CAP 18 - PEDRO E SERENA PARTE 2

2573 Palavras
Lúcio sentia Serena como irmã, todos aliás, menos Pedro. Ele tinha o maior carinho por ela e sempre tentava protegê-la. Como Serena e Pedro eram jovens, e não tinham deixado claro os seus sentimentos, todos tentavam tratá-los de forma que não fossem irmãos, sem excluir Serena da família. Entendiam que havia amor ali, paixão e, portanto, desejo. Apenas se referiam aos sentimentos um pelo outro de amor, sem evidenciar que tipo de amor se tratava. Assim, eles também não sentiam-se pressionados a confessar tais sentimentos. Serena deita a cabeça no colo de Lúcio, dizendo: - Ele piorou com a morte dos nossos pais. Lúcio acaricia o cabelo dela em um suave cafuné, dizendo: - É que mamãe domava esse lado mais rebelde de Pedro. Além do que Sabemos que é a forma dele lidar com sua perda. Infelizmente ele projeta mais suas frustrações em você, talvez por sempre estar perto. Aquilo realmente fazia sentido. Serena para de chorar e começa a se acalmar. Ursinha tenta puxar as orelhas do caçula: - Você também, hein, Pedro? Tem que irritar tanto Serena? Pedro fala de forma rebelde: - E vocês têm que mimá-la tanto? Tratam ela como cristal… Ursinha literalmente puxa as orelhas de Pedro, dizendo: - Olha a boca, menino. Pedro fala: - Ai, ai, ai… Ursinha: - É para gritar mesmo. Não sabe que tudo o que você faz para ele, ou diz tem peso maior. Pedro: - Só vocês enxergam isso. Sou irmão dela como todos os outros. Todos se entreolham. Ele dizia uma coisa, mas deixava claro outra. Francisco: - Não lhe custa ser mais amável. Creio que mamãe gostaria disso, se fosse viva. Pedro fica pensativo com o argumento. Realmente foi de peso. Agora não podia ser muito carinhoso...e se ela percebesse o que sentia? E se ela sentisse o mesmo? Ele estava acostumado com os dois como irmãos...como seria algo mais? Será que todos entenderiam? Será que mamãe entenderia onde estivesse? Fazia tanta questão de sermos irmãos...não podia simplesmente esquecer tudo. E seria certo? Afinal ela era como filha e irmã...não seria incesto? Não somos irmãos de sangue, mas de coração...Não? Ele ficava em conflito… Lúcio deixa Serena melhor. Ele resolve descer. Lúcio olha para Pedro, dizendo: - Vem comigo. Pedro fica nervoso. Geralmente quando Lúcio era assim, vinha sermão de umas três horas ou uma repreensão. Com carinha de filhote, Pedro senta-se na cadeira da frente, da escrivaninha, do escritório de Lúcio. Lúcio fecha a porta. Todos já sabiam o tema que iriam discutir: o amor de Pedro e Serena. Lúcio senta-se e une as mãos, tentando evidenciar calma e serenidade. Pedro observa cada detalhe do irmão. Era seu modelo e tentava imitá-lo em tudo. Sabia que fosse o que fosse ouvir, seu irmão sempre estaria certo. Lúcio inicia suas colocações de maneira doce. Ele realmente estava em sintonia com o coração de sua mãe. Parece que sentia sua dor em ter errado com seus filhos. Tentava consertar as coisas. Lúcio: - Meu irmão...Serena é nossa irmã de coração, porque sentimos por ela amor de irmão verdadeiro, independente de ter ou não nosso sangue. Agora, se um de nós, sentisse algo a mais que amor por ela, nada nos impediria de ficar ao seu lado. Pedro sente suas bochechas corarem. Será que tinha dado tantas evidências de seus sentimentos? Em sua cabeça disfarçava bem. Lúcio continua: - Por favor, deixe-me terminar...O que tornaria Serena não nossa irmã, caso sentíssemos algo diferente. Incesto, seria se ela fosse nossa irmão de sangue e ouvesse desejo. Isso não descarta a adoção. Para mamãe e para o papai ela era uma filha. Para todos nós ela é uma irmã, agora se para você Serena é algo diferente, não há nada que desabone isso. Pedro está visivelmente refletindo. Ele diz