capítulo 4

724 Palavras
Cheguei na lanchonete da tia Lu já com a fome batendo na porta. Pedi uma breja gelada, daquele jeito que só ela sabe servir, e meu prato de sempre — feijão bem temperado, arroz soltinho, carne na brasa com aquela farofa que é famosa no morro inteiro. Me sentei na mesa do canto, o celular na mão e a mente longe. A rua tava movimentada, som de risada misturado com barulho de moto subindo o morro. O calor da tarde grudava na pele. Foi então que vi. Paulinha chegando com uma mina do lado. Morena clara, cabelo preto liso batendo na cintura, olhos vivos, olhar de quem observa tudo em silêncio. Linda. Um tipo que não se vê todo dia por aqui. A cara de anjo misturada com a postura de quem cresceu com tudo no lugar. “Essa deve ser a novata.” Elas vieram até mim. Paulinha sorriu como sempre. — E aí, D4! Essa é a Maylla, minha amiga. A que veio morar comigo. Olhei pra ela. De cima a baixo. Não com falta de respeito — mas com aquela análise que a rua ensinou a fazer em segundos. — Seja bem-vinda, mina. Qualquer coisa, dá um salve — falei, com a voz seca, mas firme. Ela respondeu com um “obrigada” quase sussurrado, meio tremendo. Tava nervosa. Eu sentia. Aquela ali não era acostumada com homem como eu. Talvez nem com lugar como esse. Mas o olhar dela... O olhar ficou preso no meu por mais tempo do que ela queria. As duas se afastaram e sentaram em outra mesa. Mas mesmo de longe, eu ainda observava. Ela mexia no cabelo, disfarçava, mas toda hora olhava de canto de olho. Linda demais. Mas com jeito de patricinha deslocada. Mole. Inocente. Um perigo pra mim. Terminei meu almoço. Bebi o resto da cerveja, respirei fundo e levantei. Hora de voltar pro corre. Já de volta na boca, os rádios pipocando com chamados, movimentação nos becos, entrega de mercadoria. A mente voltada pro negócio. Fui direto pra minha sala resolver pendências, verificar as contas do morro, ver quem tava devendo, quem tava vacilando. A porta se abriu de repente. Sem aviso. Era o BX, claro. Sempre com essa mania de entrar sem bater. — Enfiou a mão na onde, c*****o? No cu foi? — rosnei, levantando a cabeça do papel. Ele levantou as mãos, já rindo. — Calma, chefe! Da próxima eu bato, pode deixar! — disse, na maior cara de p*u. — Acho bom. Fala logo o que tu quer, tô sem paciência hoje. BX se encostou na parede, meio rindo, meio cauteloso. — E aí, chefe... viu a amiga da Paulinha? A que tá morando com ela agora? Mina bonita, da p***a. Levantei a sobrancelha. — Deixa a Paulinha saber que tu tá falando assim da amiga dela... tenho até dó de tu. Ele soltou uma gargalhada debochada. — Pega nada, chefe. Oxi... se der mole, pego ela e a amiga junto, tá ligado? — falou, como se fosse o dono do mundo. Apenas encarei ele, sério. Um segundo de silêncio bastou pra baixar o clima. — Vai caçar o que fazer, BX. Ronda. Agora. E aproveita: já falei com o Corote. Manda ele puxar a ficha da mina. Nome completo, antecedentes, onde nasceu, onde estudou, o que comeu ontem, o que assistiu, até com quem sonhou. Eu quero tudo. Entendeu? — Fechado, chefe. Tô nessa. — ele respondeu, se ajeitando e saindo com o r**o entre as pernas, mas ainda com aquele sorrisinho irritante no canto da boca. Quando a porta se fechou, respirei fundo. Me levantei, tirei a camiseta e encarei o espelho da sala. “Patricinha no morro. Que p***a será que isso vai dar?” Não sei por quê, mas tinha algo nela que mexeu comigo. E isso me irritava. Porque coração é uma merda que eu aprendi a enterrar aos 17 anos, junto com meu pai e minha infância. Peguei minha Glock, joguei dentro do armário, tirei o cordão e fui direto pra casa. Tomei um banho gelado, o corpo quente do corre o dia inteiro. Vesti meu short de dormir, deitei na cama, encostei a cabeça no travesseiro... E pela primeira vez em muito tempo... não pensei em arma, nem em carregamento, nem em dívida de morador. Pensei... no sorriso da novata.
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