Melhores amigos

2066 Palavras
        Finalmente estava me mudando. Coloco as últimas malas no carro do motorista de aplicativo sentindo o sol forte em minha pele. Estava mais que animada. A sensação de se estar no começo de algo grande me consumia. Uma porta aberta para um mundo de oportunidades. Dou um abraço forte no meu pai.  —Eu vou sentir saudades querida—ele disse assim que nos afastamos.         Um homem de poucas palavras. Sabia que aquela simples frase era grande expressão de afeto para seus padrões. Ele é um bom pai. Fez o melhor para me criar na ausência da minha mãe.  — Não se preocupe. Eu venho visitar nas férias e feriados — disse animada. Querendo transmitir a ele confiança. Lembrá-lo que não ficaria longe muito tempo. Ele concordou com a cabeça e pude notar algumas lágrimas discretas pela sua face. Fomos só nos dois por muito tempo. —Não precisa chorar. São só 4 anos —disse sorrindo largo.         O motorista de aplicativo buzinou impaciente. E dei um aceno para o papai antes de entrar no carro. A viagem até a universidade era muito longa. Mas o motorista só me levaria até o aeroporto. Era possível ir de carro, o que demorava cerca de 5 a 6 horas dependendo do trânsito. Mas de avião demorou apenas meia hora. Peguei um táxi que custou uma fortuna por ficar na região do aeroporto. Mas estava tão feliz ao conhecer a cidade que moraria pelos próximos anos que resisti a vontade de xingar o motorista por ser um grande oportunista. Lhe dei o endereço do apartamento que ficava em um local privilegiado a poucos minutos do campus.         Quando o mesmo parou em frente ao grandioso prédio moderno, sorri largo ao notar que o local correspondia perfeita as fotos. Ao passar pela recepção chique agradeci por não ter que pagar pelo local sozinha. Na verdade, tinha noção que o valor que pagava era mais simbólico do que uma divisão real da despesa. Porém, gostava de acreditar que estava sendo de alguma forma justo. Caminho em direção ao elevador. Busco na mochila surrada a chave do apartamento. Após quase revirá-la por completo encontro o chaveiro de ferro com a logo da NBA.         Satisfeita abro a porta encontrando no local limpo e bem decorado. Meu lar nos próximos anos. A porta dava para uma sala de estar que possuía uma Tv 4K perfeita para acompanhar todos os jogos da temporada. A cozinha era meio pequena o que parecia um padrão em apartamentos modernos. E a sala de jantar continha uma mesa redonda de 8 lugares maravilhosa para jogar poker. O fato de ser completamente de madeira e não de vidro era um detalhe escolhido a dedo já que nossos amigos tinham uma tendência a socar a mesa quando perdiam. Um corredor levava a quatro portas distribuídas de forma igual. Sendo que a esquerda estava a porta do lavabo e a sua frente estava a porta do quarto de visitas. Logo ao lado se encontrava a porta da minha suíte. O quadro de friends pendurado na porta denunciava isso. E logo na frente do meu quarto ficava a porta que dava acesso ao quarto do Jacob.          Jacob Taylor é meu melhor amigo. Como posso descrevê-lo? Bem, ele é amante de esportes. Apaixonado por basquete como eu. O motivo de termos entrado nessa universidade é justamente o time universitário. Ele faz parte do time masculino enquanto eu faço parte do time feminino. Nos conhecemos na infância. E dês do dia que nos conhecemos não nos separamos mais.         Fazer o que, ninguém me entende como ele. Somos os amigos perfeitos. Exatamente porque somos iguais. Temos tanto em comum que alguns dizem que sou a versão feminina dele. Claro que minha aparência física não é igual. Já que não temos nenhum parentesco. Porém posso dizer com certeza que nem se fôssemos gêmeos entenderíamos tão bem um ao outro. Sou tirada do meu devaneio ao ouvir o som da porta. Por ela atravessa Taylor cheio de malas. — Pensei que ia chegar só depois que as aulas começassem—comento o observando jogar as coisas pela sala. Ia reclamar, mas noto que fiz o mesmo sem perceber. — Meus pais me incomodaram tanto que resolvi vir mais cedo— ele respondeu e me encarou — não vai me cumprimentar? — questionou levantando uma sobrancelha.             