Capítulo 01

1573 Palavras
Heloisa narrando O Morro do Dendê nunca dormia. Mesmo de madrugada, quando o céu escuro cobria os barracos e o vento trazia cheiro de chuva misturado com pólvora, ainda existia barulho. Moto subindo ladeira. Rádio chiando nas bocas. Cachorro latindo atrás dos portões enferrujados. Homem armado andando de um lado pro outro como se fosse parte da paisagem. Eu cresci ouvindo tiros antes mesmo de aprender a ler. Meu pai dizia que, no nosso mundo, criança amadurecia cedo ou não sobrevivia. E eu sobrevivi. Sobrevivi ao morro, às guerras, aos inimigos… sobrevivi até à morte que tentou me levar aos quinze anos. Mas a verdade é que uma parte de mim ficou enterrada aqui. No Dendê. Nele. Fechei os olhos por um instante, apoiando a cabeça no vidro do carro enquanto observava as luzes da comunidade surgirem ao longe. Meu peito apertou tão forte que precisei respirar fundo. Três anos. Três anos longe daquele lugar. Três anos fingindo que eu conseguia viver sem olhar por cima do ombro. Sem medo. Sem saudade. Só que saudade também mata. Devagar. Silenciosa. — Tá tudo bem moça? você parece nervosa. Sabe pra onde tá indo né? — o motorista perguntou, me olhando pelo retrovisor. Concordei com a cabeça, Nervosa não chegava nem perto do que eu estava sentindo. Meu estômago parecia revirado desde o momento em que o avião pousou no Rio de Janeiro. E piorou quando entramos na Linha Amarela e comecei a reconhecer os lugares. Os muros pichados. Os becos. As vielas. As memórias. Passei os dedos discretamente pela cicatriz na lateral da barriga. Um hábito antigo. A lembrança veio como um soco. — Tu não vai morrer, Heloisa. Tá ouvindo? Tu não vai morrer. Ele chorava enquanto segurava minha mão dentro daquele hospital. Nunca vou esquecer daquela cena. Nunca. Eu tinha quinze anos quando os médicos disseram que meus rins estavam parando. Quinze anos quando ouvi meu pai quebrar tudo dentro da sala do hospital porque nenhum doador era compatível. Quinze anos quando achei que fosse morrer. E então ele apareceu. Tairon. O herdeiro do Dendê. O menino que cresceu correndo comigo pelas vielas. O garoto que pegava bala da vendinha fiado pra me fazer rir. O único que sempre me olhou como se eu fosse mais do que "a filha do patrão". Ele tinha dezessete anos quando decidiu doar um rim pra mim. Dezessete. Lembro até hoje da discussão. O pai dele quase matou ele. Disse que aquilo era loucura. Que ele era jovem demais. Que não podia arriscar a própria vida daquele jeito. Mas Tairon nunca ligou pra consequência nenhuma. — Ela é minha família. Foi isso que ele respondeu. Minha família. Sorri sem perceber, sentindo os olhos arderem. A pior parte de amar alguém é quando a pessoa vira casa pra você. Porque, depois disso, nenhum outro lugar no mundo consegue parecer lar. E ele era o meu. Mesmo quando tudo desmoronou. Principalmente quando tudo desmoronou. A mão fechou involuntariamente sobre o tecido do casaco ao lembrar daquela noite. Tiros. Gritos. Sangue. Meu pai caído no chão. A emboscada aconteceu rápido demais. Até hoje eu não consigo lembrar de todos os detalhes sem sentir falta de ar. Só lembro da fumaça, das sirenes ao longe e da voz desesperada do Sapão mandando me tirarem dali. — Leva ela embora AGORA! Meu pai ainda estava vivo quando fui arrancada do morro. Mas morreu antes do amanhecer. E junto com ele morreu a menina que eu era. Depois daquilo, eu virei alvo. Herdeira do comando. Filha do homem mais temido da região. Os inimigos queriam minha cabeça antes mesmo do enterro acontecer. Então me mandaram embora do Rio. Embora dele. A primeira coisa que fiz quando cheguei longe foi procurar notícias do Tairon. E continuei procurando durante os três anos seguintes, mesmo prometendo pra mim mesma que não faria isso. Vi fotos. Vídeos. Comentários. Vi ele crescer. Virar o novo dono do Dendê. Vi mulheres ao redor dele. Festas. Ouro no pescoço. Arma na cintura. O mesmo olhar frio do pai. E vi ela. A mulher que estava ao lado dele agora. A morena bonita das fotos. A que aparecia abraçada nele nos bailes. A que sorria como se pertencesse ao lugar onde um dia eu achei que fosse meu. Doeu mais do que eu gostaria de admitir. Porque, enquanto eu passava noites pensando nele… ele seguiu vivendo. Seguiu em frente. O carro começou a subir a ladeira principal do morro, me arrancando dos pensamentos. Meu coração disparou automaticamente. Por sorte o uber era morador, então tinha acesso livre. O Dendê continuava igual. As crianças correndo descalças. O cheiro de churrasquinho vindo da esquina. Os homens armados observando tudo dos