Um mês havia se passado desde a morte da minha tia, Maria Liandra. Agora, eu estava prestes a embarcar para um novo mundo, um recomeço doloroso, mas necessário. Meu coração estava partido em deixar aquele lugar que, apesar de tudo, foi meu lar por tantos anos.
“Chegou a hora de voltar para onde nasci”, pensei comigo mesma, tentando guardar as lembranças vagas do Rio de Janeiro. Lembro que, quando pequena, morávamos em um condomínio fechado, numa casa grande e bonita — isso eu jamais esqueci.
Estava quase chegando quando o Senhor João e a Dona Cláudia vieram me buscar. Sou imensamente grata a eles, que nunca me deixaram sozinha desde a morte da minha tia. Dona Cláudia me entregou a passagem para o Rio e me abraçou apertado.
— Minha menina, me avisa quando chegar e sempre que puder, me mande notícias. Quando eu estiver na Inglaterra, vou mandar umas coisinhas para você, viu? — disse ela, com a voz embargada.
— Pode deixar, vou avisar assim que pousar no Rio. Por favor, me avisem quando chegarem aí, tá? — respondi.
— Qualquer coisa, é só ligar pra gente, menina. Até breve — disse João, me abraçando firme.
Despedimo-nos, e segui rumo ao aeroporto.
Ao desembarcar no Rio de Janeiro, senti o cheiro característico da cidade: o ar quente, a brisa salgada que invade a pele, o sol que parecia me dar as boas-vindas. Enchi o peito de ar, tentando espantar a ansiedade e o medo.
Mandei uma mensagem para Paula pelo w******p.
Maylla: “Já cheguei no aeroporto do Rio.”
Paula: “Tô te esperando na saída, até já, baby!”
Poucos segundos depois, lá estava ela, correndo em minha direção com aquele sorriso enorme e o jeito agitado de sempre.
— Você veio, minha vida! Que saudade, quanto tempo, vaca! — ela berrava enquanto me abraçava apertado.
— Saudades de você também, sua louca! Quanto tempo não nos vemos em p*****a! — respondi, rindo.
Paula me deu os pêsames pela morte da tia e perguntou como eu estava lidando com tudo aquilo. Conversamos animadamente até o táxi que nos levaria até a casa dela, no Morro do Sapo — que agora seria meu novo lar.
Confesso que sentia um frio na barriga. Morar no morro me assustava, mesmo já tendo vivido ali quando era criança. As histórias que ouvi sobre aqueles lugares não eram nada tranquilizadoras. Mas Paula me garantiu que, se eu andasse na linha, poderia viver em paz.
Durante o trajeto, Paula falava sem parar, cheia de planos e ideias do que faríamos juntas, contando também sobre a relação complicada que tem com o pai. Amo esse jeito dela de saltar de um assunto para o outro, sem perder o ritmo.
De repente, o motorista parou e falou:
— Meninas, só posso ir até aqui, desculpa.
Achei estranho, mas Paula pagou a corrida e descemos do carro. Carregamos as malas — eu com uma, ela com outra. Perguntei por que o motorista não podia subir o morro conosco.
Antes que eu abrisse a boca, Paula me explicou:
— Aqui no morro, os motoristas não entram. É ordem do chefe daqui. É para a segurança deles e nossa. Eles só levam até o pé do morro, o resto a gente sobe a pé.
Na entrada, vários homens armados estavam espalhados — alguns fumando, outros com rádios, uns com camisetas e correntes, outros sem nada além da expressão séria.
De repente, um deles se aproximou:
— E aí, Paulinha, quem é a patricinha? — perguntou o tal BX, com um sorriso debochado.
— Oi, BX! Essa é a nova moradora do morro, Maylla. — Paula respondeu, apresentando-me.
— Satisfação, novinha — disse ele, olhando de cima a baixo.
— Espera aí, Paulinha, preciso avisar o chefe — falou BX.
— Beleza, avisa aí, BX. Ele já sabe de mim e da Maylla — respondeu Paula.
A tensão cresceu no meu peito. Será que ia dar problema? Será que me deixariam ficar? Paula me pediu para ficar calma, dizendo que aquilo era só um procedimento normal.
Logo, BX voltou e liberou nossa passagem. "Minha passagem", pensei. Eu agora fazia parte daquele lugar, para o bem ou para o m*l.
Enquanto subíamos o morro, observei o vai e vem das pessoas. Crianças brincavam pelas ruas, pequenos bares e lojinhas abertas davam vida ao lugar. Mas também vi os traficantes, muitos jovens adolescentes já presos na vida errada, e tentei esconder o medo que começava a tomar conta de mim.
Notei BX trocar um olhar cúmplice e até um beijo de mão para Paula. Parece que ali havia mais i********e do que apenas amizade. Eu mantive distância, achando que, realmente, eles deveriam ter algum "rolo". Ri sozinha sem ela perceber.
Mais à frente, não resisti e perguntei:
— Paulinha, quem é aquele homem?
— Ah, Maylla, BX é braço direito do D4, o dono do morro. Ele cuida da segurança daqui, ninguém passa sem autorização. — Paula explicou, sem esconder a admiração.
— E quem é esse tal de D4? — perguntei, franzindo a testa.
— O chefe daqui, o cara que manda em tudo. Logo você vai conhecê-lo.
Fiz uma cara nada boa. Se ele fosse aquele tipo de gente que aparece na TV, eu preferia nem conhecer. Paula percebeu minha preocupação e tentou me tranquilizar.
— Relaxa, só andar na linha e ficar de boa, amiga. Você vai gostar daqui, não é essa coisa toda que falam.
— Ah, amiga, sei não... — respondi, meio desconfiada.
— Relaxa, vai dar tudo certo.
Fiquei ainda mais curiosa e brinquei:
— E me diz, quem é esse gato do BX? Pelo que vi, ele tá caidinho em você, hein?
— Ai, miga, eu e ele só ficamos. Eu gosto dele, mas sei que ele não gosta de mim. Melhor nem falar muito, porque ele é um baita safado.
— Ah, você também é certinha demais, mas tenho certeza que ele é caidinho em você, sim!
Seguimos conversando e rindo até chegarmos à casa dela, meu novo lar, cheio de incertezas, medos, mas também esperança.