Capitulo 06

1404 Palavras
Heloísa narrando Assim que a porta do meu quarto se fechou atrás de mim, eu desabei. Literalmente. A mala ainda estava na minha mão, quando minhas pernas perderam a força e eu sentei na beirada da cama. Olhei em volta. Meu quarto. O mesmo quarto. As mesmas cortinas. Os mesmos móveis. As mesmas fotografias. Tudo exatamente igual. Como se o tempo tivesse parado no dia em que fui embora. E aquilo acabou comigo. As lágrimas vieram antes mesmo que eu percebesse. Uma atrás da outra. Silenciosas. Doloridas. Porque, por mais que três anos tenham passado, eu ainda sinto falta dele todos os dias. Do meu pai. Acho que nunca superei a perda dele. Talvez eu nunca supere. Tem dores que não diminuem. A gente só aprende a carregar. Olhei para a foto dele em cima da cômoda. Sorri entre as lágrimas. — Eu voltei, pai. Minha voz saiu baixa. Embargada. — Eu tô em casa. Fechei os olhos por alguns segundos. Lembrando dele. Das broncas. Dos abraços. Dos conselhos. Das noites em que ele chegava tarde e mesmo assim vinha me dar boa noite. Meu peito apertou. Porque ele deveria estar aqui. Deveria estar me esperando. Deveria estar sentado naquela sala me enchendo o saco. Mas não estava. E isso nunca vai deixar de doer. Respirei fundo. Passei as mãos pelo rosto. E tentei me recompor. Depois que tudo aconteceu e o Sapão me tirou daqui, fui morar em Foz do Iguaçu. Uma prima da minha mãe morava lá. Foi ela quem me acolheu. Quem cuidou de mim. Quem me ajudou, quando eu achava que nunca mais conseguiria sorrir. Mas, por mais grata que eu seja... Nunca foi minha casa. Nunca. Porque, não existiu um único dia em que eu não pensasse em voltar. Um único dia. Eu sentia falta do Rio. Do morro. Das pessoas. Das lembranças. Até dos problemas. E agora que eu estava aqui novamente... Era estranho. Muito estranho. Como se uma parte de mim nunca tivesse ido embora. Levantei e comecei a guardar minhas coisas. Abri o closet. E percebi o quanto eu tinha mudado. Muitas roupas simplesmente não serviam mais. Algumas ficaram pequenas. Outras apertadas. Outras eu nem gostava mais. Sorri sozinha. Porque, realmente não era mais a mesma menina que saiu daqui aos quinze anos. Agora eu tinha mais corpo. Mais curvas. Meu cabelo estava enorme. Batendo quase na cintura. Preto. Cheio de cachos. E olhando para aquelas roupas antigas, percebi que precisava fazer uma limpa. Peguei várias peças. Vestidos. Blusas. Shorts. Muitos ainda estavam com etiqueta. — Dona Maria deve conhecer alguém que precise. Separei tudo num canto. Tenho certeza que alguém vai aproveitar. Depois de organizar praticamente tudo, olhei no relógio. Quase duas da tarde. — Meu Deus! Nem tinha percebido o horário. Meu estômago roncou imediatamente. Estava morrendo de fome. Peguei uma roupa confortável e fui para o banheiro. Assim que liguei o chuveiro e a água quente caiu sobre meu corpo, senti toda tensão dos últimos dias escorrer pelo ralo. Fechei os olhos. Respirei fundo. Meu corpo finalmente relaxou. E pela primeira vez desde que cheguei... Senti paz. Uma paz absurda. Porque eu estava em casa. Finalmente. Terminei o banho e coloquei um conjunto da Maria Gueixa. Leve. Fresco. Perfeito para aquele calor absurdo do Rio. Soltei o cabelo. Passei desodorante. Creme corporal. Perfume. Peguei meu celular. Meu cartão. Uma havaiana. E saí. Meu destino era óbvio. O restaurante da tia Neuza. Porque, se existia uma coisa da qual eu tinha certeza... Era que ninguém fazia comida melhor que ela. Ninguém. Conforme eu caminhava pelas ruas do Dendê, percebi vários olhares curiosos. Alguns me encaravam tentando descobrir quem eu era. Outros apenas observavam. Imagino que muitos achassem que eu era uma moradora nova. Mas os mais antigos sabiam. Dava para perceber. Alguns vapores me reconheceram imediatamente. Acenaram. Sorriram. E aquilo, aqueceu meu coração. Quando cheguei ao restaurante, encontrei o lugar lotado. Como sempre. Nada tinha mudado. Fui até o balcão. — Boa tarde! — Boa tarde, querida! — Tem lasanha? — Tem sim. Sorri. — Então quero uma