temerosamente: - Será que mamãe pensaria assim? Toda vez que demonstrei sentir algo diferente ela sempre me impediu. Lúcio: - Nós, filhos, tendemos a acreditar que nossos pais são isentos de defeitos. Mamãe era maravilhosa. A mulher mais incrível que já conheci, porém ela era humana. Tentou acertar com a gente, mas não necessariamente que tudo que fez foi isento de erros. Pedro estava surpreso. Miguel mantinha Isadora longe, seu segredo estava ameaçado constantemente, mas sabia que estava chegando a hora de lhe contar do seu deslize. Precisava lhe dizer a verdade e acreditar que o perdoaria. Lúcio diz: - Vou lhe contar algo que só eu, Júlio e Lucas sabemos de papai. Você já está com idade de entender certas coisas. Ele traíu mamãe. Pedro olha para Lúcio com um olhar decepcionado. Lúcio explica: - Quando Lucas nasceu, mamãe quase morreu. Ela chegou a ser desenganada. Papai não suportou a notícia e foi beber no bordel. A dona era apaixonada por ele e passaram a noite juntos. A mulher engravidou. Papai estava tão bêbado e não lembrava direito da noite. A tal mulher mentiu para ele, dizendo que nada aconteceu e só em seu leito de morte, confessou ter tido uma filha dele. Ele passou anos da vida achando nunca ter traído a mamãe. Depois que descobriu, ele mudou e se sentiu culpado. Não fez de caso pensado, mas acabou fazendo. Errou, pois é humano. Mamãe nunca soube. Pedro: - Então temos um outro irmão ou irmã? Lúcio: - Sim. Madalena. Pedro: - A dona do bordel? Lúcio: - Ela mesma. Pedro faz uma carinha feliz por ter uma irmã. Ele já a havia visto, mas jamais imaginaria uma traição de seu pai. Lúcio: - Estou lhe contando tudo isso, para perceber que todos somos humanos e carregamos imperfeições. Mesmo diante da vontade de nunca errarmos, mesmo tentando nunca errar, existem momentos que fazemos. Assim como mamãe, não ter percebido seus sentimentos, tentando inibí-los, achando que se os aceitasse era o mesmo que negar sua maternidade para com Serena. Pedro parecia entender tudo. Realmente era tudo muito claro e lógico. Agora ainda tinha algo em seu coração que não conseguia aceitar...Achava até ali que fosse pela sua mãe, mas pelo visto era mais que isso. Lúcio: - Agora, se existe algo mais e quiser conversar. Sei que são jovens, mas reconheço um amor verdadeiro quando vejo um. Gostaria de ter conhecido Amália desde criança e passado a vida com ela. Então, seja lá o que estiver pesando em seu coração, saiba que seu irmão está aqui. Pedro olha para Lúcio com admiração, carinho e respeito. Ele diz: - Obrigada. Eu realmente não entendo o que estou sentindo. Achei que fosse referente a mamãe, mas agora, sinceramente, já não sei o que é. Lúcio: - Pois saiba que todos torcemos por sua felicidade e a de Serena. Aqui só queremos isso. Pedro sorri, aliviado. Foi a primeira vez que seu irmão o tratou como adulto. Lúcio diz: - Agora, tente ser mais doce com Serena. Ela está pensando que não gosta dela. Pedro diz: - Que criança. Lúcio o repreende: - Olha! Pedro sorri, dizendo: - Vou lá falar com ela. Lúcio: - Sem provocação. Pedro diz: - Palavra de honra. Lúcio: - Vai, sai daqui. Pedro sai e percebe todos olhando para ele. Ela olha e sobre correndo as escadas. Ao chegar na porta do quarto, bate, coloca a cabeça para dentro e pergunta: - Posso entrar? Serena diz: - Pode. Ele senta-se na cama, ao lado de Serena, dizendo: - Acha mesmo que não gosto de você. Serena fala: - Parece. Pedro: - Eu só não consigo não te provocar. Serena: - Mas qual o motivo? Pedro: - Eu gosto. É como se tivesse algo dentro de mim que faz e não tivesse controle. Serena olha para ele com uma carinha triste. Pedro: - Mas não quero te machucar. Sinto vontade de te testar, saber se gosta de mim, se está