Capítulo 2

1583 Palavras
Ponto de Vista: Ariadne ​O silêncio do meu apartamento parecia mais alto do que o normal. O envelope preto, feito de um papel áspero e pesado, repousava sobre o centro da mesa de centro, como uma promessa vertiginosa ou uma sentença sem retorno. Desde que saímos do gabinete do Professor Thorne Salazar, o ar entre nós quatro havia se tornado denso, impregnado por uma expectativa latente que nenhuma de nós conseguia dissipar. ​Tranquei a porta da sala e apoiei as costas contra a madeira fria. Ana andava de um lado para o outro, os braços cruzados apertados contra o peito, a respiração entrecortada e o olhar fixo no envelope. Verena já estava sentada no sofá, as pernas cruzadas, os lábios entreabertos em um sorriso nervoso e faminto. Soraia, como de costume, permanecia encostada na janela, observando a noite lá fora, mas o movimento acelerado de seu peito denunciava a tempestade interna. ​— Nós não podemos levar isso a sério — Ana disparou, quebrando o silêncio com a voz trêmula de indignação. — Aquele homem... ele ouviu nossas conversas mais íntimas. Ele está usando a posição dele para nos atrair para uma armadilha. Dominic Becker? Vocês sabem quem ele é? Ele destrói concorrências no mercado financeiro sem piscar os olhos! ​— Ele não está nos chantageando, Ana — retruquei, caminhando devagar até a mesa e pegando o documento preto. Minhas pontas dos dedos tremiam levemente quando desdobrei as folhas espessas. — Ele nos deu uma escolha. Uma escolha consciente. ​— Uma escolha? — Ana riu, um riso seco e sem humor. — Ariadne, o contrato exige submissão total! Sem direito a recuo uma vez atravessados os portões. Sem telefones. Sem contato externo. O que eles querem não é apenas sexo, é controle absoluto sobre o nosso corpo. ​— E não é exatamente isso que passamos os últimos meses desejando? — a voz de Verena cortou a sala, baixa e carregada de uma provocação crua. Ela se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Quantas vezes nos sentamos aqui reclamando dos garotos da faculdade? Da inexperiência deles, do jeito afobado com que nos tocam, como se estivessem cumprindo uma meta? Nós queríamos homens de verdade. Homens que não pedem licença para nos tomar. E agora que eles estão estendendo a mão, você quer recuar por orgulho? ​Ana parou de andar, a mandíbula travada, os olhos faiscando. Mas não havia negação em seu olhar; havia medo do próprio desejo. ​Ponto de Vista: Ana ​A provocação de Verena atingiu exatamente onde mais doía. Porque ela tinha razão. Por mais que meu intelecto tentasse erguer barreiras, meu corpo reagia de forma traidora a cada palavra do contrato. ​A ideia de Dominic Becker — um homem cuja presença em revistas de negócios exalava autoridade, dinheiro e um poder inabalável — me querendo de joelhos, dobrando minha resistência até que não restasse nada do meu orgulho, fazia um calor doloroso se concentrar no meu baixo ventre. ​Mais tarde naquela mesma noite, quando todas já haviam se recolhido para os seus quartos, me vi sozinha na penumbra da minha cama. As cortinas meio abertas deixavam a luz da lua entrar, desenhando sombras no teto. A imagem do gabinete de Thorne e as descrições sobre o grupo de amigos repassavam em minha mente em um loop torturante. ​Deise a mão lentamente pela minha barriga. A pele estava quente, arrepiada. Meus dedos deslizaram para baixo da calcinha de renda, encontrando o tecido completamente encharcado. Um suspiro pesado escapou pelos meus lábios no instante em que minhas pontas dos dedos tocaram o c******s hipersensível. ​Imaginei mãos grandes e calejadas me segurando com força. Não mãos hesitantes de garotos, mas as mãos de Dominic, pressionando meus pulsos contra o colchão, ditando o ritmo, me proibindo de mover até que ele me desse permissão. Apenas a fantasia de ser dominada por um homem que não aceita um "não" como resposta me fez arquear as costas. Esfreguei os dedos com mais pressa, a luxúria me consumindo em uma onda violenta e sem filtro. Quando o orgasmo me atingiu, forte e doloroso, meu corpo estremeceu inteiro, e a constatação veio como um golpe: eu já era dele, antes mesmo de assinar aquele papel. ​Ponto de Vista: Verena ​A sexta-feira amanheceu com o tempo fechado, o céu cinzento espelhando a tensão que dominava o apartamento. Ninguém conseguiu ir às aulas. O tempo parecia andar em um ritmo diferente, cada segundo pesando como uma eternidade até o prazo final das 48 horas. ​Eu estava no banheiro, encarando o espelho enquanto a água quente do chuveiro preenchia o ambiente com vapor. Minha pele estava vermelha do toque da água, mas