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1363 Palavras
A viagem de Emily havia terminado, mas o cansaço ainda permanecia em cada parte do seu corpo. Os três dias fora da cidade tinham sido intensos, quase sufocantes em termos de trabalho. Reuniões longas, negociações tensas e decisões importantes que poderiam definir o futuro de alguns dos maiores projetos da empresa. Ainda assim, ela havia conseguido cumprir tudo o que precisava. Cada contrato havia sido analisado com cuidado, cada proposta discutida com precisão. Emily Carter nunca fazia nada pela metade. Agora, sentada no banco traseiro de um táxi que seguia em direção à cidade, ela finalmente permitia que o corpo relaxasse um pouco. O céu do fim da tarde estava tingido de tons dourados e alaranjados, e a estrada parecia tranquila demais para aquela hora. Árvores altas ladeavam o caminho, criando sombras longas sobre o asfalto. O motorista dirigia com atenção, mantendo uma velocidade estável enquanto uma música antiga tocava baixinho no rádio. Emily olhava pela janela, distraída. Era estranho pensar que estava voltando para uma casa que agora dividia com alguém. Alexander. Seu marido. A palavra ainda parecia estranha em seus pensamentos, como algo que ainda não havia se encaixado completamente em sua realidade. Ela se lembrava claramente do acordo entre os dois. Um casamento de um ano. Nada de expectativas. Nada de obrigações emocionais. Apenas aparência. Apenas um contrato. Ainda assim, às vezes, pequenos momentos escapavam dessa lógica tão organizada. Como no domingo anterior, quando o viu na piscina pela manhã. Ou quando ele riu ao perceber que ela o observava pela janela. Emily corou levemente ao lembrar disso e desviou o olhar para a própria bolsa no banco ao lado. Ela a abriu e pegou o celular. Havia algumas mensagens não lidas. A maioria era da empresa. Uma delas era de Clara. Clara, sua secretária. Sua aliada mais confiável dentro da empresa. Emily abriu a conversa. “Chefe, já organizei as reuniões de quarta-feira e quinta-feira. Quando chegar, me avise para atualizá-la sobre algumas coisas importantes.” Emily sorriu discretamente. Clara era eficiente, direta e extremamente leal. Ela começou a digitar uma resposta. “Chego hoje à noite. Amanhã cedo falamos.” Mas antes que pudesse enviar, uma nova notificação apareceu. Número privado. Emily franziu levemente a testa. Mensagens de números desconhecidos raramente significavam algo bom. Mesmo assim, abriu. O texto era curto. Frio. E suficiente para fazer seu corpo gelar. “Você deveria ter morrido junto com seus pais.” Emily piscou lentamente. Seu coração bateu um pouco mais forte. Ela leu novamente. As palavras pareciam ainda mais cruéis na segunda leitura. “Você está vivendo em um lugar que não pertence a você. Cuidado. Acidentes acontecem.” Por alguns segundos, ela ficou apenas olhando para a tela. Uma sensação estranha percorreu sua espinha. A primeira reação foi racionalizar. Talvez fosse apenas uma provocação. Alguém tentando intimidá-la. Nos últimos meses ela havia enfrentado muitas disputas internas na empresa. E também havia o ressentimento claro de algumas pessoas da família de Isadora. Vincent. Malena. Catherine. Nenhum deles havia aceitado bem o fato de que Emily agora liderava a empresa. Mas ameaças diretas…? Isso já era outra coisa. Emily respirou fundo e bloqueou a tela do celular. Talvez estivesse exagerando. Talvez fosse apenas alguém tentando assustá-la. Mesmo assim, uma pequena inquietação começou a se formar dentro dela. — Está tudo bem, senhora? — perguntou o motorista pelo retrovisor. Emily percebeu que havia ficado muito quieta. — Sim… está tudo bem. Ela guardou o celular na bolsa e voltou a olhar pela janela. A estrada estava quase vazia agora. A cidade ainda estava a alguns quilômetros de distância. O carro seguia tranquilamente. Mas a sensação de desconforto não desapareceu. Emily cruzou os braços, tentando ignorar o peso estranho que havia se instalado em seu peito. Foi então que o motorista franziu a testa. — Estranho… — O que foi? — perguntou Emily. — Aquele carro… Ela levantou os olhos. Um carro preto vinha na direção contrária. Em alta velocidade. Rápido demais para aquela estrada. O motorista apertou