prestando atenção em mim. É como uma necessidade. Serena: - Presto mais atenção em você do que em qualquer outra pessoa. Pedro: - No fundo eu sei disso, mas parece que preciso sempre ter certeza. É como se… Serena diz: - Como se? Pedro: - Quisesse saber o que realmente sente por mim. Serena: - Eu amo você, Pedro. Pedro: - Eu sei, mas como é esse amor? Serena: - Não entendi. Pedro: - É da mesma forma que sente por Lúcio, Francisco e os outros? Serena fica pensativa. Ela então diz: - Não. É diferente. Pedro diz: - Diferente como? Serena: - Não sei explicar, só é diferente. Sempre te olhei diferente. Não sei se é pelo fato de termos crescido juntos. Pedro sentia receio de se declarar e estragar tudo entre eles, afinal, o que ela sentiria? E se fossem muito novos? Ele a abraça. Serena o abraça forte dizendo: - Só promete para mim que nunca vamos nos separar? Pedro abraça ela igualmente forte, respondendo - Prometo minha balofinha. Serena lhe dá uns tapas. Ele sorri e lhe dá um beijo nas bochechas. Então diz: - Agora venha, ursinha fez ambrosia. Sei que você adora. Ele levanta-se e estende a mão para ela, que a segura. Os dois vão para baixo de mãos dadas. Pedro fala: - Tem ambrosia, ursinha. Úrsula já tinha servido um pouco para os dois. Estava esperando que viessem. Sempre vinham. Os dois sentam-se à mesa da cozinha e começam a comer o doce. Sem Serena falar nada, a ursinha lhe coloca uma xícara de café amargo. Serena amava comer doce e tomar café amargo. Para Pedro, coloca um copo de água. Ursinha diz, sentando-se à mesa junto: - Então, o que vão aprontar hoje? Pedro: - Estava pensando...podíamos fazer biscoitos de natal. Ursinha: - Mas ainda faltam três meses para o natal… Serena: - Mamãe nunca esperava. Ela amava o natal...sempre fazia biscoitos em qualquer época do ano ... .e panetone… Pedro: - Amo tudo que é natal. Lembra ela. Ursinha: - Ela nasceu no natal. Adorava a festa e tudo que nela tinha. Pois vamos fazer biscoitos de natal…Pegue em cima do armário as forminhas que vou preparar agora mesmo a massa. Serena: - Posso te ajudar? Ursinha: - Sempre. - ela começa a pegar os ingredientes, pois sabia a receita de cabeça. Quantas vezes fez aqueles biscoitos com sua melhor amiga...era um biscoito de melado coberto com açúcar e calda de limão..perfeitos..A massa tinha que abrir com o rolo de macarrão...mas tudo era feito em conjunto. Quando vivia, colocava todos os seus filhos para ajudar. Era como um ritual em família. Abriam a massa, cortava os biscoitos, assavam e enfeitavam. Pedro ao ver a latinha onde ficavam as forminhas, lembra-se de sua mãe. Sentia falta de tudo nela...era como se sentisse o perfume dela em tudo. Ela foi cedo embora...seu coração sempre evitava pensar...era como se quisesse fugir da tristeza antes que ela o alcançasse. Descendo da cadeira, ele coloca a mesa e começa a limpar com um pano e álcool, afinal já tinha sido guardado limpos...era mesmo só para tirar o pó. Depois passa o pano na mesa e deixa pronta para abrir a massa Parecia sentir Isadora junto e ela estava mesmo. Ursinha a via, mas não podia dizer aos dois. Queria muito que enxergassem o quanto ela estava feliz e junto. Pedro diz: - Nossa, tem momento que consigo sentir a presença da mamãe e até o perfume. Serena comenta - Eu queria poder sentir também, mas não consigo. De fato, a mediunidade de Pedro era mais aflorada que a de Serena, ambos não se lembravam, mas participavam das reuniões espíritas e do Evangelho segundo espiritismo. Serena praticamente dormia, mas Pedro prestava a atenção em tudo com seus olhinhos azuis. Parecia um anjinho entendendo os ensinamentos de Deus. Isadora e Úrsula, estudava em sigilo, nem Miguel sabia. Ele não entendia muito sobre vida após