becos. O funk ecoando ao longe. Mas também estava diferente. Mais tenso. Mais perigoso. Eu percebia isso no jeito que os soldados seguravam os fuzis. Nos olhares desconfiados. Nos muros marcados por tiros recentes. Tinha guerra vindo aí. Eu sentia. O carro desacelerou perto da antiga casa do meu pai, e meu peito apertou tão forte que achei que fosse chorar ali mesmo. A fachada continuava a mesma. O portão preto. A varanda grande. Só que agora parecia vazia. Fria. Sem vida. Porque ele não estava mais ali. Engoli seco quando a porta da casa abriu antes mesmo de eu descer do carro. E então eu vi Sapão. Os anos também tinham passado por ele. Os cabelos estavam mais grisalhos. O rosto mais cansado. Mas os olhos continuavam os mesmos. Leais. Firmes. Por alguns segundos, nenhum de nós falou nada. Ele só ficou me olhando, como se estivesse tentando acreditar que eu realmente estava ali. — Cäralho… — a voz dele saiu baixa. — Tu tá igualzinha à tua mãe. Foi o suficiente pra destruir o resto da força que eu ainda tinha. Desci do carro rapidamente e ele me abraçou forte. Tão forte que senti meu peito doer. Sapão nunca foi homem de demonstrar sentimento. Cresci ouvindo ele xingar todo mundo, meter medo em metade da favela e resolver problema na bala. Mas naquele momento, abraçado comigo, ele tremia. — Achei que nunca mais fosse te ver, princesa. Fechei os olhos com força. Princesa. Era assim que meu pai me chamava. — Eu também achei — respondi num sussurro. Ele se afastou devagar, segurando meu rosto entre as mãos. — Teu pai ia ficar orgulhoso pra cäralho de ver tu aqui hoje. A dor atravessou meu peito como faca. Olhei rapidamente pra casa, tentando fugir do assunto antes que desmoronasse ali. — Mudou pouca coisa. Sapão soltou uma risada fraca. — Porque eu não deixei mudarem. Essa casa continua sendo tua. Sempre vai ser. Meu coração apertou ainda mais. Entrei devagar, observando cada detalhe. Os móveis. As fotos antigas. O cheiro de madeira e cigarro. Era como entrar num pedaço do passado que ficou congelado no tempo. Passei os dedos pela mesa da sala, lembrando das noites em que meu pai recebia os homens do morro ali enquanto eu ficava escondida ouvindo conversa proibida. Lembrei do Tairon sentado no sofá, rindo comigo enquanto Sapão brigava porque a gente fazia bagunça dentro de casa. Lembrei de tudo. — Ninguém sabe que tu voltou ainda — Sapão falou atrás de mim. Virei lentamente. — Nem ele? O silêncio respondeu primeiro. E aquilo já bastou. Sapão suspirou, passando a mão na barba. — Não. Meu coração perdeu uma batida. Parte de mim ficou aliviada. Outra ficou decepcionada por ele não estar ali. Ridículo. Depois de três anos, o que eu esperava? Que ele tivesse passado esse tempo inteiro me esperando? Sapão me observava como se soubesse exatamente o que estava acontecendo dentro da minha cabeça. Talvez soubesse mesmo. — Tairon mudou muito desde que tu foi embora — ele disse com cuidado. Desviei o olhar imediatamente. — Eu vi. Vi nas notícias. Nas fotos. No jeito que o nome dele começou a causar medo igual ao do pai dele causava antigamente. O menino que me carregava nas costas pela favela não existia mais. Agora existia o dono do Dendê. E eu não sabia qual das versões dele encontraria quando finalmente ficássemos cara a cara de novo. Sapão caminhou até a janela, olhando o movimento lá fora. O semblante dele endureceu. — As coisas tão feias por aqui, Heloisa. Pior do que tu imagina. Tem gente querendo guerra. E tua volta pode piorar tudo. Cruzei os braços tentando esconder o desconforto. — Então por que deixou eu voltar? Ele virou o rosto lentamente pra mim. — Porque esse lugar também é teu. E porque teu pai morreu tentando proteger o que era da família dele. Engoli seco. Família. Aquilo vinha me perseguindo desde que cheguei. Porque, no fim, era isso que o Dendê representava. Sangue. Lealdade. Pertencimento. Mesmo destruindo quem fazia parte dele. Sapão segurou as coisas do comando, mas sempre deixou claro que quando eu estiver pronta, esse lugar é meu por direito. Lá fora, o som de uma moto acelerando alto ecoou pela rua. Depois outra. E outra. Sapão olhou rapidamente pela janela. O rosto dele mudou na mesma hora. Ficou tenso. — O que foi? — perguntei baixinho. Ele demorou alguns segundos pra responder. Então virou pra mim lentamente. — Ele já deve saber que você está aqui. Meu coração parou. O silêncio tomou conta da sala enquanto o barulho das motos aumentava do lado de fora. E pela primeira vez em três anos… Tairon estava perto de mim outra vez. continua...
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