Joel
Me chamo Joel! Eu sou e sempre fui um cara que gostou de coisas boas, de frequentar festas caras e conhecer lindas garotas, claro, eu me achava no direito, meus pais nunca mediram esforços para me darem tudo do bom e do melhor, como sendo dono de um dos maiores escritórios de advocacia da região, dinheiro nunca faltou pra gente.
Mas como todo garoto mimado, eu tive os meus dias de rebeldia, e achava que o capitalismo no qual minha família vivia era opressor.
— Chegou bêbado em casa de novo, Joel? – meu pai perguntou em tom nada agradável. – Quer saber? Eu já não sei mais o que fazer com você.
— Então, não faça nada. – respondi em tom de deboche. – Você nunca fez nada mesmo.
— Eu sempre te dei tudo! Boa escola, boas roupas, viagens e você vem me dizer que eu nunca te dei nada? Moleque insolente, bem que você merecia uma lição!
— Uma lição? Que lição? – perguntei, encarando meu pai e o desafiando.
Logo minha mãe entrou no meu quarto, ela temia um confronto entre mim e o meu pai.
— Por favor, parem com isso! Minus, deixa ele ficar sóbrio, depois vocês conversam. – ela pedia desesperada.
— Deixar ele ficar sóbrio? É por isso que esse menino está assim, Kasia! Você o protege, mas eu não vou mais tolerar isso! Já chega dessa vagabundagem dentro da minha casa! – ele disse, partindo pra cima de mim. – Ou você se concerta, ou pode deixar esta casa, Joel.
As palavras do meu pai soaram como uma bomba para mim, eu ainda estava zonzo por causa da bebedeira da noite anterior, mas sabia muito bem o que o meu pai queria.
Eu já não era mais o garotinho com o qual ele brincava raras vezes, eu já era um homem. Respirei fundo e quando fui responder o meu pai, meu estômago revirou e vomitei o quarto todo. O velho gritou de raiva, saiu do quarto e me deixou, minha mãe o seguiu.
Após vomitar, saí cambaleando até o guarda-roupas para fazer minha mala, mas não consegui, desmaiei ali mesmo, aos pés do roupeiro. Acordei horas depois com a empregada limpando a minha sujeira.
— Por que você não deixou isso para eu fazer, Ayame? – Perguntei para a mulher que já estava na família há vários anos.
— Eu não poderia te deixar dormir em meio ao vômito, menino. – respondeu com um largo sorriso.
— Por que você não me dá bola, Ayame? Você é maior gata! – desferi a cantada, enquanto me levantava do chão.
Ayame apenas sorriu, já estava acostumada com as minhas brincadeiras, mas na verdade, eu a respeitava muito por sua história de vida e com certeza vou sentir falta dela.
— Eu vou embora, Ayame! Vou sair de casa ainda hoje. - Ela me olhou com os olhos arregalados.
— Do que está falando, menino? Como ir embora? – ela retrucou, sem acreditar.
— É verdade, o meu pai me expulsou de casa.
— Eu não acredito! Sua mãe não vai deixar. – respondeu.
— Eu não vou criar uma guerra entre eles Ayame, ele quer que eu me torne advogado, mas esse não é o meu sonho, eu sou um fotógrafo, é isso que eu quero ser. - Ayame suspirou.
— Eu entendo você, mas as vezes o caminho que decidimos seguir não é o melhor. – Ela falou como se escondesse algo.
— Por que está falando desse jeito, Ayame? Você fez escolhas erradas?
A resposta foi o silêncio e ela apenas pegou seu material de limpeza, pediu licença e saiu pela porta. Eu finalmente estava com forças para fazer a minha mala. Para onde ir? Essa era uma pergunta que nem eu mesmo sabia da resposta, talvez alugar um quarto na periferia.
Isso seria um soco no rosto do meu pai. Imagina os amigos do grande Minus verem seu filho morando em um cortiço? Isso seria engraçado.
— Tem certeza disso, meu filho? – disse minha mãe ao se despedir de mim. – Eu vou falar com o seu pai.
— Não, mãe! Eu não posso deixar mais o meu pai me humilhar da forma como ele vem me humilhando. – respondi colocando a mochila nas costas.
— Você também o provoca, Joel ! Sempre chega bêbado em casa, trancou a faculdade que ele pagou para você...
— Ele não tem o direito de decidir a minha vida, mãe. – eu a interrompi. — Vou seguir o meu próprio caminho e mostrar ao meu pai que eu posso conseguir sem ele.
Saí de casa naquele dia com a mochila nas costas e o orgulho ferido, mas inflamado, não olhei para trás, peguei um táxi até o centro da cidade e, por um contato de um amigo de festas antigas, acabei alugando um quarto minúsculo numa casa velha na periferia.