marmita. Pedi para viagem e fui me sentar. Enquanto esperava, fiquei mexendo no celular. Respondendo algumas mensagens. Organizando algumas coisas. Até que cerca de vinte minutos depois, ouvi uma voz conhecida. — Ah, meu Deus! Levantei os olhos. E vi tia Neuza parada na minha frente. Com a marmita nas mãos. Os olhos arregalados. Cheios de emoção. — Não acredito! Ela largou a marmita no balcão e me abraçou. — Meu Deus, Heloísa! Sorri. — Oi, tia! — Como tu tá linda! Comecei a rir. — Não exagera. — Exagerar nada! Ela segurou meu rosto. — Como eu senti tua falta. Meu coração apertou. — Eu também senti saudade. — Como você tá? — Tô bem. — Graças a Deus! — E a senhora? — Tô ótima. Ela continuava me olhando, como se eu fosse uma aparição. — Toda vez que faço essa lasanha, eu lembro de você. — Porque eu comia metade da panela. Ela começou a rir. Nesse momento, uma garota apareceu ao nosso lado. Devia ter mais ou menos minha idade. — Vó, vou buscar a Talita na escola. — Tá bom, meu amor! A mulher se virou para mim. — Helo, essa é minha neta. Mariana. — Oi. Sorri. — Prazer. — Oi, Helo! Ela sorriu também. — Já ouvi falarem muito de você. — Espero que coisas boas. Ela riu. — As melhores. — Preciso correr porque a Talita tá me esperando. — Vai lá. — Foi um prazer te conhecer. — Igualmente. Ela se despediu e saiu. Tia Neuza balançou a cabeça. — Essa menina parece um bicho do mato. Comecei a rir. — Tadinha. — Já a Talita me dá dor de cabeça suficiente pelas duas. — Isso nunca muda. Ela concordou rindo. Foi então que me lembrei das roupas. — Tia. — Fala. — Tenho várias roupas novas lá em casa. — Uhum. — A senhora conhece alguém que precise? Os olhos dela brilharam. — Se quiser me dar, eu dou pra Talita. — Claro. — Ela vai amar. — Então depois eu levo. Ela sorriu toda feliz. Peguei meu cartão. — Agora me cobra. Ela me lançou um olhar indignado. — Tá maluca? — Tia... — Nem vem. — Mas... — Se tua mãe souber que eu cobrei uma marmita de você, ela levanta do túmulo pra me bater. Nós duas caímos na risada. Meu pai sempre dizia que minha mãe e a tia Neuza eram inseparáveis. Melhores amigas. E olhando para ela agora, eu conseguia entender perfeitamente. Depois de mais um tempo conversando, finalmente fui embora. E enquanto caminhava pelas ruas do Dendê, senti uma sensação difícil de explicar. Pertencimento. Casa. Era exatamente isso. Eu estava em casa. Quando cheguei, liguei a televisão. Abri a marmita. E comecei a comer. A lasanha continuava perfeita. Como eu lembrava. Quando terminei, já era quase quatro horas da tarde. E depois de tanto tempo acordada... Acabei apagando no sofá. A próxima coisa que lembro foi abrir os olhos completamente confusa. Demorei alguns segundos para entender onde estava. Olhei ao redor. Escuro. Silêncio. Meu quarto. Franzi a testa. Eu tinha certeza absoluta, que tinha dormido na sala. Peguei o celular. 03:07 da manhã. — Que? Sentei rapidamente na cama. Tentando entender como tinha ido parar ali. Levantei. Saí do quarto. E fui até a cozinha. Precisava de água. Bebi um copo inteiro. Ainda confusa. Até que ouvi vozes do lado de fora. Caminhei até a porta. Abri devagar. E encontrei alguns vapores na contenção da casa. Um deles chamou minha atenção imediatamente. Magrinho. Ele continuava exatamente igual. Só um pouco mais velho. Assim que me viu, abriu um sorriso enorme. — Fala aí, patroa! Comecei a rir. — Magrinho! Fizemos nosso toque antigo. — Quanto tempo. — Nem fala. — Tá grandão agora. — E tu tá rica de bonita. Revirei os olhos. — Mentiroso. Ele riu. — Patrão colocou a gente aqui na contenção da casa da senhora. — É? — Pra proteger. Meu coração aqueceu. — Qualquer coisa que precisar é só dar um salve. — Pode deixar. — Tamo junto. Sorri. — Obrigada! Voltei para dentro alguns minutos depois. Fechei a porta. Encostei nela. E finalmente entendi. Alguém tinha me carregado até meu quarto. Alguém tinha me coberto. Alguém tinha cuidado de mim enquanto eu dormia. E por algum motivo... Eu tinha quase certeza de quem era.
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