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1370 Palavras
CAPÍTULO 10 — JUJU NARRANDO Eu tinha dormido tão pouco que, quando finalmente consegui fechar os olhos, parecia que meu corpo tinha desligado sozinho. Depois de tudo que tinha acontecido naquela noite, minha cabeça estava uma bagunça completa, e, sinceramente, eu nem sabia se queria dormir ou ficar acordada lembrando daquele homem. Tubarão. Era a única coisa que eu sabia sobre ele. Nem nome verdadeiro eu tinha perguntado. Não sabia de onde era, o que fazia, quantos anos tinha exatamente ou sequer onde morava. Eu simplesmente tinha conhecido um homem em um pagode, beijado aquele desconhecido e terminado a madrugada vivendo uma loucura que, se alguém me contasse antes, eu provavelmente chamaria de maluca. Eu dormia do jeito que sempre gostei: apenas de lingerie. Não suportava dormir de pijama apertado ou com roupa demais. Só que, naquela manhã, eu estava tão acabada que nem me preocupei em me cobrir direito. Estava deitada de bruços, com o lençol embolado na altura da cintura, quando senti alguém puxando meu braço. — Juju! Acorda, mulher! Resmunguei e enfiei o rosto no travesseiro. — Me deixa dormir, Mah… — Dormir? Você desaparece a noite inteira, chega quase de manhã e ainda quer dormir? Abri um olho. Mah estava parada ao lado da cama, com os braços cruzados e uma expressão que eu conhecia muito bem. Aquela cara significava que vinha interrogatório. — Eu não desapareci. — Não? Então me explica onde você estava. Eu me virei lentamente, ainda sonolenta, e foi nesse momento que Mah arregalou os olhos. — Meu Deus! Puxei o lençol para cima imediatamente. — O quê? — JUJU! — Fala baixo! Ela apontou para mim, completamente escandalizada. — O que aconteceu com você? Passei a mão pelo cabelo, tentando entender o que ela estava olhando. Então percebi alguns chupões próximos ao peito e senti meu rosto esquentar. — Ah… Mah se aproximou mais, analisando tudo com aquela cara de detetive. — Ah? É só isso que você tem para falar? — Mah… — E por que sua b***a está toda vermelha? Eu arregalei os olhos. — Como você sabe? — Porque você estava de bruços e eu vi quando puxei o lençol, criatura! Puxei o lençol até o pescoço, morrendo de vergonha. — Não acredito que você está me interrogando às… — olhei para o celular na mesa de cabeceira — dez da manhã. — Depois de você sumir a noite inteira? Claro que estou! Eu suspirei. Sabia que não tinha como escapar. Mah sentou na ponta da cama e estreitou os olhos. — Agora você vai me contar. — Contar o quê? — Juju, pelo amor de Deus. Você nunca aparece assim. Nunca. Há dois anos você não fica com homem nenhum. Aí chega de madrugada, entra em casa escondida e acorda cheia de marcas? Eu fiquei em silêncio. Mah abriu um sorriso lentamente. — Você ficou com alguém. — Fiquei. Ela levou as duas mãos à boca. — NÃO! Eu comecei a rir. — Fala baixo! — Você ficou com um homem! — Fiquei. — Você beijou um homem? — Sim. — E só beijou? Olhei para ela. Ela olhou para mim. Não precisei responder. Mah deu um grito abafado no travesseiro. — EU SABIA! — Mah, você vai acordar a Lili! — Dane-se a Lili! — Ela vai matar a gente. — Eu quero saber quem é o homem que conseguiu fazer você esquecer o Caio por uma noite! Meu sorriso desapareceu por um instante quando ouvi o nome dele. Mah percebeu. — Desculpa. Respirei fundo. — Tudo bem. Fiquei alguns segundos olhando para o teto antes de começar a falar. — Eu conheci ele no pagode. — Sozinha? — Mais ou menos. Eu estava no bar tomando caipirinha. — Juju… — Eu estava nervosa, Mah. — E ele chegou em você? — Chegou. — E aí? Passei a mão pelo rosto, sentindo novamente aquele calor subir pelas minhas bochechas. — A gente conversou. Depois aconteceu aquele negócio