Capítulo 6

1459 Palavras
A casa é linda. Linda de um jeito que machuca, porque tudo o que é bonito demais me faz lembrar do que nunca tive. O chão brilha como se alguém tivesse passado horas polindo cada pedaço dele, e o ar tem cheiro de sabonete caro — daqueles que nunca acabam. — É aqui que as crianças costumam brincar — diz a senhora Glória, com a voz leve, abrindo uma porta que já estava entreaberta. Ela entra primeiro. Eu a sigo devagar, com o cuidado de quem teme quebrar alguma coisa só por existir perto demais. O quarto é um pequeno caos de desordem infantil. Há brinquedos espalhados, livros abertos no chão e dois rostos que me olham com a inocência que o tempo ainda não teve coragem de roubar. São crianças tão pequenas, tão inteiras, que me dá vontade de chorar antes mesmo de sorrir. Uma delas segura um carrinho e me observa, curiosa — com os olhos mais sinceros que já vi. A outra ri, e esse riso preenche o espaço inteiro, como se o mundo nunca tivesse conhecido o silêncio. Eu queria poder ser como elas. Queria que alguém tivesse me olhado assim, um dia, antes que eu aprendesse a esconder tudo o que sou atrás de uma expressão calma. Mas não digo nada. Apenas fico ali, parada, observando o que a felicidade parece ser quando ainda não sabe que um dia vai acabar. — Venha, Mara. Vou te apresentar as crianças. — A voz da senhora Glória soa doce, como se estivesse me guiando para dentro de algo sagrado. Eu me aproximo, hesitante. Ela pega o bebê no colo, e o pequeno corpo se ajeita entre os braços dela com a confiança de quem conhece aquele aconchego desde sempre. — Essa coisinha fofa é o caçula da senhora Bennett. Miles. O nome dele é Miles. — Ela fala com um carinho que suaviza o ar ao redor. Dou um passo mais perto. Miles me observa por um instante, os olhos grandes e tranquilos. Estendo a mão, devagar, e toco a pontinha do nariz dele. É tão pequeno, tão perfeito, que sinto uma pontada no peito. Ele solta um som que parece uma risada — breve, mas cheia de vida. — Acho que ele gostou de você — diz Glória, sorrindo ao me ver interagir com ele. Eu também sorrio, mesmo sem entender bem por quê. — É... acho que gostou mesmo. Por um segundo, o tempo parece parar. É estranho como um sorriso tão pequeno pode caber tão bem dentro de mim. — Agora vou lhe apresentar o Nathaniel. — Ela se abaixa e coloca Miles de volta no tapete. O bebê se senta com dificuldade, equilibrando-se nas perninhas curtas, e começa a bater dois bloquinhos coloridos um no outro, produzindo sons indecifráveis que o fazem rir. — Este é o Nathaniel, o segundo filho da senhora Bennett. — Ela aponta para o menino sentado mais adiante, no canto do quarto. Ele empurra um carrinho pelo chão, concentrado, como se aquele brinquedo fosse o centro do mundo. — O Nathaniel é um pouco tímido com estranhos... mas você só é estranha por enquanto, é claro — diz Glória, rindo baixo. Aproximo-me e me abaixo perto dele. — Eu queria aprender a dirigir um carrinho como você — digo, tentando soar leve. Ele não responde. Continua empurrando o brinquedo, os olhos fixos no chão. — O meu nome é Mara — acrescento, com voz suave. — E o seu? — Nathaniel. — A palavra sai rápida, quase indiferente, e ele volta a brincar. — Ele vai se acostumar com você com o tempo — comenta Glória, serena. Olho para ela e sorrio, um sorriso pequeno, educado, o tipo que a gente dá quando quer esconder o que sente. Depois me levanto, com cuidado para não fazer barulho. — Então, como está indo? — A voz da senhora Vivian me atravessa de repente. Ela está parada à porta. — O pequeno Miles gostou muito da Mara, senhora — responde Glória, sorridente. Vivian me observa. E observa por tempo demais. Seus olhos são claros, atentos, quase frios. Há algo nela que me faz querer desviar o olhar, mas não consigo. — Você pode começar hoje? — pergunta, sem desviar os olhos de mim. Demoro alguns segundos antes de responder. Ela é tão branca que parece feita de porcelana — linda, mas