Corri até ele fazendo nosso toque secreto. E sinto seus braços ao meu redor em um abraço saudoso. Ficamos um total de duas semanas longe um do outro. Nosso record.  —Senti sua falta, munchkin — ele disse me abraçando. Bufei com o apelido. N.D.A (nota do autor): munchkin é um gatinho de pernas curtas, mas bem curtinhas mesmo. Ou seja está chamando ela de baixinha.         Odeio quando me chama assim, mas o fato de não gostar é justamente o que o faz continuar falando. Apesar de saber disso não me controlo e soco seu ombro. —Para de palhaçada — digo o afastando. —Não precisa ficar bravinha, munchkin — ele riu. — Se falar isso mais uma vez eu te arrebento — disse. —O que foi pequena munchkin? Eu não te ouvi de tão longe— ele brincou.         Ele era alto, um fato. Com mais de 1,90. O esperado de um jogador de basquete. Ele era pivô, ou seja, seu foco na partida era marcar pontos. Já eu sou uma armadora minha função é planejar jogadas. Apesar disso ainda tenho uma altura considerável para mulheres com meus 1.78 podia facilmente ser uma modelo. Claro, se fosse bonita e desnutrida. A questão é que para a maioria das pessoas eu sou alta até demais. Geralmente sou evitada pelos homens já que com um pequeno salto passo da altura da maioria deles. Ele é o único que diz que sou baixa. Estou pronta para bater nele quando me lembro que os amistosos do NBA começam em minutos e ainda se quer coloquei as malas em meu quarto. — Vou deixar passar dessa vez Taylor porque não quero perder o jogo— disse recolhendo minhas malas e seguindo para o meu quarto.         O quarto também era exatamente como fechei com o decorador. A mãe de Jacob insistiu em contratar um. O que sinceramente agradeci porque tenho zero paciência para escolher móveis. Apesar disso o cara me mandou alguns e-mails pedindo minha opinião e mandando fotos do resultado. O quarto era surpreendente. Digno de uma revista. O decorador se divertiu escolhendo um enxoval cinza com detalhes roxos e colocando detalhes referentes a esporte como o cesto de roupa suja sendo um cesta de basquete. E as linhas da quadra no piso. Sob o criado mudo havia um abajur que era a Lola bunny do filme “Space jam” com a bola de basquete na ponta do dedo que também era a luz. Tirando esses detalhes era um quarto bem comum. Com móveis pretos reluzentes.         Apresso-me para guardar as coisas de maneira rápida. Sabendo que teria que organizar tudo de verdade mais tarde. E quando retorno a sala Jake já está esparramado pelo sofá com o controle na mão. Percebo que ele já colocou no canal de esportes e me acomodo no sofá ao seu lado. Era bem natural para mim estar junto a ele. Já praticamente morávamos juntos antes mesmo de resolvermos fazer isso. Porque estávamos constantemente na casa um do outro. Acho que por isso nossos pais lidaram tão bem com a ideia. Os Taylor acreditavam que Jacob não poderia morar sozinho porque acabaria utilizando o local para festas e garotas. O que não estavam errados. E apesar do meu pai confiar em mim e na minha incontestável responsabilidade. Não tínhamos dinheiro para bancar um lugar. Pelo menos não um lugar nesse nível. Acabaria morando numa república ou dormitório público. O que deixava meu pai inquieto e inseguro. Mas assim era perfeito. Ainda me lembro da cara dos três quando fizemos o jantar para compartilhar a ideia. Havia sido mais ideia minha obviamente. Anne, mãe do Jake me abraçou forte. Michael, o pai do Jake sorriu para o meu e o papai quase chorou. Foi estranho. Pareceu na verdade que estávamos anunciando nosso casamento. Apenas a ideia me fazia rir.         