da bebida na roupa dele. Ele ficou puto e foi até o carro trocar de roupa. Mah já estava sorrindo. — E você foi junto. — Fui. — Juju! — Eu estava meio bêbada! — Continua. Eu respirei fundo. — Aí eu vi ele sem camisa. Mah arregalou os olhos. — E? — E ele é um gato. Ela começou a rir. — Só isso? — Não. Ele é muito mais que isso. — Então descreve. Eu mordi o lábio, tentando não sorrir. — Alto. Muito forte. Cheio de tatuagem. Moreno. Olhar sério. Aquele tipo de homem que parece que está sempre prestes a mandar alguém calar a boca. Mah começou a rir. — Meu Deus, você se apaixonou por um bandido? — Eu não disse isso. — Mas pensou. — Talvez. Ela me cutucou. — E o nome? Fiquei séria. — Tubarão. Mah piscou. — Tubarão? — É. — Esse é o nome dele? — Foi o que ele me disse. — E você não perguntou o nome verdadeiro? — Não. — Sobrenome? — Não. — Onde mora? — Não. — O que faz? — Também não. Mah ficou alguns segundos me encarando. — Juju, você transou com um homem a noite inteira e não sabe nem o nome dele. Escondi o rosto nas mãos. — Quando você fala assim parece muito pior. — Porque é muito pior! Comecei a rir. — Eu só sei que ele se chama Tubarão. — E que é gostoso. — Muito. Mah gargalhou. — Pelo menos você não perdeu o senso de prioridade. — Mah, você tinha que ver aquele homem. — Não quero ver. Quero que você me conte. — Ele é daqueles que entram em qualquer lugar e todo mundo olha. — Perigoso? Pensei na maneira como as pessoas tinham aberto espaço para ele no pagode. — Talvez. — E você foi embora com ele mesmo assim? — Fui. Mah balançou a cabeça, incrédula. — Dois anos sem beijar ninguém e, quando resolve voltar para o jogo, escolhe logo o homem misterioso chamado Tubarão. — Eu não escolhi. Aconteceu. — Claro. Ela voltou a olhar para os chupões. — E essas marcas? Puxei o lençol um pouco mais para cima. — Não começa. — Eu nem falei nada! — Seu olhar falou. Ela riu. — Pelo menos você está diferente. Eu parei de rir. — Diferente como? — Mais viva. Aquela frase me pegou de surpresa. Fiquei quieta. Mah continuou: — Depois de tudo que aconteceu com você, eu nunca quis te pressionar. Você ficou dois anos sem deixar ninguém se aproximar. E ontem… você simplesmente viveu. Olhei para minhas mãos. — Eu tive medo. — Dele? — Não. De mim. Mah franziu a testa. — Como assim? — Medo de sentir alguma coisa de novo. Medo de comparar. Medo de esquecer. Medo de estar traindo uma história que foi tão importante para mim. Ela segurou minha mão. — Você não está traindo ninguém, Juju. Sorri de leve. — Eu sei. — E vai procurar esse Tubarão? Pensei nele. No sorriso discreto. No olhar intenso. Na voz grossa. Na maneira como ele parecia dominar qualquer ambiente simplesmente estando presente. Meu coração acelerou. — Não sei. — Você quer? Demorei alguns segundos. — Quero. Mah abriu um sorriso enorme. — Então já temos uma missão. — Que missão? — Descobrir quem é o Tubarão. Eu ri. — Mah, eu nem sei se vou encontrar ele de novo. — Estamos na Rocinha há um dia. Você acha mesmo que um homem daqueles vai desaparecer? Eu balancei a cabeça, ainda sorrindo. — Espero que não. Foi justamente naquele momento que ouvimos a voz de Lili vindo do corredor. — MENINAS! VOCÊS ESTÃO ACORDADAS? Mah olhou para mim. Eu olhei para ela. — Esconde isso — ela sussurrou. — O quê? — Os chupões! — Como? Ela puxou o lençol até meu queixo. — Sei lá! Inventa uma doença! Começamos a rir. Mas, no fundo, enquanto Mah saía correndo para impedir que Lili entrasse no quarto, eu só conseguia pensar em uma coisa. Tubarão. Eu não sabia quem ele era. Não sabia onde encontrá-lo. E não fazia ideia de que aquele homem misterioso estava muito mais perto de mim do que eu poderia imaginar.
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