CAPÍTULO 2 — JUJU NARRANDO
Eu ainda não conseguia acreditar que estava dentro daquele carro. Sério. Se alguém tivesse me contado seis meses antes que eu estaria deixando o interior do Rio de Janeiro para me mudar para a Rocinha por causa de uma mulher que conheceu um homem pela internet, eu provavelmente teria gargalhado na cara da pessoa. Mas ali estava eu, sentada no banco do passageiro, com o cinto atravessado pelo peito, uma garrafa de água entre as pernas e uma expressão que provavelmente dizia claramente que eu tinha perdido completamente o juízo. No banco de trás estavam Mah e Lili, cercadas por malas, bolsas, caixas e uma quantidade absurda de coisas que, sinceramente, eu nem sabia como tínhamos conseguido colocar dentro daquele carro. O porta-malas estava lotado, o banco traseiro parecia um depósito e ainda havia sacolas aos meus pés. A Doce Maju tinha ficado para trás no interior, mas não por muito tempo. Nós tínhamos decidido abrir uma nova unidade e levar nosso sonho conosco. Era uma loucura? Era. Era irresponsável? Talvez. Era a maior aventura das nossas vidas? Com certeza.
Olhei pelo vidro enquanto a paisagem mudava aos poucos. Eu conhecia cada pedacinho da cidade onde tínhamos crescido. Conhecia as ruas, as padarias, a praça, a escola, o mercado onde Mah sempre comprava alguma besteira escondida e até o caminho que fazíamos quando éramos adolescentes para fugir das atividades do orfanato e ficar sentadas conversando por horas. Eu conhecia aquele lugar porque, de certa forma, ele era tudo o que tínhamos. Nós três não tínhamos pai. Não tínhamos mãe. Não tínhamos aquela família tradicional que aparecia nas festas de fim de ano ou que esperava por nós na porta da escola. Nós tínhamos umas às outras. E talvez tenha sido justamente por isso que nossa amizade se tornou tão forte. Nós aprendemos muito cedo que algumas pessoas podem nascer da mesma barriga e nunca ser família, enquanto outras podem não compartilhar uma única gota de sangue e ainda assim serem capazes de entregar a vida umas pelas outras.
Eu conheci Mah e Lili quando ainda éramos crianças. Não lembro exatamente o primeiro dia em que conversamos, porque parece que elas sempre estiveram na minha vida. O orfanato era o nosso mundo. Tinha dias bons, dias ruins, brigas, castigos, aniversários simples, refeições que pareciam sempre iguais e noites em que uma de nós chorava baixinho porque alguma lembrança ou alguma pergunta sobre nossos pais apertava o peito. Ninguém sabia responder por que fomos abandonadas. Ninguém conseguia explicar por que outras crianças eram escolhidas enquanto nós continuávamos ali. Então criamos nosso próprio jeito de sobreviver. Quando uma chorava, as outras duas ficavam perto. Quando uma tinha medo, as outras seguravam sua mão. Quando alguém ganhava alguma coisa, dividia. Quando uma ficava doente, as outras cuidavam. E, em algum momento, sem perceber, deixamos de ser três meninas em um orfanato e viramos uma família.
Aos dezoito anos, saímos de lá juntas. Não tínhamos dinheiro, não tínhamos grandes oportunidades e muito menos alguém para nos dar um empurrãozinho na vida. Tínhamos apenas vontade de vencer e uma promessa feita quando ainda éramos crianças: ninguém soltaria a mão de ninguém. A vida não foi fácil, mas nós fomos construindo tudo aos poucos. Primeiro veio a ideia dos doces. Depois vieram os primeiros bolos vendidos para vizinhos, os brigadeiros feitos em cozinhas apertadas, as encomendas de aniversário, os cafés da tarde, os casamentos pequenos e, quando percebemos, a Doce Maju tinha virado uma empresa de verdade. Mah descobriu que tinha talento absurdo para confeitaria. Eu me encontrei na administração e comecei a cuidar de contas, fornecedores, pedidos e toda aquela parte que ninguém vê, mas que faz uma empresa funcionar. E Lili, que sempre teve uma facilidade enorme para conversar, criar, inventar moda e mexer em qualquer coisa relacionada à internet, assumiu o marketing.
A Doce Maju era nossa filha. Nós três éramos donas. Tudo era dividido. As conquistas também. Quando compramos nosso primeiro equipamento profissional, choramos as três. Quando conseguimos nosso primeiro contrato grande, fizemos uma festa como se tivéssemos ficado milionárias. Quando finalmente conseguimos juntar dinheiro para melhorar o espaço da confeitaria, passamos uma semana escolhendo detalhes como se estivéssemos construindo uma mansão. E agora estávamos fazendo tudo novamente em outro lugar.
Só que a razão dessa mudança não tinha absolutamente nada a ver com estratégia empresarial.
Tinha nome.
Jorge.