levemente o volante. — Esse cara está correndo muito… Emily também observou o veículo se aproximando. Por um instante, algo dentro dela apertou. Talvez fosse apenas coincidência. Talvez fosse apenas sua mente ainda presa àquela mensagem estranha. Mas havia algo errado. O carro não diminuía a velocidade. Pelo contrário. Parecia acelerar ainda mais. — O que ele está fazendo…? — murmurou o motorista. Os segundos seguintes aconteceram rápido demais. O carro atravessou parcialmente a pista. Direto na direção deles. — Segure-se! — gritou o motorista. Emily m*l teve tempo de reagir. O impacto veio com uma força brutal. O som de metal esmagando metal explodiu no ar. O táxi girou violentamente. O mundo virou um caos de movimento e ruídos. Vidros quebrando. O carro sendo jogado para fora da estrada. Emily sentiu seu corpo ser arremessado contra o banco. O cinto de segurança travou com violência. Sua cabeça bateu contra algo duro. Então veio o silêncio. O carro parou entre o mato ao lado da pista. O rádio ainda chiava baixinho. Mas Emily não se movia. --- Eu estava no meu escritório quando o telefone tocou. Era início da noite. A luz da cidade começava a acender além das grandes janelas do prédio enquanto eu analisava alguns relatórios financeiros. Minha mente estava completamente concentrada nos números. Nos problemas da empresa. Nas soluções que ainda precisava encontrar. O telefone tocou novamente. Peguei o aparelho quase distraidamente. — Alexander Laurent. Houve uma pequena pausa do outro lado da linha. Então uma voz séria respondeu. — Senhor Laurent, estou ligando do Hospital Central. Meu corpo imediatamente ficou alerta. — Hospital? — Sim. Estamos tentando entrar em contato com familiares da senhora Emily Laurent. Meu coração deu um salto no peito. — O que aconteceu? — Ela sofreu um acidente de trânsito há cerca de meia hora. As palavras demoraram alguns segundos para realmente fazer sentido. Acidente. Emily. Levantei-me da cadeira imediatamente. — Ela está bem? — Ela foi trazida inconsciente. Os médicos estão avaliando o estado dela agora. Inconsciente. Minha mão apertou o telefone com força. — Estou indo. Desliguei antes mesmo de ouvir qualquer outra coisa. Peguei o paletó e saí do escritório. Não lembro exatamente do trajeto até o hospital. Tudo parecia rápido demais. Confuso demais. Minha mente só repetia a mesma pergunta. Como isso aconteceu? Quando cheguei ao hospital, entrei quase correndo. Uma recepcionista levantou os olhos. — Senhor Laurent? — Minha esposa — disse sem parar. Ela apontou para o corredor. — O médico está esperando. Caminhei até lá com passos rápidos. O médico parecia me aguardar. — Senhor Laurent. — Como ela está? Ele respirou fundo. — Sua esposa sofreu um impacto forte. O carro em que ela estava foi atingido por outro veículo e saiu da estrada. Meu peito apertou. — Ela está viva? — Sim. Uma parte da tensão no meu corpo se soltou. — Mas ela ainda está inconsciente. Passei a mão pelos cabelos. Por que aquilo estava me afetando tanto? Emily e eu tínhamos um acordo. Um casamento de fachada. Nada mais. Mas naquele momento… Nada disso parecia importar. A única coisa que eu conseguia pensar era que ela estava ali. Ferida. Sozinha. — Posso vê-la? — perguntei. O médico assentiu. Ele abriu a porta do quarto. E eu entrei. Emily estava deitada na cama. Pálida. Imóvel. Alguns curativos estavam em sua testa e no braço. Uma máquina monitorava seus batimentos cardíacos. O som constante do monitor preenchia o quarto silencioso. Eu me aproximei lentamente. Algo dentro de mim apertou de uma forma que eu não esperava. Sentei-me na cadeira ao lado da cama. Olhei para ela por um longo momento. Essa mulher… Minha esposa de mentira. A mulher que entrou na minha vida como um acordo. Como um contrato. Mas ali… Naquela cama de hospital… Ela parecia tão vulnerável. Tão frágil. Passei a mão pelo rosto. — Emily… — murmurei. Ela não respondeu. Continuei olhando para ela. E naquele momento percebi algo que ainda não havia admitido nem para mim mesmo. A ideia de perdê-la… Mesmo sendo apenas minha esposa de fachada… Me atingia muito mais do que deveria. Muito mais do que eu estava preparado para aceitar.
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