➳ April Johansen, AJ.
Manhã de sábado, o céu apresentava um azul divino. Ainda sobre a minha cama, ignorei o fato das janelas terem dormido sem o fechar das cortinas e sorri para a intensidade solar que invadia o meu quarto. Eu estava bem, me senti assim até o momento em que me movimentei para ir até o banheiro. Meu pescoço estava dolorido, e na frente do espelho pude ver o hematoma, a marca dos dedos daquela filha da mãe.
Não tinha muita coisa para fazer durante todo o dia, mas também não era conveniente passar tantas horas presa dentro do quarto. Com isso em mente, tentei não me importar com o incômodo sentido a um simples movimento para olhar ao lado, caminhei para meu banheiro e cuidei de minha higiene pessoal. Deixaria meu espaço para me juntar a minha mãe durante o café. Ainda estava em tempo, talvez ela tivesse esperado por mim. O relógio sobre minha mesa de canto marcava pouco mais de oito horas.
Caminhando pelo curto corredor em busca da virada para a sala, deixei meus pensamentos vagarem para o ocorrido da noite da passada. Tinha que agradecer a Letícia pela ajuda, principalmente por saber que agora ela pode se tornar um alvo na mira de Juliana. Era culpa minha, mas não pensei muito antes de agir naquele maldito momento. E para o nosso azar, ela também não pensou muito antes de acertar a cabeça da dona do morro. Devia saber o tamanho do problema em que se meteu, do contrário não teria sido rápida em arrastar os amigos pra longe dali. Pude ver o olhar de Pedro sobre a gente enquanto deixávamos aquele ambiente, e claro que isso não ficaria barato. Podia esperar, em algum momento ela daria as cartas cobrando o que aconteceu. Mas depois de quase ser enforcada até a morte, deveria ser eu a fazer esse tipo de cobrança. A desgraçada quase me matou, e porquê? Ego ferido?
— April, querida. — Surgindo da cozinha, mamãe me cedeu um caloroso abraço ao cessar os meus passos. Então me analisou por completo. — Devia estar na cama, minha filha, descansando ao máximo.
— Eu estou bem mãe, não se preocupe comigo. — Com minhas palavras expostas ao vento, também senti seu toque sobre as marcas que ainda estavam levemente doloridas. — Isso não é nada demais, logo desaparecerá.
— Não é nada? — Respirou fundo segurando meu olhar. — April, tentaram te matar. Quem fez isso com você?
— Não importa, mãe. Já faz parte do passado agora. — Exibindo um sorriso contido, entrelacei meu braço ao seu para que juntas voltássemos à cozinha para que eu pudesse comer alguma coisa. Estava faminta.
Aparentemente, ela já havia feito aquela sua refeição. Afinal, estava esperando que eu pudesse descansar um pouco mais, que eu ficasse mais tempo sobre a minha cama. Porém, não era o que eu queria, e sendo a mãe incrível que é, não contei muitos minutos até que um lanche natural estivesse sendo posto em minha frente. A cara estava ótima, e o sabor não era diferente.
O curto tempo que se seguiu com a gente sentada uma de frente para a outra naquela mesa pareceu passar em câmera lenta. A cada nova mordida no sanduíche, conseguia enxergar o breve sorriso no canto dos seus lábios. Ela estava preocupada, sabia onde tinha ido na noite que se passou. Mesmo contra a própria vontade, ela estava respeitando o meu momento, apenas isso e nada mais. Precisávamos falar do assunto, discutir sobre o ocorrido sem que nada fosse omitido da minha parte, mas não era isso o que eu queria. Entendia que essa sempre foi a principal chave da nossa relação, mas às vezes eu só queria ficar em silêncio, guardar apenas para mim certos acontecimentos. Porém, o costume é mesmo uma merda muito grande.
Dando fim ao copo de suco ao meu lado, assim como foi feito com o restante do lanche, respirei fundo e ajeitei minha postura. Minha mãe fez o mesmo, pois logo entendeu o que aquilo significava. Nesse mundo, ainda não existia alguém que pudesse me ler tão bem quanto ela, e duvidava que em algum momento pudesse existir. Até porque, quem eu queria por perto não se dá ao mínimo esforço para me conhecer de verdade. Não dá mesmo pra ter tudo nesse mundo.