a morte. Só depois do seu desencarne que conseguiu perceber o quanto existiam mistérios a serem percebidos com os olhos da alma… Eles se divertiam fazendo os tais biscoitos. Isadora e Miguel ficaram olhando tudo, matando a saudade dos filhos. Como era bom poder estar em casa e com a família. Como já eram espíritos com um alto grau de evolução, tiveram logo a autorização para virem visitar sua família e ajudar seus filhos. Ali ficaram até terminarem. Tinha se passado o dia. A noitinha, depois da janta, terminaram de enfeitar os biscoitos. Então foram comer. A cada mordida, o gostinho do natal e a saudade de mãe. Isadora queria todos unidos no natal e desde o primeiro dia de dezembro fazia um ritual de preparo até o dia vinte e cinco onde todos participavam. Miguel não era muito de comemorar a data. Ele fazia aniversário na virada do ano. Ambos eram do signo de capricórnio e se davam muito bem. Miguel tinha tido uma infância mais difícil e não tinha uma presençã familiar tão doce e suave como a que Isadora teve. Ela já teve tudo que uma criança podia ter direito: pais, avós, tios, família grande e reunida. Seu irmão adorava também os ritos. Ao entrar na casa e sentir o cheiro dos biscoitos, vai correndo ajudar. Era algo instintivo e também uma memória afetiva, igual ao cheirinho de café ou de pão assando...tudo lembrava família reunida, risadas e acolhimento. Miguel já tinha se acostumado sozinho e não sentia falta do que nunca teve...mesmo por carência. Em seu íntimo, apenas a vontade de construir memórias ao lado de Isadora, depois que a conheceu. Ela era mais sábia e amorosa, ele mais duro e individualista. De certa forma se completavam...A energia de Miguel era a do fogo...precisava estar sempre em atividade e combustão...para continuar ardendo. Era impetuoso e rompia tudo à sua frente. Tinha momentos que agia muito sem pensar e impulsivamente, se colocando em apuros. Também não esperava muito ninguém, confiava em si e seguia sozinho. Era difícil dividir e delegar. Isadora já possuía energia da água. Podia ser calma e suave, mas quando preciso levava tudo o que estava a sua frente com fúria e destruição. Basicamente ia com calma para conseguir o que queria e cercava as pessoas com carinho e suavidade. Ao menos até ser provocada, o que levava muito tempo...depois era agitada e não media palavras...Sua capacidade de observação e cautela eram substituídas por total devastação. Não entrava em brigas, mas quando acontecia, por vezes perdia o foco e a medida de sua raiva. Miguel machucava mais ao contato com os outros, mas quando sentia dor, ou era machucado...era como se apagasse. Já Isadora, não machucava, acarinhava, mas quando machucada, destruía ou feria de maneira certeira. Podia acertar mil vezes, mas a que errava era muito intensa. Miguel já podia errar mais, de forma mais branda, mas seus acertos construíam e eram intensos e transformadores. Eram como opostos que se completavam. Ele tinha o dom de não importar o que fizesse, sempre construía, ela parecia sempre destruir no final das coisas. Ela era aparentemente mais amorosa, mas ainda não sabia amar, mesmo sentido o amor mais puro que pudesse por Miguel e seus filhos. Ele era mais duro, levando mais tempo para ser amoroso, mas sabia amar como ninguém e transbordava isso em seu olhar, gestos, ações e sorriso. Para o mundo ambos são necessários, para a evolução espiritual os dois aprendiam constantemente um com o outro, era como se o amor deles abrissem caminhos de luz e escuridão quando necessários...Fogo jamais apagava a água, ele a mantinha forte, mas dependendo do que Isadora errava, ela tinha o dom de apagar a chama dos olhos de Miguel.
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