ANA
Eu não dormi.
Não de nervoso r**m Fiquei metade da noite olhando o teto e conversando em pensamento com alguém que ainda não existia, o que provavelmente diz tudo sobre o meu estado naquele momento.
Às seis, desisti da cama. Tomei banho, coloquei o vestido mais confortável que eu tinha e tomei só metade do café, porque a moça da clínica tinha dito venha tranquila, é rapidinho, e eu decorei a instrução como se fosse lei.
Na porta da geladeira, o lembrete que eu mesma escrevi semanas antes:
"Clínica — trazer exames. Terça, 9h."
Puxei o papel, dobrei e guardei na bolsa, junto com a pasta de exames que eu já tinha conferido onze vezes.
No espelho do corredor, parei um segundo.
— Vamos? — perguntei para o meu reflexo.
O reflexo foi.
O ônibus me deixou a duas quadras. Cheguei às oito e quarenta, cedo demais, e fiquei uns minutos na calçada em frente, olhando a fachada simples, a placa pequena, a porta de vidro fumê.
Tão comum. Tão sem cerimônia.
Ninguém que passasse por ali imaginaria que atrás daquela porta a minha vida inteira ia mudar.
A recepcionista — Débora, dizia o crachá — me recebeu com um sorriso apressado e um prontuário de papel debaixo do braço. O telefone tocava. Uma impressora reclamava em algum canto. A sala de espera tinha seis cadeiras e um ar-condicionado antigo suando na parede.
— Ana Oliveira? Nove horas? — Ela conferiu numa agenda de papel, riscou meu nome com a caneta. — Senta ali, querida. Hoje o dia tá corrido, mas já te chamam.
Corrido.
Eu ia me lembrar dessa palavra pelo resto da vida.
Sentei na cadeira do canto, com a bolsa no colo, e fiz o que toda mulher faz em sala de espera: fingi ler o celular enquanto prestava atenção em tudo.
Um casal mais velho de mãos dadas. Uma mulher sozinha, uns trinta anos, cabelo preso, cara de quem sabia o caminho — visita frequente, apostei. Uma porta que abria e fechava no corredor. Dois funcionários de jaleco cruzando rápido, um deles carregando uma bandeja pequena de metal, falando no telefone preso entre o ombro e a orelha:
— ...eu sei, eu sei que atrasou, tô resolvendo, me dá dez minutos...
Às nove e dez, a porta do corredor abriu.
— Dona Ana? Pode vir.
Eu levantei. Alisei o vestido. Respirei.
E atravessei aquela porta com o coração na frente do corpo.
KALEB
O carro preto não parou na frente da clínica.
Parou na rua de trás, às oito e cinquenta, diante de uma porta de serviço que o dono da clínica abriu pessoalmente — pontual, suando frio e sem fazer nenhuma pergunta, exatamente como fora combinado.
— Senhor... senhor Almeida — cumprimentou ele, usando o nome falso do cadastro com um cuidado exagerado, de quem decora a mentira com medo de errar. — Está tudo pronto. Tudo... tudo conforme o senhor pediu. Sala reservada, entrada reservada, ninguém da equipe da frente sabe.
Kaleb passou por ele sem responder, os olhos varrendo o corredor dos fundos uma vez — saídas, portas, ângulos, o inventário automático de dezenove anos — antes de qualquer outra coisa.
Corredor estreito. Piso limpo, mas gasto. Um arquivo de aço encostado na parede, gavetas etiquetadas à mão.
Papel. Aleixo e a implicância dele.
— Por aqui, senhor.
A sala reservada era pequena e correta. Kaleb assinou os termos com o nome falso, numa caligrafia que não era a dele, e entregou o material que garantiria a única coisa no mundo que ainda lhe importava.
O procedimento burocrático todo levou menos de meia hora.
— A amostra segue hoje mesmo para o laboratório e o preparo — explicou o médico de fala mansa, o único da casa que sabia de parte da verdade. — A implantação na... na contratada do senhor será feita conforme o cronograma. O senhor será informado de cada etapa.
— Pelos relatórios. Somente.
— Sim, claro. Somente.
Kaleb se levantou. Na porta, parou meio segundo — o que nele equivalia a uma hesitação dramática — e olhou para o pequeno frasco etiquetado que o médico segurava com as duas mãos, como se segurasse uma bomba.
Ele, que nunca rezava, chegou o mais perto de rezar que sabia: memorizou.
O frasco. A etiqueta. O código escrito nela.