distante, como algo que não se pode tocar. — Sim, posso começar hoje, senhora Vivian. Ela apenas assente, antes de se virar para sair. — Glória, explique a ela tudo o que precisa saber sobre as crianças. Talvez não tenha ouvido a resposta de Glória, porque já está fora do quarto. — Eu sabia que você seria contratada! — diz Glória, radiante. Dessa vez, deixo o meu sorriso escapar. Pequeno, mas sincero. — Eu também estou feliz. — Então venha — ela diz, animada. — Vou te explicar a rotina das crianças. Glória me guia pelo corredor com passos lentos, e o som de seus saltos ecoa suave no chão de madeira. A casa parece respirar. Tudo é tão quieto que o próprio silêncio tem peso. — A senhora Bennett gosta que tudo siga uma rotina certinha — começa ela, abrindo uma porta branca que dá para o quarto das crianças. — Nathaniel costuma acordar às sete. Miles, o pequeno, acorda um pouco depois, por volta das sete e meia. Eu ouço com atenção, tentando decorar cada detalhe, como se isso fosse me provar digna de estar ali. — Depois do café, eles costumam brincar aqui por um tempo. Às nove, Nathaniel tem aula com a tutora. Miles ainda é muito pequeno, então você vai ficar com ele durante a manhã — explica, enquanto ajeita um travesseirinho esquecido no canto do sofá. Concordo com a cabeça. — O almoço é às doze em ponto. Teresa prepara tudo na cozinha, mas você vai ajudar a organizar as crianças, dar banho, trocar roupas… essas coisinhas. — O jeito que Glória fala “coisinhas” torna o trabalho quase bonito. — À tarde, a senhora Bennett geralmente passa um tempo com eles. Às vezes lê histórias para Nathaniel, outras vezes só fica observando o Miles brincar. Ela é mais presente do que parece. A cada palavra, sinto o coração apertar. “A senhora Bennett”, “as crianças”, “a casa” — tudo parece pertencer a um mundo que não é o meu, e mesmo assim eu quero fazer parte dele. — E à noite? — pergunto, num tom que quase não sai. Glória sorri. — Às oito, eles já estão dormindo. A casa fica num silêncio bonito. É o único horário em que eu escuto meus próprios pensamentos. — Ela ri baixinho, como quem confessa algo íntimo. Sorrio também, mas dentro de mim há um eco que não sei nomear. Faz tanto tempo que não sei o que é silêncio sem solidão. Ela me mostra o resto da casa: o corredor estreito, o banheiro com cheiro de lavanda, a varanda que dá vista para um jardim enorme. As flores se inclinam ao sol, e eu me pergunto há quanto tempo não me inclino para nada. Quando voltamos ao quarto das crianças, Miles está sentado no tapete, balbuciando sons indecifráveis enquanto bate dois bloquinhos coloridos um no outro. Nathaniel empurra o carrinho pelo chão, concentrado em não deixar que as rodas saiam da linha imaginária que ele mesmo criou. Glória se abaixa, ajeita o cobertorzinho que Miles puxa e morde como se fosse um tesouro. — Você vai se sair bem, Mara. — Ela me olha com ternura. — Eu sei quando alguém tem o coração certo pra isso. — A senhora Bennett parece fria às vezes, mas… não leve para o lado pessoal. Ela é reservada, só isso. Reservada. A palavra gruda em mim. Penso em como também sou feita de reservas — de silêncios, de segredos — e em como, talvez, seja por isso que estou aqui. — Eu entendo — respondo. E entendo mesmo. Glória me dá um leve tapinha no ombro. — Então, vamos começar devagar. Ajude o Nathaniel a guardar os brinquedos, e eu fico de olho no pequeno Miles. Me abaixo perto de Nathaniel. — Vamos guardar juntos? — pergunto, tentando soar gentil. Ele me olha rápido, hesita, e empurra o carrinho até a caixa de brinquedos. Um gesto simples, mas o suficiente para fazer meu peito se aquecer. Miles solta um gritinho alegre e bate palmas, como se tivesse entendido o que aconteceu. Eu rio baixinho. E, por um segundo, sinto que aquele riso infantil enche o espaço que antes só tinha vazio. Às vezes, o começo de um vínculo é tão pequeno que a gente quase não vê acontecer.
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