas tu pode continuar me chamando de Juca. Assenti de leve. Fiquei olhando pra ele por alguns segundos, como se estivesse tentando entender onde eu tava me metendo. Mas no fundo? Eu já sabia, mesmo assim, eu não queria sair dali. Não ainda. Porque aquele perigo. tava começando a me atrair mais do que devia. Continua…
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