Olhei pelo retrovisor e encontrei Lili mexendo no celular com um sorriso tão i****a no rosto que eu quase tive vontade de pedir para Mah gravar aquilo.
— Você ainda está falando com ele?
Lili nem levantou os olhos.
— Estou.
Mah soltou uma gargalhada no banco de trás.
— Ela está falando com ele desde que acordou.
— Mentira.
— Verdade — respondi. — Você falou com ele enquanto estava escovando os dentes.
— E daí?
— E falou enquanto tomava café.
— E daí?
— E falou enquanto fazia a mala.
Mah entrou na conversa:
— E falou enquanto a gente carregava as malas.
Lili finalmente levantou o rosto.
— Vocês estão com inveja porque eu encontrei o amor da minha vida.
Eu quase bati a testa no volante de tanto rir.
— Amor da sua vida? Você nunca viu o homem pessoalmente!
— Mas conheço ele há três meses.
— Pela internet, Lili!
— A gente faz chamada de vídeo.
— Isso não melhora absolutamente nada.
Mah começou a rir.
— Juju, deixa ela. A criatura já está apaixonada.
— Eu não estou apaixonada.
— Está sim.
— Não estou.
— Você literalmente está indo morar na Rocinha por causa dele — falei.
Ela fez uma careta.
— Eu não estou indo morar por causa dele. Estou indo porque nós três decidimos abrir uma unidade nova da Doce Maju.
— Ah, claro.
Mah riu.
— Exatamente. E por coincidência a unidade nova fica justamente onde o homem que ela conheceu mora.
Lili mostrou a língua para nós.
Eu balancei a cabeça, rindo. A verdade era que eu estava preocupada, mas também estava feliz por ela. Lili tinha aquele jeito de acreditar nas pessoas, de enxergar o melhor mesmo quando todo mundo ao redor dizia para tomar cuidado. Talvez fosse uma qualidade. Talvez fosse um defeito. Ainda não sabíamos. Mas uma coisa eu sabia: se Jorge fizesse qualquer merda com ela, ele teria que lidar com nós três.
— Você tem certeza de que ele está esperando você? — perguntei.
— Tenho.
— E se ele for um psicopata?
— Juju!
— O quê? É uma possibilidade.
— Ele não é.
— Como você sabe?
— Porque eu sinto.
Mah soltou uma gargalhada.
— Pronto. Agora ela sente.
— Vocês são duas chatas.
— Somos suas melhores amigas — falei.
— Justamente por isso deveriam apoiar.
— Estamos apoiando. Estamos dirigindo você até o encontro.
— Então pronto.
Fiquei olhando a estrada novamente e sorri. Era impossível não amar aquelas duas. Mah podia reclamar de tudo, Lili podia ser completamente sem juízo, e eu podia ser a mais desconfiada das três, mas no final estávamos juntas. E era isso que importava.
Talvez a nossa chegada à Rocinha fosse o começo de uma fase completamente diferente. Talvez desse errado. Talvez desse muito certo. Talvez a Doce Maju crescesse como nunca imaginamos. Talvez Lili realmente encontrasse alguém especial. Talvez Mah se apaixonasse por algum homem e fingisse que não estava apaixonada. E talvez eu simplesmente continuasse sozinha.
Eu já tinha me acostumado com essa última possibilidade.
A verdade era que, desde Caio, eu não conseguia imaginar outro homem ocupando aquele espaço.
Eu tinha vinte anos quando ele morreu.
Às vezes ainda parecia que tinha acontecido ontem.
Caio tinha entrado na minha vida de repente. Nosso relacionamento foi rápido, intenso e talvez até irresponsavelmente acelerado, mas eu não me arrependia de nada. Ele foi meu primeiro amor. Meu primeiro namorado sério. O homem com quem eu achei que construiria minha vida. Quando ficamos noivos, eu tinha certeza de que aquele era apenas o começo.
Então veio a viagem.
Era para ser uma lembrança bonita.
Férias.
Nós dois.
Um lugar diferente.
Dias tranquilos.
Na volta, o céu fechou. A chuva começou forte. Eu lembro do som dos pingos batendo no carro. Lembro de Caio tentando enxergar a estrada. Lembro dele diminuindo a velocidade. Lembro de dizer que estava com medo. Depois, tudo aconteceu rápido demais.
O carro saiu da pista.
O impacto contra o barranco.
O barulho.
O vidro.
E depois nada.
Caio morreu naquela hora.
Eu sobrevivi.
Até hoje não sei por que.
Talvez algumas pessoas chamem isso de destino. Eu não sei como chamar. Só sei que, depois daquele dia, chuva forte nunca mais foi apenas chuva para mim.
Chuva virou medo.
Virou lembrança.
Virou aquele aperto no peito que aparecia quando o céu ficava escuro demais.
E entrar em um carro durante uma tempestade passou a ser uma das coisas que mais me assustavam.