Depois atravessou o corredor dos fundos, entrou no carro pela porta que Micah mantinha aberta e foi embora antes das nove e meia, sem ter visto a sala de espera, sem ter visto as seis cadeiras, sem ter visto a mulher loira de vestido claro que naquele exato momento, a vinte metros e duas paredes dele, apertava a mão de um médico e ouvia pode ficar tranquila, é um procedimento simples.
Dois estranhos.
Vinte metros.
Duas paredes.
E um arquivo de aço com etiquetas escritas à mão, esperando no corredor.
O nome dele era Josué. Vinte e três anos, auxiliar de laboratório, sete meses de clínica, salário mínimo.
Não era mau funcionário. Essa é a parte que ninguém ia acreditar depois: Josué não era relaxado, não era displicente, não bebia. Era só um rapaz cansado num dia r**m, e dias ruins, na maioria dos empregos, custam no máximo uma bronca.
Naquela terça-feira, custaram dois destinos.
O dia tinha começado errado às sete e meia, quando a outra auxiliar avisou que não vinha. Piorou às oito, quando o dono apareceu do nada exigindo uma sala reservada, entrada reservada, atendimento fora da agenda para um tal senhor Almeida — prioridade absoluta, Josué, larga tudo — e a agenda normal que se virasse. Desandou de vez às nove, quando duas coletas, três preparos e um telefone que não parava de tocar se acumularam em cima de um rapaz só.
— ...eu sei, eu sei que atrasou, tô resolvendo, me dá dez minutos...
Às onze e vinte, Josué estava sozinho no laboratório dos fundos com duas amostras preparadas sobre a bancada, lado a lado, esperando registro.
Duas amostras. Dois frascos idênticos.
Uma, de doador anônimo, código do banco de sêmen, destinada à paciente da manhã: Oliveira, Ana — inseminação, doador cat. B-114.
Outra, do cliente prioritário dos fundos, destinada à barriga de aluguel agendada para a tarde: Almeida, K. — gestação por substituição.
O protocolo mandava registrar uma por vez. Conferir etiqueta, lançar na ficha, guardar, só então pegar a próxima.
O telefone tocou.
Josué atendeu com o ombro, anotou um recado com uma mão, segurou um frasco com a outra. O dono gritou o nome dele do corredor. A impressora engasgou. Alguém bateu na porta perguntando do resultado de um exame que não estava pronto.
Foram quarenta segundos de caos. Quarenta segundos comuns, de qualquer emprego apertado deste mundo.
Quando Josué voltou à bancada, os dois frascos idênticos estavam onde ele os havia deixado.
Só que não.
Ele conferiu as etiquetas contra as fichas de papel — rápido demais, certo demais de que ninguém erra uma coisa dessas — e lançou os registros.
Invertidos.
A amostra do doador anônimo B-114 saiu rotulada para a barriga de aluguel do senhor Almeida.
E a amostra do homem mais perigoso que já pisou naquela clínica saiu rotulada para a paciente das nove horas.
Oliveira, Ana.
Josué fechou o arquivo , tocou a campainha do consultório avisando que estava tudo pronto e foi almoçar às duas da tarde, exausto, sem saber que tinha acabado de cometer o erro mais importante da história daquela clínica.
Papel não vaza na internet.
Papel troca de gaveta.
ANA
O procedimento em si durou menos que uma consulta de dentista.
Estranho como as coisas gigantes da vida às vezes cabem em minutos tão pequenos. Quatro anos de namoro acabaram em uma conversa. Uma família inteira começou numa sala com cheiro de desinfetante, comigo olhando para o teto e apertando a alça da bolsa como se fosse a mão de alguém.
— Prontinho — disse o médico, tirando as luvas. — Agora é aguardar. Duas semanas, e a senhora faz o exame. Nada de ansiedade, hein?
Eu ri.
Na saída, Débora, a recepcionista, me entregou o comprovante e piscou:
— Boa sorte, querida. Volta aqui pra me contar.
Na calçada, o sol de meio-dia batia quente. Eu fiquei um instante parada, com a mão espalmada na barriga por cima do vestido, me sentindo ridícula e absolutamente feliz.
— Oi — sussurrei, baixinho, morrendo de vergonha de mim mesma. — Se você chegou... bem-vindo.
Do outro lado da cidade, num escritório no vigésimo andar, um homem de terno cinza olhou o relógio, calculou que a esta altura a primeira etapa estaria concluída, e voltou aos papéis sem que nenhum músculo do rosto dele se movesse.
Nenhum dos dois sentiu nada.
Nenhum arrepio, nenhum pressentimento, nenhum aviso do universo.
O destino não avisa.
Ele só arma o tabuleiro, troca duas peças de lugar quando ninguém está olhando...
...e espera.