capítulo 14

886 Palavras
Com o passar dos dias, a Katy foi se recuperando, tive que mentir para Sr.ª Odette, dizendo que a Katy estava doente. Quanto mais ela falta, mais a dívida aumenta. "Ah… pelo menos a minha amiga está bem." Vejo o Sr. Richard entrar e me ajeito. Ele também me vê e caminha em minha direção. — Oi — ele me cumprimenta. Respondo com um “oi” quase automático. — Vamos. Caminho escada acima e, como sempre, ele vem atrás de mim, apenas seguindo. Entramos no quarto e fecho a porta. Ele se senta na cama. Não parece bem. Sento-me ao lado dele. — Você está bem? Ele demora a responder e, no fim, apenas abana a cabeça de leve, em concordância. — Então podemos começar… — levo a mão até o peito dele, mas sou interrompida. — Hoje não. Endireito-me. — Posso perguntar por que você está assim? — Eu sou casado. Eu apenas escuto. Apesar de isso me ferir, sei que não posso fazer nada. — Sou casado há dezassete anos. Com uma mulher que eu não queria… e nem quero. Ele se cala por longos minutos. Ficamos presos nesse silêncio pesado. Bem, pelo menos ele não gosta da esposa. Isso significa que eu ainda tenho uma chance. — Ela sempre tentou fazer de tudo para que eu a amasse, mas eu nunca dei importância. Estou tão cansado dessa vida… Esse é o momento perfeito. Coloco minha mão sobre a dele, tentando confortá-lo. — Eu estou aqui para o que você precisar. Mas ele apenas me olha e retira a mão debaixo da minha. — E você tem filhos? — pergunta, depois que o clima pesa ainda mais. — Não. Eu nunca sequer me deitei com ela. Como assim? Eu ouvi direito? Ele continua olhando para a porta, mas responde: — Quando nos casamos, ela era pura. E acredito que ainda seja. Nunca me interessei por ela. Nunca desejei o corpo dela. — Você tem certeza de que ela ainda é pura? — pergunto, esperando a resposta. — Pelo jeito que ela é… acredito que sim. Não consigo me conter e acabo rindo. — É sério isso? Ela já é bem adulta para continuar pura. — É… você tem razão — ele parece pensativo agora. Será que ele realmente acreditava nisso? — Você realmente achava que ela ainda era pura? Ele me olha, confuso. Sim. Ele achava. — Na verdade, nunca pensei nisso. Mas, se ela não for, não tem problema. Isso é só um casamento de aparências. Se eu me envolvo com outras mulheres, por que ela não poderia fazer o mesmo? Essa pergunta parece mais para ele mesmo do que para mim. — Você já tentou conversar com ela? — Não. Muitas vezes ela tentou falar comigo, mas eu nunca quis. — Talvez ela só quisesse fazer o casamento dar certo… não como uma prisão para vocês dois. Ele baixa o olhar para as próprias mãos. — Antes de nossas famílias decidirem tudo, nós éramos amigos. Bons amigos. Até que um dia ela disse que gostava de mim como algo mais. Acho que esse casamento foi a oportunidade que ela viu para tentar ter alguma coisa comigo. Ele respira fundo. — Quero o divórcio. Penso nisso há muito tempo. Não faz sentido continuarmos presos a algo que nenhum de nós quis. Nossos pais já morreram. Apesar dos meus sentimentos pelo Sr. Richard, eu não posso deixá-lo se divorciar. E se ela ainda gostar dele? E se ainda estiver esperando que, um dia, ele a ame? Eu não posso fazer isso. — Ela ainda parece interessada em você? — Sim. Mas não como antes. Acho que finalmente percebeu que nada nunca iria acontecer. — Então… — engulo em seco — amanhã eu quero que você fale com ela. Como quando eram amigos. Ele vira o rosto para mim, sem entender. — Eu não quero ser amigo dela. Muito menos continuar esse casamento. Mesmo assim, continuo: — Faça isso uma última vez. — Por favor. Mesmo que vocês não voltem a ser amigos… eu não vou te pedir para não se divorciar. Apenas tente. Nem eu mesma sei explicar. Eu só não quero que ele termine com ela. — E se você não conseguir dizer nada… — acrescento — apenas a observe... O corredor continua escuro. As lâmpadas estão sempre fundidas. Giro a chave e entro em casa. Katy está na cozinha, mexendo em alguma coisa. Aproximo-me. — Katy, o que você está fazendo? — Uma sopa — responde com um pequeno sorriso. Mas o sorriso dela parece vazio. — Prova — diz, estendendo a colher. — Está quente, devagar. Levo à boca. Sinceramente, é o pior gosto que já senti na vida. — Então? O que achou? — ela espera, ansiosa. — Katy… está ótima. Mas da próxima vez, deixa que eu cozinho. Ela apenas volta a mexer a sopa com a colher de p*u. Apesar do gosto h******l, não consigo dizer a verdade. Desde o aborto, a Katy já não é a mesma. Muitas noites, ela abafa o choro no travesseiro. Às vezes eu tento confortá-la. Em outras… simplesmente não sei o que fazer. Sinto-me m*l. Muito m*l. Por não conseguir ajudar a minha amiga a superar isso. Mas tudo passa com o tempo. … pelo menos é o que eu espero.
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