Capítulo 1 — Dois Mundos, Um Destino
A vida sempre pareceu uma sucessão de escolhas injustas para Larissa Alexandra Botelho.
Aos vinte e quatro anos, ela já carregava nos ombros o peso de responsabilidades que muitas pessoas passavam a vida tentando evitar. Nascida em uma pequena cidade no interior de Minas Gerais, filha única de João Botelho, um ex-professor de filosofia agora doente e enfraquecido, e de Maria Helena, uma costureira amorosa que partira cedo demais, Larissa aprendeu desde cedo que o amor, embora bonito, raramente bastava para encher a mesa.
Com a morte da mãe, ela abandonou os estudos de Letras antes de se formar e, determinada a mudar o rumo da própria história, aceitou um emprego em Atenas como tradutora bilíngue em uma agência internacional. Tinha um dom natural para idiomas — falava português, inglês e grego com fluência — e uma inteligência intuitiva, dessas que captam nuances de gestos e silêncios.
Apesar das dificuldades, Larissa nunca perdeu a doçura. Gostava de ler poesia grega nas horas vagas, ouvir música clássica — especialmente Yanni, seu favorito — e caminhar à beira do mar observando os reflexos dourados do sol no Egeu.
Vivia em um pequeno apartamento no bairro de Piraeus, decorado com simplicidade e flores frescas, sempre tentando transformar o pouco que tinha em algo bonito.
Era uma mulher de beleza serena: pele morena clara, cabelos castanhos longos e levemente ondulados, olhos cor de mel que pareciam sempre esconder uma pergunta. Sua beleza não era extravagante, mas magnética — uma mistura de timidez e firmeza, de quem já enfrentou o pior e ainda assim escolheu sorrir.
Seu melhor amigo, Dimitri Karras, um fotógrafo grego sonhador e falante, era o tipo de pessoa que dizia que Larissa tinha “alma de artista e coração de guerreira”. Ele a apoiava em tudo, e embora às vezes demonstrasse algo mais que amizade, Larissa nunca o incentivou — havia dentro dela um medo profundo de se permitir sentir demais.
Mas a vida, como o mar, muda de humor sem aviso. E o dia em que Larissa conheceu Nikolaus Andreadis foi o dia em que as marés decidiram mudar o rumo do seu destino.
Nikolaus “Niko” Andreadis era o oposto de tudo o que Larissa representava.
Aos trinta e três anos, era um homem forjado pela pressão, pelo legado e pela solidão.
CEO da Andreadis Shipping, um império marítimo herdado do avô, Niko comandava mais de trinta navios cargueiros e uma fortuna estimada em bilhões de euros. O nome Andreadis era sinônimo de poder, tradição e, para muitos, de um orgulho quase impossível de suportar.
Niko era um homem que não acreditava em sorte — acreditava em estratégia.
Estrategista nato, calculista, e de uma frieza que intimidava até os executivos mais experientes, ele vivia em função do sucesso.
O amor, para ele, era uma vulnerabilidade que não podia se permitir.
Criado em Atenas, em uma família grega de elite, teve uma infância marcada por exigências e ausência emocional. O pai, Constantine Andreadis, um homem rígido e inflexível, morrera em um acidente de iate quando Niko tinha apenas dezenove anos, deixando o jovem com a missão de manter vivo o império construído ao longo de três gerações. Sua mãe, Elena Andreadis, uma socialite fria e sofisticada, parecia mais preocupada com aparências e eventos beneficentes do que com o filho.
Desde então, Niko se dedicou a construir um império ainda maior do que o que herdara. Era o tipo de homem que acordava às cinco, corria vinte quilômetros na praia antes do amanhecer e só encerrava o dia quando a última reunião estava concluída. Vivia cercado por luxo — iates, carros esportivos, propriedades na Riviera Francesa —, mas a verdade é que Niko não tinha ninguém com quem dividir nada disso.
Seu único amigo verdadeiro era Alexis Damos, seu assessor pessoal e braço direito, um homem leal e direto, que muitas vezes era a única voz de razão em meio ao gelo emocional do patrão. Alexis sabia o que Niko nunca admitia em voz alta: que, por trás do controle, havia um homem profundamente solitário.
Nos negócios, Niko era admirado e temido. Na vida pessoal, evitava compromissos duradouros. Seu último relacionamento sério havia sido com Helena Markatos, herdeira de um grupo concorrente e símbolo da elite ateniense. Bela, loira e ambiciosa, Helena parecia ser o par perfeito — até o dia em que ele descobriu que ela o traía com um dos diretores da empresa. Desde então, o CEO grego ergueu muros ainda mais altos em torno de si.
Helena, por sua vez, jamais aceitou a rejeição. Ela se tornou a sombra constante na vida de Niko, sabotando negócios, espalhando boatos e tentando de todas as formas reatar o relacionamento — não por amor, mas por ego e poder.
E agora, quando o avô falecido deixara no testamento a condição de que Niko só herdaria o controle total da Andreadis Shipping casando-se antes do próximo aniversário, Helena viu nisso a oportunidade perfeita para se reaproximar.
Mas o destino tinha outros planos.
Naquela manhã de primavera, Larissa acordou mais cedo do que o habitual. Tinha sido designada como intérprete em uma conferência empresarial de grande porte, organizada por uma das maiores companhias marítimas da Grécia.
Ela não fazia ideia de que traduziria para o homem que mudaria sua vida.
Ao chegar ao luxuoso hotel em Atenas, vestindo um tailleur azul-claro e segurando a pasta de anotações, Larissa se concentrou em não parecer deslocada.
Foi quando ouviu o som firme de passos — um ritmo seguro, controlado, que parecia dominar o espaço.
E então o viu.
Nikolaus Andreadis.
Terno cinza impecável, olhar penetrante, barba bem aparada, expressão indecifrável.
Larissa sentiu o ar rarefazer por um instante. Ele exalava poder — não o poder barulhento dos arrogantes, mas o tipo silencioso que faz as pessoas se curvarem sem perceber.
Niko, por sua vez, notou a jovem tradutora de olhar firme e semblante calmo. Algo nela lhe chamou atenção — talvez a naturalidade, talvez o fato de que ela parecia alheia ao fascínio que ele causava.
E, pela primeira vez em muito tempo, ele sentiu curiosidade.
A conferência transcorreu normalmente, mas o destino já estava em movimento.
Dias depois, Niko voltaria a cruzar com Larissa em uma situação improvável — uma discussão entre executivos estrangeiros e autoridades locais, em que ela interveio com precisão e coragem.
A forma como ela se impôs, sem medo, o impressionou.
Naquela noite, ao revê-la na recepção do hotel, Niko fez o que raramente fazia: se aproximou.
E foi ali, sob as luzes de Atenas e o murmúrio distante do mar, que ele ofereceu uma proposta capaz de mudar suas vidas.
> “Você tem algo que ninguém aqui tem, Srta. Botelho — lealdade e coragem. Eu preciso de alguém assim… em mais de um sentido.”
Larissa o encarou, confusa.
Ela ainda não sabia o que aquelas palavras significavam.
Mas o que estava por vir seria muito mais do que uma simples tradução — seria um contrato com o destino.