Capitulo 13

1446 Palavras
Heloísa narrando  Voltei a dormir já quase amanhecendo. Depois de encontrar o Magrinho na contenção da casa e descobrir quem tinha me levado para o quarto, fiquei um tempão acordada olhando para o teto. Era ridículo. Eu sabia disso. Mas meu coração simplesmente não colaborava. Toda vez que eu fechava os olhos, lembrava dos braços do Tairon me levantando no ar quando me viu de volta. Do sorriso dele. Do abraço. Do jeito que ele me olhou. E isso era um problema. Um problema enorme. Porque ele era casado.  Respirei fundo e virei para o lado. Tentando afastar aqueles pensamentos. E em algum momento acabei pegando no sono.  Quando acordei novamente, já era quase dez horas da manhã. Abri os olhos devagar. Por alguns segundos fiquei encarando o teto sem entender onde estava. Até que as lembranças voltaram. Eu estava em casa. No Dendê. No meu quarto. Sorri sozinha. Mesmo depois de três anos longe, ainda parecia um sonho estar ali.  Levantei da cama. Abri a janela. O calor do Rio entrou imediatamente no quarto. Junto com o barulho das motos. Do funk tocando longe. Das vozes das pessoas andando pelas vielas. O morro acordava cedo. Sempre. E eu senti uma paz enorme ao ouvir tudo aquilo.  Peguei uma roupa. Fui para o banheiro. E tomei um banho demorado. Lavei os cabelos. Passei creme. Fiz hidratação. Tudo com calma. Porque sabia que depois do almoço minha vida começaria a mudar de verdade. Sapão iria começar a me ensinar as coisas do comando. Eu já tinha alguma noção. Eu via meu pai sempre resolvendo as coisas em casa. Mas saber algumas coisas e comandar uma facção eram coisas totalmente diferentes. Eu tinha muito para aprender. Muito mesmo.  Quando terminei o banho, voltei para o quarto. Sequei os cabelos. Finalizei os cachos. Passei perfume. Escolhi uma roupa confortável. Um shorts preto desfiado e minha camiseta do flamengo. Olhei meu reflexo no espelho. Ainda era estranho. Porque durante anos eu sonhei com esse momento. E agora ele finalmente estava acontecendo.  Meu celular vibrou. Era Sapão.  Atendi.  — Oi.  — Helo, vou atrasar um pouco. Tem problema?.  — Não, ta tudo bem.  — Tem umas paradas que preciso resolver antes de ir pra i.  — Pode ficar tranquilo, eu espero sim.  — Não precisa me esperar com fome não. vai comer alguma coisa.  Sorri.  — Eu vou esperar.  Ele riu.  — Teimosa igual teu pai. Já encosto então  — Tá bom.  Desliguei. Desci para a sala. Me joguei no sofá. Peguei o celular. E comecei a analisar algumas rotas que eu tinha separado. Uma carga grande estava prevista para chegar naquela semana. E mesmo sem assumir oficialmente, eu queria entender melhor como as coisas funcionavam. Meu pai sempre dizia que quem não conhecia o próprio negócio acabava dependendo dos outros. E eu não queria depender de ninguém.  Estava tão concentrada olhando as rotas que nem ouvi os passos do lado de fora. Só percebi quando a porta abriu. E uma cabeça apareceu. Magrinho.  — Aí, Helô.  Levantei os olhos.  — Fala.  — A patroa tá aqui querendo trocar uma ideia contigo.  Franzi a testa.  — A patroa?  — É. Angélica. O que essa mulher estava fazendo aqui? E principalmente... O que ela queria comigo?  Levantei do sofá lentamente.  — Pode deixar ela entrar.  Magrinho assentiu. Abriu mais a porta. E eu fiquei parada esperando.  Segundos depois ela entrou. Olhando em volta. Observando tudo. Como se estivesse analisando a casa. Depois os olhos dela encontraram os meus. E ela me encarou. De cima a baixo. Sem disfarçar.  Cruzei os braços.  — O que você quer? E sobre o que você quer falar?. — perguntei fechando a porta.  Ela deu um sorriso sem humor.  — Queria conhecer a mulher que tá se fazendo de sonsa pra tirar meu marido de mim.  Por alguns segundos achei que tinha ouvido errado.  — Como é que é? — Ela cruzou os braços também.  — O Tairon é meu marido. — Meu sangue começou a ferver. — E eu não vou deixar você estragar isso.  Continuei encarando ela. Sem acreditar.  — Nós temos uma família. — Ela continuou. — Tivemos um filho juntos.  Minha paciência foi embora.  — Não faço ideia do que tá falando, então se era só isso, já pode ir embora.  Ela arregalou os olhos.  — Escuta bem, eu não vou deixar você destruir o que nós temos.  Respirei fundo. Contando até dez. Porque não e possível que isso tá acontecendo.  — Você tá se ouvindo? — Perguntei. — Porque eu acho que você só pode ser louca.  O rosto dela endureceu.  — Eu tô te avisando.  — E eu tô te dizendo que você tá louca. Eu não tô aqui pra destruir a vida de ninguém.  — Então porque tu voltou?.  — E quanto ao seu marido... — A palavra saiu carregada. — Eu não tô indo atrás dele.  Ela continuou me encarando.  — Então pode ficar tranquila.  Abri a porta.  — Agora sai da minha casa.  Os vapores do lado de fora olharam imediatamente. Claramente percebendo que o clima estava pesado. Angélica não se mexeu.  — Espero que você tenha entendido. — Chegou mais perto. — Porque você não me conhece. e se vier bancar a talarica aqui, vou te levar pras ideias  Meu olhar endureceu.  — Tá me ameaçando?  Ela não respondeu. Mas também não negou. Foi suficiente. Dei um passo à frente. Ficando praticamente cara a cara com ela.  — Escuta uma coisa. — Minha voz saiu baixa. Fria. — Não vai achando que porque você é mulher dele pode chegar aqui falando comigo do jeito que quiser. Você também não me conhece, então não vem com essa de talarica pra cima de mim.  Ela respirou fundo. Mas não desviou o olhar.  — Eu não tô indo atrás do teu marido. — Repeti. — Então se não quer ele aqui... Fala com ele.  O silêncio ficou pesado.  — Agora vaza. — falei apontando pra rua.  Ela me encarou mais alguns segundos. Depois virou as costas. E saiu.  Os vapores estavam com os olhos arregalados. Magrinho mexia os dedos nervosamente. Como se estivesse assistindo uma bomba prestes a explodir.  Passei a mão no rosto.  — Era só o que me faltava.  Fechei a porta. Voltei para o sofá. Peguei o celular. E tentei voltar a me concentrar.  Mas sinceramente? Eu estava irritada. Muito irritada. Porque eu não tinha feito absolutamente nada. Nada. E mesmo assim aquela mulher tinha aparecido na minha casa me acusando de coisas que nem fiz. Posso sim amar ele, mas nunca me prestaria a esse papel ridículo que ela colocou na mente dela.  Continuei olhando as rotas. Analisando os caminhos. Calculando riscos.  Até que ouvi novamente a porta abrir. Levantei os olhos. E dessa vez era Sapão.  — Bora?  Sorri.  — Bora.  Levantei imediatamente. Peguei minha bolsa. Meu celular. E saí com ele.  Os vapores abaixaram a cabeça quando passei. Principalmente Magrinho. Que parecia evitar me olhar.  Entrei no carro. E seguimos.  Durante o caminho Sapão começou a me explicar algumas coisas. Falou sobre movimentação. Sobre fornecedores. Sobre alianças. Sobre quem era confiável e quem não era. Tudo parecia muito mais complexo do que eu imaginava.  — Vai precisar aprender rápido. — Ele comentou.  — Eu sei.  — Porque quando tu assumir oficialmente... As pessoas vão testar você.  Olhei pela janela.  — Eu também sei.  — E muita gente não vai gostar de receber ordem de uma mulher.  Sorri sem humor.  — Então vão ter que aprender. Porque não sou de desistir fácil das coisas.  Sapão deu risada.  — Gostei dessa resposta.  Continuamos conversando. Até que ele comentou sobre um baile.  — Final de semana vai ter um baile grande.  Olhei para ele.  — Ah é?  — É.  — Qual o motivo?  — Tu.  Franzi a testa.  — Como assim?  — A tua volta.  Balancei a cabeça. Já imaginando de quem tinha sido a ideia.  — Tairon?  Sapão apenas sorriu. Não precisou responder.  Chegamos ao restaurante da Tia Neuza pouco depois. Entramos. Escolhemos uma mesa. E sentamos. O movimento estava tranquilo.  Foi então que Mariana apareceu. Tímida como sempre. Segurando um cardápio.  — Oi. — Sorri.  — Oi.  — Tá tudo bem?.— perguntei pra ela que confirmou.  — Tá sim. E você?  — Bem também.  Conversamos rapidamente. Depois fizemos nossos pedidos. Ela anotou tudo. E se afastou.  Foi então que ouvi um barulho alto de moto. Olhei sem prestar muita atenção. Mas imediatamente reconheci quem tinha entrado. Tairon, do lado do Vitin. Meu coração simplesmente esqueceu como funcionava. Ele me viu no mesmo instante. E sorriu. Aquele sorriso torto. Bonito. Que eu conhecia desde criança. E sem pensar duas vezes... Veio caminhando na minha direção.
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