Gustavo
A carta tremia na mão dela.
Ou talvez fosse ela tremendo.
Pela primeira vez, desde o dia em que a conheci, Selena parecia… humana.
Não no sentido fraco.
Mas no sentido que dói.
No sentido que sangra.
E eu não estava preparado para ver isso.
O impacto das palavras dela ainda ecoava dentro de mim:
“Você é a arma que me fizeram acreditar que eu devia usar.”
Meu peito ardeu.
Não de raiva.
De algo muito mais perigoso.
— Deixe-me ver — pedi, com a voz mais baixa do que eu pretendia.
Selena apertou a carta contra o corpo, como se aquilo fosse o único escudo que restava entre nós dois.
— Não. — Ela engoliu em seco. — Não ainda.
Ela recuou um passo.
E o instinto mais primitivo dentro de mim gritou.
Não de posse.
Não de ciúme.
De medo.
Medo de perdê-la para algo que não éramos nós.
Medo de perdê-la para o passado.
O meu.
O dela.
O dos dois misturados como gasolina e fósforo.
— Selena… — dei um passo adiante — …você acha que eu queria isso?
Ela riu.
Mas não foi um riso dela.
Foi um riso partido.
— Não importa o que você queria, Gustavo. — Sua voz falhou. — Porque antes de você existir na minha vida, eu já existia para te usar.
Essa frase me cortou.
Fundo.
Mas eu vi a dor nos olhos dela — e percebi que ela não estava me atacar.
Ela estava quebrando por dentro.
— Você sabia? — ela perguntou, olhando direto para mim. — Você sabia que meu pai foi morto pelo seu?
— Não. — Minha resposta veio imediata. Crua. — Se eu soubesse, teria te dito.
Ela fechou os olhos, como se aquela sinceridade doesse mais.
— Eu não sei o que é meu pensamento… e o que é a missão dela — sussurrou. — Não sei se vim até você por escolha… ou porque fui moldada para isso desde criança.
Algo dentro de mim explodiu.
Eu atravessei a distância entre nós e segurei suas mãos.
Ela tentou se afastar.
Eu não deixei.
— Olhe para mim — ordenei.
Ela levantou o rosto, com lágrimas presas nos cílios que se recusavam a cair.
— Selena, você acha mesmo que alguém poderia te programar para me manipular? — Minha voz saiu firme, mas não fria. — Você é indomável. Helena podia ter te treinado, te escondido, te preparado… mas ela nunca controlou quem você é.
Ela respirou rápido, como se lutar contra um sentimento que não sabia nomear.
— E você? — ela perguntou. — Você consegue dizer que tudo o que sente por mim não é parte do jogo sujo dos nossos pais?
Minha respiração falhou.
Porque essa pergunta…
Essa pergunta eu não sabia responder sem machucá-la — ou me machucar.
— Talvez seja parte. — Minha voz saiu quase um sussurro. — Ou talvez seja exatamente o que eles nunca previram.
Seus olhos se arregalaram um pouco.
Eu aproximei meu rosto do dela.
Quase tocando.
— Eles queriam guerra — murmurei. — E nós dois somos o tipo de arma que se vira contra quem tenta segurar.
O ar entre nós ficou elétrico.
Pesado.
Fatal.
Ela apertou a carta e, pela primeira vez, não pareceu que ia fugir.
Parecia que ia enfrentar.
— Eu não sei o que fazer agora — ela admitiu, com a vulnerabilidade que ela nunca permitia expor. — Descobrir que meu pai foi morto… que minha vida inteira foi moldada para isso… que você…
Ela não conseguiu terminar.
Eu terminei por ela.
— …que eu sou a única pessoa que entende o que você está sentindo?
Ela respirou fundo.
Uma vez.
Duas.
E então, finalmente, deixou a carta cair.
Eu a peguei antes que tocasse o chão.
Selena não tirou os olhos de mim.
— Se vamos continuar juntos — disse ela, firme apesar da dor — precisamos saber o que é verdade… e o que foi manipulação.
Eu incline a cabeça.
— Então vamos descobrir.
— Como? — ela sussurrou.
— Começando pelo que Helena deixou escondido.
O nome dela pairou entre nós como um fantasma.
Selena fechou a mão, ainda tremendo.
— Gustavo… — disse ela, com a voz mais frágil que já ouvi — …eu não sei se, quando descobrir tudo, vou te escolher ou te odiar.
Eu aproximei minha boca do ouvido dela e murmurei, profundo, prometendo algo que nem eu sabia se podia cumprir:
— Não importa qual seja a verdade… eu vou lutar para que você me escolha.
Ela estremeceu.
E pela primeira vez desde que encontrei Selena…
…ela não parecia uma arma.
Parecia uma menina que perdeu o chão.
E mesmo assim, tinha lâmina nos olhos.
Um barulho violento ecoou no andar de baixo — explosão, vidro, gritos.
Viktor chamou:
— GUSTAVO! SELENA! Precisamos de vocês AGORA!
Selena respirou fundo, limpou o rosto com a mão e ergueu o queixo.
Fria de novo.
Forte de novo.
Mas não inteira.
— Depois disso — ela disse — eu quero saber tudo.
Eu abri a porta.
— Então vamos sobreviver para isso.
Descemos juntos.
Duas armas vivas.
Dois herdeiros quebrados.
Dois destinos que agora estavam acorrentados — por sangue, por dor… e por uma verdade que podia destruir os dois.