Mah e Lili sabiam disso. Sempre souberam. Nunca me pressionaram. Nunca perguntaram por que eu não tinha ficado com ninguém depois de Caio. Nunca fizeram piada quando eu recusava algum convite. Elas simplesmente respeitavam.
Eu não tinha beijado outro homem.
Não tinha dormido com outro homem.
Não tinha permitido que ninguém chegasse perto.
Talvez fosse exagero.
Talvez eu estivesse presa demais ao passado.
Mas Caio tinha sido o maior amor da minha vida, mesmo tendo ficado tão pouco tempo nela.
Abaixei o olhar para minhas mãos e respirei fundo.
— Está tudo bem? — Mah perguntou.
Olhei pelo retrovisor.
— Está.
Ela me conhecia.
Sabia que eu estava pensando nele.
— Está pensando no Caio?
Não respondi imediatamente.
Depois apenas assenti.
— Um pouco.
Lili guardou o celular.
— Você acha que vai conseguir ser feliz de novo?
A pergunta veio tão sincera que não consegui brincar.
Olhei para a estrada.
— Eu não sei.
— Mas quer tentar?
Respirei fundo.
— Quero.
Mah sorriu.
— Então já é alguma coisa.
E era.
Talvez essa mudança não fosse apenas sobre a Doce Maju.
Talvez eu também precisasse mudar.
Eu não precisava esquecer Caio. Não precisava apagar o que vivemos. Não precisava fingir que ele nunca existiu. Mas talvez eu pudesse aprender a continuar.
Foi quando Lili começou a gritar no banco de trás.
— CHEGAMOS!
— Meu Deus, cala a boca! — falei, assustada.
Mah começou a rir.
— Ela vai descer desse carro correndo.
— Eu vou mesmo!
— Você nem sabe onde ele está.
— Ele vai me encontrar.
— E se ele estiver trabalhando?
— Ele sabe que eu cheguei.
— Como?
Lili levantou o celular.
— Eu mandei mensagem.
Olhei para Mah.
Mah olhou para mim.
Nós duas começamos a rir.
— Essa mulher é maluca — falei.
— Completamente — Mah concordou.
A paisagem ao redor tinha mudado. A Rocinha estava diante de nós, viva, movimentada, cheia de gente, comércio, carros, motos e uma quantidade enorme de sons diferentes acontecendo ao mesmo tempo. Eu observava tudo pela janela, tentando absorver aquela realidade nova.
Era diferente do interior.
Muito diferente.
Mas havia alguma coisa naquele lugar que me despertava curiosidade.
Talvez porque tudo parecia acontecer ao mesmo tempo.
Descemos algumas ruas até chegar ao endereço do imóvel que tínhamos alugado. Assim que paramos, eu olhei para a fachada e senti aquele friozinho na barriga que sempre aparecia quando eu percebia que alguma coisa estava realmente começando.
Nossa nova casa.
Nossa nova confeitaria.
Nossa nova vida.
Mah saiu primeiro.
— Finalmente!
Lili praticamente pulou do carro.
— Eu vou conhecer o Jorge!
— Você vai conhecer o Jorge depois de descarregar essas malas — falei.
— Juju!
— Nem vem.
Mah abriu o porta-malas e começou a puxar as malas.
— Se ela não ajudar, eu vou jogar o celular dela no lixo.
Lili imediatamente voltou.
— Não mexe no meu celular!
Começamos a rir.
E foi assim, entre malas, caixas, sacolas, gritos, risadas e três mulheres completamente s*******o, que começamos nossa nova vida na Rocinha.
Eu ainda não sabia, mas aquele lugar não seria apenas o endereço de uma nova unidade da Doce Maju.
Seria o lugar onde minha vida mudaria.
Onde Lili conheceria o homem por quem atravessou o estado.
Onde Mah encontraria problemas que provavelmente não estava procurando.
E onde eu, depois de dois anos acreditando que meu coração tinha morrido junto com Caio, conheceria um homem que faria tudo aquilo que eu tinha prometido a mim mesma que nunca mais faria.
Mas naquele momento eu não sabia de nada.
Naquele momento, eu só estava preocupada com uma coisa.
Como diabos três mulheres conseguiram trazer tanta mala para uma mudança de poucos quilômetros?
— Mah!
— O quê?
— Você trouxe quantos sapatos?
Ela olhou para mim.
Depois para as caixas.
— Não sei.
— Você não sabe?
— Não.
Lili começou a rir.
— Eu trouxe trinta e dois pares.
Fiquei encarando as duas.
— Vocês são doentes.
Mah colocou uma caixa no chão.
— E você trouxe vinte e sete.
Fiquei em silêncio.
— Não precisava expor.
As três caímos na gargalhada.
E, pela primeira vez em muito tempo, enquanto eu ria no meio daquela confusão, tive a sensação de que talvez estivesse mesmo pronta para virar a página.