Escuro

1011 Palavras
Abro os olhos com bastante dificuldade e vejo tudo revirado a minha volta, olho para mim e minha camiseta está rasgada, ainda estou amarrada e amordaçada, vejo inúmeros roxos e marcas de mordidas em meu corpo, tudo em mim doí e sinto um ardor forte entre minhas pernas. Eu choro! Como dói saber que mesmo depois de tantas merdas que já passei, nunca é suficiente, eu sempre mereço mais e mais de tudo o que é r**m que existe neste plano. Neste momento eu acredito na teoria da predestinação, onde diz que pessoas nascem predestinadas a algo, pelo visto a minha são todas as coisas ruins, as que já aconteceram e Deus sabe mais o que tem a acontecer. Entendo que estou desacordada a bastante tempo pois está escuro lá fora. Estou com sede, muita sede! O que me aconteceu hoje, acompanhado de a rejeição e ontem me faz ter certeza de que a felicidade não é para mim. Como em toda a minha vida, sobrevivo a escuridão, os poucos momentos de luz que me acomete serve exclusivamente para a vida, ou seja, lá o que for esfregar na minha cara o que nunca vou ter ou se quer merecer. As lágrimas já não escorrem mais, minha cabeça lateja e com uma pontada ainda mais forte me entrego novamente ao meu lugar, o escuro. – Vamos por favor, acorde! Escuto ao fundo a voz que consigo reconhecer sendo de Virna, me esforço um pouco e consigo abrir os olhos, sendo imediatamente ofuscada pela luz intensa, não o suficiente para perceber que não estou mais em meu quarto. – Por qual motivo a maioria das vezes que te encontro você está desacordada? Gustavo está em pé ao lado da minha cama, Virna está sentada segurando minha mão, minha amiga lança um olhar mortífero ao doutor assim que se cala imediatamente. – De certo, tenho síndrome de bela adormecida. - Faço uma piada tentando descontrair e recebo o mesmo, olhar de Virna. - Não entendo a lógica de quartos hospitalares exageradamente brancos, chega a me dar vertigem abrir os olhos, com toda essa claridade. – Sem gracinhas, estou muito preocupada com você amiga. Me perdoa de verdade, se eu não tivesse sido egoísta nada disso teria acontecido, agora me conta, o que aconteceu? A polícia tá aí fora, estavam esperando você acordar para poder pegar o seu depoimento. Eu não consigo falar nada, começo a chorar. Minha amiga intensifica os afagos em minha mão e sinto a aproximação do doutor contudo ele não chega a encostar em mim. – Tente se acalmar Carolina, você precisa para conseguir detalhar o máximo possível seu depoimento, para que a polícia possa pegar quem quer que tenha feito isso com você. – Quem… Quem me encontrou? - consigo balbuciar. – Fui eu amiga, estava com a consciência pesada de não ter ido embora com você aquele dia, ai tentei te ligar inúmeras vezes e como você não atendia de forma alguma fui até a sua casa. Quando vi o cenário em que estava liguei para o doutor que chegou pouco tempo depois, quase junto com a ambulância e a polícia. – Pode pedir para a polícia ir embora, eu não tenho nada a declarar – minto descaradamente – na verdade eu não me lembro de nada, então não vou conseguir ajudar eles a prender quem fez isso. – Amiga por favor não faz isso, eu sei que você sabe muito bem quem foi que fez tudo isso para você, para de tentar proteger. Você quer mesmo que quem quebrou a sua casa, roubou o seu dinheiro porquê sim, eu vi o envelope do seu salário todo rasgado e ainda por cima te bateu e te violentou fique impune? Você é melhor do que isso, de verdade! Eu não tinha o que responder e por esse motivo permaneci em silêncio, eu não sei o que aquele maníaco seria capaz de fazer se eu o delatasse. Quem sabe se eu ficar em silêncio ele se esquece de mim de uma vez por todas e finalmente eu consiga ter um pouco que seja de paz em minha vida. Virna ficou possuída quando percebeu que eu nada falaria ou faria, ela falava tão rápido e alto que eu m*l conseguia acompanhar, minha cabeça voltou a doer com força e eu só fiz apertar os olhos, percebendo que poderia piorar a situação o doutor pediu para Virna se retirar e tão logo quanto ela saiu, ele assumiu o seu lugar na beira da minha cama. – Você não está falando sério não é? Mesmo com tudo o que passou não fará nenhuma denúncia? - Confia em mim, será pior se eu fizer. Já superei muita coisa e juntei meus cacos mais de uma vez, posso fazer isso de novo doutor. – Se não quer fazer isso por você Carolina faça pensando que pode proteger outras mulheres, para que elas não passem o que você passou e se por algum motivo você está com medo de ele vir atrás de você, fique tranquila eu vou te proteger. – Você? Me proteger? - solto uma gargalhada honesta, que logo se transforma em um choro descontrolado e desta vez, sem pensar ele me abraça. Nesse momento, eu não tenho controle algum sobre meu corpo que se treme todo, meu coração está disparado e começo a hiperventilar, reconheço muito bem esta sensação. – Shiiiii, vai passar minha querida, eu estou aqui com você vai ficar tudo bem, olha pra mim – então ele segura em meu queixo e levanta delicadamente meu rosto, aperto os meus olhos com força, recusando a abri-los. - Vamos Carol olha para mim! Decido por fim abrir os meus olhos e percebo seus olhos me olhando fixamente, cada detalhe em meu rosto e quando seu olhar encontra o meu, sinto como se ele pudesse ver minha alma e isso me assusta mil vezes mais do que aquele ser humano horroroso. Seus olhos deixam o meu e encaram minha boca como se estivesse reconhecendo território, sem suspense algum, seus lábios encostam aos meus.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR