SOFIA - CONTRATO OU NOIVADO

842 Palavras
Aos dezoito anos, o meu aniversário não foi uma festa; foi um comunicado de imprensa. O pedido de casamento, feito publicamente por Otávio, me transformou da "namorada-surpresa" na futura Senhora Otávio de tal. A partir daquele dia, meu corpo e minha imagem deixaram de me pertencer. O anel de diamantes era colossal. Pesado. Era o símbolo perfeito: ele me tinha. O noivado trouxe uma nova fase de controle, mais sutil, menos sobre onde eu estava, e mais sobre quem eu era. Ele me impôs um dress code rígido e caro. Minhas roupas, antes simples, foram substituídas por peças de alta costura, sempre em tons neutros, discretos, que me faziam parecer mais velha e menos visível. — A esposa de um homem da minha posição não se veste como uma adolescente na balada, Sofia — ele explicava com paciência de professor. — Você é a minha vitrine. E a vitrine deve ser elegante e inatingível. Ele não me dava escolhas; me dava catálogos. Se eu escolhesse uma cor que ele não gostava, ele me olhava com aquela decepção fria que me fazia sentir a pessoa mais ingrata do mundo. O casamento foi marcado para dali a três meses. Minha vida se resumiu a provas de vestido, encontros com floristas caríssimas e, principalmente, à convivência com a arquiteta de interiores. Otávio comprou uma mansão nova, e a decoração se tornou o seu novo campo de batalha para impor o controle. Ele me obrigava a passar horas escolhendo cores e tecidos, mas desprezava qualquer sugestão que eu desse. — Não, Sofia. Isso é infantil. Você não tem senso de estética para esse nível. Deixe que a profissional cuide disso. Você precisa apenas aprovar o meu gosto. Eu não era uma parceira; eu era um acessório na decoração da minha própria casa. O peso do anel, a solidão, e a anulação dos meus sonhos tornaram-se insuportáveis. Certa tarde, trancada no banheiro do apartamento dele, eu liguei para a minha mãe. Eu sabia o que ela diria, mas eu precisava de uma voz familiar para validar que eu estava sendo infeliz. — Mãe, eu não aguento mais. Ele não me deixa escolher nada. Ele me trata como um fantoche. Eu não sou eu mesma aqui. Eu chorei, e pela primeira vez, minha mãe não me cortou. Ela respirou fundo, e a voz dela, geralmente dura, adquiriu um tom de cansaço quase piedoso. — Filha, eu sei. — A admissão me chocou. — Eu sei que ele é difícil. Mas o que você quer? Voltar para cá? Voltar para o cursinho e pegar três ônibus por dia? — Eu quero ser feliz! Eu quero a Enfermagem! — A felicidade é ter a vida resolvida, Sofia. Olhe para o seu futuro. Você tem dezoito anos e vai casar com um bilionário. Aceite o temperamento dele como a taxa que você paga pelo luxo. Seu pai nunca me deu nada e me traía abertamente. Pelo menos ele te dá segurança. — Ele não me deixa convidar a Renata para o casamento! Ele a riscou da lista! — E ele está certo! Aquele povo da favela só vai te arrastar para baixo! — A voz dela voltou à dureza. — Você tem um dever agora, Sofia. Obedeça-o. Não faça perguntas. Seja elegante. Você tem a sorte que eu nunca tive. Não seja tola. Ela desligou antes que eu pudesse responder. Naquele momento, eu soube: eu estava sozinha. Minha própria mãe havia me assinado um contrato de submissão, selando meu destino com a ganância. O medo me paralisou. A fuga se tornou uma fantasia perigosa. O alarme final veio na semana seguinte. Eu havia acidentalmente esquecido meu novo tablet (presente dele) na casa de um dos sócios dele. Ele dirigia, mas não falou uma palavra por vinte minutos. O silêncio era uma tortura psicológica. Chegamos em casa. Ele me segurou pelo queixo, forçando-me a olhá-lo, os olhos azuis faiscando de fúria contida. — Você é descuidada, Sofia. Você não valoriza o que eu te dou. Você age como uma criança irresponsável. Ele não gritou, mas o tom era de desprezo absoluto. Ele me empurrou contra a porta, a força do corpo dele me prendendo. — Você vai me ouvir. Você não tem mais o direito de cometer erros. Você é a minha esposa. E eu não tolero a sua incompetência. O empurrão não doeu no corpo, mas foi um t**a na alma. Ele me largou, caminhou para o bar e se serviu de um uísque, me deixando encostada na porta, tremendo. Ele havia me agredido sem encostar a mão no meu rosto. Eu entendi naquele momento, aos dezoito anos, que o Otávio romântico havia morrido. Eu estava noiva de um agressor frio, e o casamento era a minha sentença de prisão perpétua. O único lugar para onde eu podia fugir – o conforto da minha mãe – havia se tornado o muro da minha cela. A única coisa que me restava era esperar a cerimónia, sorrir para as câmeras, e desejar que, de alguma forma, o destino me tirasse daquele inferno dourado.
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