por dentro o calor era ainda mais intenso. Dr.Gideon -um cirurgião. Thorne o chamara de meticuloso, um homem que conhecia a anatomia humana e usava a precisão para ditar a dor e o prazer. ​Passei os dedos pelo meu pescoço, descendo até meus s***s eretos, apertando a carne com uma força que quase machucava. Eu queria sentir aquela precisão. Queria um homem que olhasse para o meu corpo não como uma curiosidade, mas como um instrumento a ser tocado com rigor. A ideia de ter meus sentidos controlados, de ser levada ao limite da dor calculada até que me desmanchasse em lágrimas e prazer, fazia com que minha respiração ficasse entrecortada. ​Saí do banho enrolada na toalha e encontrei Soraia na cozinha. Ela segurava uma xícara de chá, olhando fixamente para a caneta que repousava ao lado do contrato sobre a mesa. ​— Você não disse uma palavra desde ontem, Soraia — comentei, me aproximando. — O que está se passando nessa sua cabeça? ​Soraia virou o rosto devagar. Havia uma escuridão em seus olhos que eu nunca tinha visto antes, uma fome contida que não precisava de alarde. ​— Kaelen Alistair — ela pronunciou o nome com uma lentidão quase carnal. — O contrato diz que ele é obsessivo. Que ele exige isolamento e posse total. A maioria das mulheres teria medo disso. Mas eu... eu passei a vida inteira esperando por alguém que quisesse me possuir por inteiro, sem divisões. ​Ela pegou a caneta. Sem hesitar, sem reler os termos, Soraia firmou sua assinatura na última página do documento. A tinta preta fixou-se no papel espesso. ​— Eu já fiz a minha escolha — disse ela, olhando para mim. — E você? ​Ponto de Vista: Soraia ​A atitude de assinar o papel agiu como um catalisador. Verena pegou a caneta da minha mão imediatamente e escreveu seu nome logo abaixo do meu, os olhos brilhando com uma antecipação quase febril. ​Ariadne saiu do quarto logo em seguida. Ela vestia uma roupa sóbria, mas seu rosto carregava a determinação de quem havia cruzado um ponto de não retorno. Ela olhou para as duas assinaturas no papel e depois para Ana, que permanecia encostada no batente da porta, pálida, mas com o olhar fixo no documento. ​— É agora, Ana — Ariadne disse, a voz soando como a de uma líder prestes a guiar sua tropa para a batalha. — Ou nós fazemos isso juntas, ou queimamos esse papel e fingimos que nada disso aconteceu. Mas se queimarmos, saiba que nunca mais seremos as mesmas. Vamos passar o resto da vida se perguntando o quão longe poderíamos ter ido. ​Ana caminhou devagar até a mesa. Seus passos eram firmes, embora suas mãos tremessem levemente. Ela encarou o contrato por longos segundos, lendo novamente as cláusulas que exigiam a rendição de nossas vontades, o abandono da modéstia e a submissão irrestrita às ordens do grupo. ​— Se aquele homem achar que pode me quebrar facilmente... ele vai ter uma surpresa — Ana murmurou, a voz carregada de uma mistura perigosa de orgulho e resignação. ​Ela pegou a caneta e assinou. ​Por fim, Ariadne pegou o instrumento. Como a primeira a encarar Thorne no gabinete, sua assinatura fechou a folha de termos. Quatro nomes. Quatro entregas voluntárias. ​O relógio na parede marcava exatamente cinco da tarde de sexta-feira. O prazo das 48 horas havia terminado. Dobramos o contrato assinado e o colocamos de volta no envelope preto. ​Mal tínhamos terminado de organizar nossas poucas bolsas quando um zumbido grave ecoou no interfone do apartamento. Ariadne atendeu. A voz do porteiro veio abafada pelo alto-falante: ​— Senhorita Ariadne? Há um carro executivo preto esperando por vocês na portaria. O motorista disse que está aqui a pedido do Senhor Salazar. ​Um arrepio coletivo percorreu a sala. Não havia mais espaço para debate, para hesitação ou para dúvidas. O jogo havia começado. Descemos pelo elevador em silêncio absoluto, ouvindo apenas o bater acelerado de nossos próprios corações. Ao cruzarmos o saguão e passarmos pelas portas de vidro do prédio, um SUV blindado, com vidros totalmente escurecidos, nos aguardava com a porta traseira aberta. ​O motorista, vestindo terno impecável e luvas de couro, fez um gesto silencioso para que entrássemos, recolhendo nossos telefones celulares em uma caixa metálica selada assim que nos acomodamos no interior de couro escuro do veículo. ​O motor do carro rugiu baixo, e o veículo deslizou para longe do centro da cidade, deixando para trás as luzes familiares da faculdade e nos levando em direção às estradas escuras e isoladas que conduziam ao refúgio. O destino estava selado; nossa inocência ficaria naquela estrada.
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