— Do começo, me conte o que aconteceu. — Levando suas mãos sobre as minhas ao centro da mesa, prendeu seu olhar ao meu como se pudesse ler toda a minha alma naquele simples gesto. Era a sua maneira de garantir que eu não estava mentindo, que essa opção não seria considerada em momento algum. Então resumi todo um relato sobre o que aconteceu até o instante em que voltei pra casa. Não era muita coisa, não tive muito tempo para aproveitar.
— Eu só queria conseguir entender porque ela tem que me tratar assim, mãe. Nunca fiz nada de r**m pra ela, não existe nenhuma justificativa pra essa merda toda. Às vezes isso dói, sabe? — Em lamento, completo o relato jogando a cabeça para trás. Só de pensar nisso já me sentia cansada.
— Claro que dói meu amor, você a enxerga como a irmã que ela deveria ser. Mas ao contrário de você, ela te vê como um erro do pai. — Não era a primeira vez que tentava me dizer isso, mas assim como em vezes passadas, eu possuía motivos e motivações para não acreditar na força dessas palavras. Isso era estranho, as vezes nada fazia sentido.
— Eu não sei o que pensar, mãe. — Respirei fundo. — Em certos momentos ela consegue agir como alguém de coração, mas por motivos desconhecidos isso logo muda. Ela não é tudo o que tenta mostrar para aquele morro.
— Não vai desistir nunca, não é?
— Não enquanto existir uma chance, a senhora me conhece pra saber disso.
— Ela tentou te matar, minha filha. Se não fosse por uma estranha, talvez tivesse conseguido. — O ponto era seu, mas já havia tomado essa decisão há muito tempo atrás. Não mudaria de ideia logo agora, não tinha como isso acontecer assim do nada.
— Apesar de tudo, é a minha irmã ali mãe. Acredito que vale a pena continuar tentando, assim como também acredito que ela não teria ido até o fim mesmo se Letícia não tivesse dado uma de garota sem medo do inesperado. — Foi inconsciente, quando notei minha mão já analisava o hematoma em meu pescoço outra vez. Voltei a respirar fundo com isso. — Quero acreditar que ela não teria coragem pra tanto, que só agiu daquele jeito porque eu provoquei desde o início.
— Isso é um absurdo, mas você já é adulta. E se quer continuar insistindo em uma causa perdida, não posso fazer muita coisa só de isso. Mas se ela voltar a encostar em você desse jeito, será a minha vez de visitar aquele morro.
— Sabe que não é bem vinda, mãe.
— Verá se não sou bem vinda quando ela ousar te encostar outra vez. — Ela estava decidida, mas deveria saber que eu jamais permitiria algo assim. — Aqui, aquela moça deixou pra você. — Me entregando um pedaço de papel, ela sorriu divertida. — Acho que fez uma nova amiga.
— Depois do que ela fez por mim, mandar uma mensagem de agradecimento é o mínimo a se fazer, não? — Gravando seu número em meu celular, vi mamãe apenas assentir ao se colocar de pé. Devia estar saindo para o trabalho. — Obrigada, mãe. Pelo número dela.
— Está na hora de voltar a fazer amigos, meu amor. E aquela garota pareceu gostar de verdade de você, a preocupação dela ao te deixar aqui em casa me mostrou isso. — Beijando meus cabelos, passou pela porta. Mas não sem antes completar. — Eu gostei dela, e do rapaz que a ajudou também.
Amanda Johansen é alguém difícil de agradar, e se ela gostou deles é porque realmente são boas pessoas. Isso apesar dos pesares, é claro. Afinal, toda aquela marra me diz apenas uma coisa. Letícia está mais do que acostumada a ter as coisas exatamente da forma em que deseja, o que pra mim não é um problema muito grande. Mas se acontecer o que estou pensando, não sei nem por onde vou começar a agir para ajudar.
Ainda tinha muito para correr durante o dia, e com mamãe fora nas próximas doze horas, talvez eu devesse procurar algo para fazer. E depois do que aconteceu na noite passada, porque não um encontro a luz do dia? Talvez fosse a oportunidade perfeita para um verdadeiro agradecimento, e claro, uma oportunidade para conhecer um pouco mais dela. Mamãe estava certa, estava na hora de trazer mais pessoas para perto. Então não pensei muito antes de teclar seu contato para aquela chamada.
"Alô?" Sua voz logo ressoou do outro lado da linha. Inconscientemente acabei sorrindo com isso.
"Letícia, oi, é a April. Está disponível para um passeio pelo parque?"
"Está mesmo me chamando para um encontro?" Não, eu não estava.
"Não exatamente. Mas então, vamos?"