O coração fala mesmo com medo.

606 Palavras
Isadora ainda segurava a rosa quando o silêncio caiu entre eles. Não era um silêncio vazio. Era carregado de tudo o que ainda não tinha sido dito. — Você vai me deixar falar agora? — ela perguntou, tentando parecer firme, mas a voz saiu trêmula. Márcio sorriu de leve. — Eu vim pra isso. Ela respirou fundo, deu dois passos para trás e abriu espaço para ele entrar. — Entra… antes que eu desista. Ele entrou. A porta se fechou devagar, como se o mundo lá fora não fosse mais importante naquele momento. Isadora encostou-se na parede, abraçando a rosa contra o peito. — Eu fiquei com medo — começou. — Não de você… mas de mim. Márcio franziu a testa, atento. — Medo de quê? — De confiar. De acreditar. De gostar… — ela falou rápido demais. — Porque quando eu gosto, eu fico exposta. E quando fico exposta, as pessoas vão embora. Ele deu um passo à frente, mas parou, respeitando o espaço dela. — Eu não fui embora. — Mas podia ter ido — ela respondeu. — E isso já é suficiente pra me assustar. Ela suspirou, passando a mão pelos cabelos. — Eu não sei fazer isso direito, Márcio. Eu nunca fiz. Nunca namorei. Nunca… — ela parou, engoliu seco — nunca deixei alguém chegar tão perto. Ele sentiu o peito apertar. — Eu também tô sentindo algo que nunca senti — confessou. — E isso me assusta um pouco. Porque não é leve, não é passageiro. É… real. Ela arregalou os olhos. — Não fala assim — disse rápido. — Porque se não der certo vai doer muito. E se você for embora eu vou sentir sua falta igual senti nesses dias, e isso foi h******l, e eu fiquei querendo te ver chegando, e— Ela parou de repente. Piscou. — Eu tô falando demais, né? Márcio mordeu o lábio para não rir. — Um pouco. — Tá vendo? Eu fico nervosa — ela continuou, já embalada. — Aí eu falo, falo, falo… e começo a dizer coisas que não devia. — Tipo? Ela corou na mesma hora. — Tipo… que eu tenho medo dos seus beijos. Ele arqueou a sobrancelha. — Medo? — É! — respondeu rápido. — Porque depois eu fico tendo sonhos que eu não queria sonhar… mas que adoraria que acontecessem. Silêncio. Márcio ficou parado por dois segundos. E então começou a rir. — Então quer dizer que você estava sentindo a minha falta… e sonhando comigo? Ela congelou. — Não! — disse rápido demais. — Quer dizer… sim… não… quer dizer… depende! — Depende do quê? — ele perguntou, divertindo-se. — Do dia! — ela respondeu, cobrindo o rosto com as mãos. — Meu Deus, para de rir! Ele riu ainda mais. — Isadora, você acabou de dizer que sente minha falta, que fica nervosa comigo, que sonha comigo… e ainda assim quer fingir que isso não significa nada? Ela tirou as mãos do rosto, envergonhada. — Eu tô tentando sobreviver — murmurou. Ele se aproximou devagar. — Eu não quero ser mais alguém que você precise sobreviver depois — disse sério. — Eu quero ser alguém que fique. Ela sentiu os olhos marejarem. — Eu não sei se consigo prometer não ter medo. — Eu não preciso disso — respondeu. — Só preciso que você não fuja. Ela respirou fundo. — Então… talvez… eu possa tentar. Ele sorriu. — Isso já é tudo pra mim. Isadora apertou a rosa entre os dedos, o coração acelerado, mas pela primeira vez sem vontade de correr. Ela ainda tinha medo. Mas agora, tinha algo maior que ele. Esperança.
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