A dona era uma mulher jovem chamada Ronan, uns 28 anos no máximo, cabelo curto tingido de roxo, braços cobertos de tatuagens coloridas, que vivia de consertos de moto e aluguel de quartos. O lugar cheirava a mofo, tinha uma cama dura, um armário enferrujado e um banheiro compartilhado com outros inquilinos.
Nada comparado ao meu quarto de antes, com vista para o jardim e ar-condicionado, mas era meu, paguei o primeiro mês adiantado com o pouco dinheiro que tinha guardado de mesadas não gastas.
Nos primeiros dias, a realidade bateu forte. Acordava com barulho de galinha no quintal vizinho, comia marmita barata e passava horas mandando mensagens para contatos antigos, oferecendo meus serviços como fotógrafo.
Eu sempre tive talento pra isso desde adolescente, clicava festas, viagens, modelos amadoras nas baladas.
Aos poucos, os trabalhos começaram a pingar: ensaios de debutantes, fotos de produtos pra lojinhas online, eventos pequenos em bares. Nada glamouroso, mas era o que eu queria. Fotografar o mundo do meu jeito, sem terno e gravata no escritório do meu pai.
Com o passar das semanas, minha mãe começou a aparecer. Ela vinha de carro, discreta, trazendo comida caseira, roupas limpas e um envelope com dinheiro "pra ajudar".
Sempre choramingava um pouco, perguntava se eu estava bem, se precisava de algo, aceitava a comida, devolvia o dinheiro. "Mãe, eu tô me virando. Não quero depender de ninguém." Ela falava do meu pai em tom baixo, como se ele fosse um vulcão adormecido: "Ele está bravo ainda, Joel. Mas o tempo cura." Eu só balançava a cabeça. Minus não ligava, não mandava mensagem, nada. O afastamento era total, como se eu tivesse sido riscado da família. Doía, mas eu usava isso como combustível.
(....)
O primeiro ensaio fotográfico de verdade veio cerca de um mês depois que eu me mudei para o quarto da Ronan.
Até então eu só tinha feito jobs rápidos: fotos de produto para uma lojinha de bijuterias no i********:, algumas imagens de comida para um restaurante de marmita chique, coisa mecânica, sem alma, aí apareceu a Asmina.
Ela me encontrou pelo stories que eu postava quase todo dia, eu compartilhava cliques aleatórios da rua, luzes de fim de tarde na periferia, retratos de desconhecidos que deixavam. Um dia ela mandou direct: "Ei, Joel, tô querendo fazer um ensaio pessoal. Nada muito produzido, só eu, luz natural, algo mais cru. Você topa?"
Asmina era uma garota de 22 anos, estudante de dança contemporânea, corpo magro e flexível, pele morena clara, cabelo loiro que ia até a cintura, tinha um olhar intenso, daqueles que parecem carregar histórias não contadas. Combinamos um valor baixo, porque eu ainda precisava construir portfólio e marcamos para um sábado de manhã num parque abandonado nos fundos do bairro industrial, lugar que eu já tinha explorado, galpões velhos, muros com grafite descascando, vegetação tomando conta do concreto.
Cheguei cedo, com minha câmera, duas lentes (a 50mm e a 85mm), tripé leve e um refletor dobrável que comprei usado. Ela apareceu de bicicleta, vestindo um macacão jeans surrado, tênis velho e uma blusa branca básica. Sem maquiagem forte, só batom nude e rímel. Trouxe uma garrafa d'água e uma toalha.
— Quero que seja simples. - repetiu.
— Você que manda. - respondi e iniciamos a sessão.
Foram quase três horas. No final, sentamos num banco enferrujado, tomamos água, rimos de como o lugar parecia cenário de filme pós-apocalíptico, ela disse que se sentiu livre como há tempos não se sentia e eu também estava feliz pois sabia que as fotos ficariam ótimas.
Naquela noite, em casa, editei até de madrugada. Escolhi tons quentes, contraste alto, grão leve para dar textura antiga, montei uma sequência de 25 fotos e mandei o link para ela no dia seguinte. — c*****o, Joel, ficou incrível. Parece que você leu minha alma. - Asmina disse feliz.
Ela pagou direitinho, indicou para duas amigas, e aquelas imagens viraram o carro-chefe do meu portfólio inicial. Foi o primeiro ensaio em que eu senti que estava realmente começando a ser o fotógrafo que sempre quis ser, longe do dinheiro fácil do meu pai, longe das festas vazias, só eu, a câmera e alguém disposto a se mostrar de verdade.