Seis anos depois
Anaya ficou de pé diante de seus pais com a cabeça baixa. Lágrimas brotaram em seus olhos, mas ela não deixou que caíssem. Era fascinante o controle que ela tinha sobre suas próprias lágrimas, que dependiam dela para cair, mas sua aparição não.
A mãe de Anaya, Ginny, sempre franzia o cenho quando olhava para sua filha mais velha, era como se estivesse lembrando do momento mais desagradável de sua vida. Seu pai, Edgar, não era melhor.
O desprazer em seus olhos era tão real quanto poderia ser. Anaya não se atreveu a olhá-los nos olhos, a assustava ver a quantidade de emoções negativas que tinham em relação a ela.
Pareciam lhe perguntar: Por que você não morreu ao invés de Arnold? Por que você ainda está viva quando meu filho morreu? Você também deveria ter morrido...
Anaya apertou os dedos juntos até as pontas ficarem brancas pela falta de sangue.
— Mamãe, papai, não digam mais nada para a Anaya! Ela não fez nada. Foi minha culpa por correr sem cuidado! — Charlotte sentou no sofá com um lindo vestido e falou em voz baixa. Sua irmã já tinha dez anos, mas o brilho infantil ainda não havia desaparecido de suas bochechas.
Ela estava defendendo Anaya hoje, mas Anaya só queria que ela parasse. Será que ela não sabia que quanto mais falasse, mais zangados seus pais ficavam?
— Você não sabe de nada, Charlotte, vai para o seu quarto. Hoje eu vou colocá-la no devido lugar! — Ginny cerrava os dentes enquanto pegava o chicote de couro novamente. Edgar resmungou e não tentou impedi-la.
— Mamãe, não! — Charlotte disse com os olhos vermelhos, estava prestes a chorar. Anaya suspirou no seu íntimo. Acabou. Estava prestes a ter novas cicatrizes, novos pesadelos. De qualquer forma, não era nada novo. Anaya tinha muitos deles.
— Sua mãe disse para você sair. Hoje é seu aniversário e seus amigos vão estar aqui daqui a algumas horas. Não fique com essas roupas sujas, troque pelo vestido que trouxemos ontem. Eu vou subir para arrumar seu cabelo.
Ginny tinha um sorriso amável enquanto falava com Charlotte, que olhava para o próprio vestido, que tinha uma grande mancha amarela.
Os olhos de Anaya também estavam fixos na mancha. Não era uma mancha enorme, mas era perceptível. Anaya estava encarregada de fazer os preparativos para o aniversário de Charlotte e estava preparando um suco quando Charlotte desceu e começou a falar com ela.
Os pais de Anaya não gostavam quando Charlotte falava com ela, era como se fosse uma escrava mantida em casa apenas para fazer o trabalho deles, conversar com ela era como rebaixar seus padrões. A família dos ômegas, em algum momento, passou de quatro para três.
Anaya sabia muito bem que se fosse vista com Charlotte haveria uma surra esperando por ela. Para se salvar, Anaya tinha dito para Charlotte sair e brincar em outro lugar, mas Charlotte não ouvia. Ela nunca ouvia.
Anaya não sabia de quem era a culpa de que o jarro de suco recém-preparado virou e caiu no vestido novo de Charlotte. Mas, no fim, naturalmente, Anaya seria culpada.
Agora, Anaya estava esperando por seu castigo, tentando contrair seu corpo o máximo possível. Sendo uma ômega, sua tolerância à dor não era alta, seu corpo não se curava rápido e as cicatrizes permaneciam em seu corpo.
Edgar levou Charlotte embora e Ginny finalmente não se conteve. Anaya foi levada para o porão, que era frio e silencioso. Anaya sentiu arrepios pelo corpo assim que entrou. Ela estava muito familiarizada com aquele lugar, todos os seus castigos eram realizados ali. Tudo para que Charlotte não fosse perturbada por seus gritos.
— Você não vai começar? — Ginny olhou para o corpo tremendo de Anaya sem dar nenhum indício de calor. Anaya sentiu que, naquele momento, se sua mãe demonstrasse um pouquinho de calor, ela esqueceria de tudo. Até a frieza do porão se transformaria em um paraíso quente.
Anaya sempre olhava nos olhos de sua mãe antes de iniciar um castigo, queria ver se sua mãe sentia algo ao bater nela, mas só via o ódio infinito nas profundas piscinas azuis. Decepcionada e triste, Anaya levantou a parte de cima de sua blusa e a colocou no chão. Sua fina camisola de algodão e uma calça de moletom velha ficaram. Anaya segurou seus braços e tremeu mais quando se virou.
Houve um som de estalo e então uma dor ardente em suas costas. O chicote de couro desceu sem piedade e rasgou a camisola, o local onde ficou rasgada, manchada de sangue instantaneamente.
Anaya mordeu o lábio e fechou os olhos. Ela já havia feito isso muitas vezes antes, conseguia fazer mais uma vez. Anaya só se encolhia quando o chicote descia em seu corpo, assim que ele era levantado, ninguém poderia dizer que suas costas ficaram em carne viva com a surra.
Depois de cinco chicotadas, Ginny enlaçou o chicote em sua mão e se virou para sair. Anaya ficou parada lá, segurando os braços e tremendo. Seus lábios tinham uma cor branca pálida. Quando ouviu os passos se afastando, chamou em uma voz desesperada.
— Mamãe...?
Não houve resposta. Os passos não pararam para ela e a porta do porão foi fechada violentamente. Anaya engoliu suas emoções e pegou a blusa com as mãos trêmulas. A blusa dela também estava manchada de suco. Anaya não teve forças para vesti-la novamente, suas costas estavam queimando. O porão estava frio, mas era bom. De repente, o frio, o silêncio lhe trouxeram paz e ela gostava de como se sentia segura em um lugar tão horrível.
Anaya sentou no chão frio com sua blusa na mão, a enrolou e a colocou no chão. Ela se deitou com a cabeça na blusa. Agora ela não precisará voltar para se preparar para o aniversário da irmã. Agora, Anaya não precisará ver a comemoração que nunca foi feita para ela.
Era engraçado como o aniversário de Anaya e Charlotte era no mesmo dia, mas as comemorações que recebiam eram tão diferentes.