Não que Jacob não precisasse de uma mulher para colocá-lo nos eixos. Mas a ideia de pensarem que essa mulher podia ser eu era ridícula. Jacob precisa de uma garota que seja o oposto de mim. Eu era parecida demais com ele. Competitiva, egocêntrica e expansiva. Ele precisa daquelas garotas doces e tímidas. Garotas que geralmente passam seu tempo lendo. Que não estariam com babacas como ele se não estivessem completamente apaixonada. Uma bem menininha e feminina. Com uma altura normal, que outros não vejam como uma cavala, como eu. Alguém que faria ele esquecer o jogo e não que comentaria que o juiz era um i****a cego. Uma garota que pudesse fazê-lo mudar por ela.         Analiso a face dele enquanto o mesmo xinga o pivô do Philadelphia por perder uma bola ridícula. A quanto tempo nos conhecemos, paro para pensar e a lembrança de quando nos vimos pela primeira vez me atinge.         Eu estava cansada da escola mesmo ainda estando no primário. Dês de sempre as outras crianças me chamavam de cavala por ser mais alta e forte que os demais. No dia em questão, estava sentada no banco do corredor de castigo. Havia acabado de bater em um garoto por ele ter me chamar de “Maria macho”. Então a professora me deixou ali para pensar em meus atos.         Naquele momento, escutei uma comoção na sala ao lado. Percebi que o professor havia ido para algum lugar deixando a sala alguns minutos sozinha. Minutos mais que suficientes para crianças criarem um caos. Notei as cadeiras arrastadas para dar espaço para uma briga que acontecia no meio da sala. Um garoto mais gordinho e forte batia em um garoto mais magro e baixo. Ele o xingava de marica ou garotinha. O que me irritou mais do que o esperado.         Acho que já naquela época eu não conseguia fugir de uma confusão. Não é difícil supor o que houve. Eu acabei com o gordinho na p*****a. E ainda disse “quem é a garotinha agora” quando terminei. Tentei ajudar o garoto magrelo, porém ele na verdade ficou com raiva de mim. Disse que podia ter resolvido aquilo sozinho e que eu não devia ter me metido. Como uma ironia terrível do destino esse foi o momento que o professor deles voltou. Acabei na diretoria com o garoto magrelo. E tivemos que esperar pelos nossos pais.         Naqueles minutos que pareceram a eternidade. Nossa raiva um com o outro se dissipou e passamos a xingar o gordinho que se livrou da visita ao diretor. Jacob esclareceu que os garotos da sua sala sempre o incomodavam graças ao seu cabelo de tigela. Extremamente liso e longo o suficiente para tapar seus olhos. Disse que chamavam ele de “bicha” por causa dele. Mas eu sabia a verdade assim que o identifiquei. Mesmo naquela época ele era popular com as garotas e isso era o que realmente incomodava os outros meninos. Eu lhe contei que entendia como era porque as pessoas da minha sala me chamavam de “Maria macho”. E tivemos empatia um pelo outro.         Nos anos que se passaram nos tornamos inseparáveis. Aprendemos muito um com o outro. Nós ajudamos a superar os julgamentos alheios. Devo admitir que ele superou melhor que eu. Hoje, ele é alto e atlético, o cabelo liso se mantém em um topete. Mas manteve sua popularidade com as garotas e até se gaba por isso. Já eu mantive meu posto de garota alta e resolvi usar esse “dom”. O basquete foi a saída fácil. Devo admitir que sou boa e amo o esporte.         Nesses anos que se passaram construímos uma amizade sólida. Onde temos completa liberdade um com o outro. Revelando até mesmo segredos íntimos. No caso, ele compartilha suas conquistas amorosas e seus relacionamentos de uma noite. Enquanto eu lhe conto minhas desilusões amorosas.         Analiso sua face novamente. Acho que seus pais estavam certos. Ele devia arrumar um relacionamento sério. E foi quando tive a ideia. Eu devia ajudar meu melhor amigo. Devia arrumar a mulher perfeita para ele. E tinha um mar de oportunidades para isso. Já que ele não teve tempo de espalhar sua fama pelo campus ainda.
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