Capítulo 11

881 Palavras
Gustavo A carta tremia na mão dela. Ou talvez fosse ela tremendo. Pela primeira vez, desde o dia em que a conheci, Selena parecia… humana. Não no sentido fraco. Mas no sentido que dói. No sentido que sangra. E eu não estava preparado para ver isso. O impacto das palavras dela ainda ecoava dentro de mim: “Você é a arma que me fizeram acreditar que eu devia usar.” Meu peito ardeu. Não de raiva. De algo muito mais perigoso. — Deixe-me ver — pedi, com a voz mais baixa do que eu pretendia. Selena apertou a carta contra o corpo, como se aquilo fosse o único escudo que restava entre nós dois. — Não. — Ela engoliu em seco. — Não ainda. Ela recuou um passo. E o instinto mais primitivo dentro de mim gritou. Não de posse. Não de ciúme. De medo. Medo de perdê-la para algo que não éramos nós. Medo de perdê-la para o passado. O meu. O dela. O dos dois misturados como gasolina e fósforo. — Selena… — dei um passo adiante — …você acha que eu queria isso? Ela riu. Mas não foi um riso dela. Foi um riso partido. — Não importa o que você queria, Gustavo. — Sua voz falhou. — Porque antes de você existir na minha vida, eu já existia para te usar. Essa frase me cortou. Fundo. Mas eu vi a dor nos olhos dela — e percebi que ela não estava me atacar. Ela estava quebrando por dentro. — Você sabia? — ela perguntou, olhando direto para mim. — Você sabia que meu pai foi morto pelo seu? — Não. — Minha resposta veio imediata. Crua. — Se eu soubesse, teria te dito. Ela fechou os olhos, como se aquela sinceridade doesse mais. — Eu não sei o que é meu pensamento… e o que é a missão dela — sussurrou. — Não sei se vim até você por escolha… ou porque fui moldada para isso desde criança. Algo dentro de mim explodiu. Eu atravessei a distância entre nós e segurei suas mãos. Ela tentou se afastar. Eu não deixei. — Olhe para mim — ordenei. Ela levantou o rosto, com lágrimas presas nos cílios que se recusavam a cair. — Selena, você acha mesmo que alguém poderia te programar para me manipular? — Minha voz saiu firme, mas não fria. — Você é indomável. Helena podia ter te treinado, te escondido, te preparado… mas ela nunca controlou quem você é. Ela respirou rápido, como se lutar contra um sentimento que não sabia nomear. — E você? — ela perguntou. — Você consegue dizer que tudo o que sente por mim não é parte do jogo sujo dos nossos pais? Minha respiração falhou. Porque essa pergunta… Essa pergunta eu não sabia responder sem machucá-la — ou me machucar. — Talvez seja parte. — Minha voz saiu quase um sussurro. — Ou talvez seja exatamente o que eles nunca previram. Seus olhos se arregalaram um pouco. Eu aproximei meu rosto do dela. Quase tocando. — Eles queriam guerra — murmurei. — E nós dois somos o tipo de arma que se vira contra quem tenta segurar. O ar entre nós ficou elétrico. Pesado. Fatal. Ela apertou a carta e, pela primeira vez, não pareceu que ia fugir. Parecia que ia enfrentar. — Eu não sei o que fazer agora — ela admitiu, com a vulnerabilidade que ela nunca permitia expor. — Descobrir que meu pai foi morto… que minha vida inteira foi moldada para isso… que você… Ela não conseguiu terminar. Eu terminei por ela. — …que eu sou a única pessoa que entende o que você está sentindo? Ela respirou fundo. Uma vez. Duas. E então, finalmente, deixou a carta cair. Eu a peguei antes que tocasse o chão. Selena não tirou os olhos de mim. — Se vamos continuar juntos — disse ela, firme apesar da dor — precisamos saber o que é verdade… e o que foi manipulação. Eu incline a cabeça. — Então vamos descobrir. — Como? — ela sussurrou. — Começando pelo que Helena deixou escondido. O nome dela pairou entre nós como um fantasma. Selena fechou a mão, ainda tremendo. — Gustavo… — disse ela, com a voz mais frágil que já ouvi — …eu não sei se, quando descobrir tudo, vou te escolher ou te odiar. Eu aproximei minha boca do ouvido dela e murmurei, profundo, prometendo algo que nem eu sabia se podia cumprir: — Não importa qual seja a verdade… eu vou lutar para que você me escolha. Ela estremeceu. E pela primeira vez desde que encontrei Selena… …ela não parecia uma arma. Parecia uma menina que perdeu o chão. E mesmo assim, tinha lâmina nos olhos. Um barulho violento ecoou no andar de baixo — explosão, vidro, gritos. Viktor chamou: — GUSTAVO! SELENA! Precisamos de vocês AGORA! Selena respirou fundo, limpou o rosto com a mão e ergueu o queixo. Fria de novo. Forte de novo. Mas não inteira. — Depois disso — ela disse — eu quero saber tudo. Eu abri a porta. — Então vamos sobreviver para isso. Descemos juntos. Duas armas vivas. Dois herdeiros quebrados. Dois destinos que agora estavam acorrentados — por sangue, por dor… e por uma verdade que podia destruir os dois.
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