Capítulo 10

1086 Palavras
Rafaela narrando Eu saí da mão do Thor praticamente arrancando o braço dele do meu. A cena que ele tinha feito no meio da praça tinha sido ridícula demais até para o nível de ciúme exagerado que ele sempre teve comigo. Todo mundo olhando, todo mundo comentando, e ele ali querendo me puxar como se eu tivesse dez anos de idade e tivesse feito alguma travessura no quintal de casa. Eu empurrei o peito dele com força suficiente para fazê-lo dar um passo para trás e levantei o queixo, deixando bem claro que ele não ia conseguir me arrastar dali daquele jeito. — tu perdeu a noção, Thor? — eu falei com a voz baixa, mas carregada de irritação. — tu tá fazendo cena no meio da praça inteira por causa de roupa? Ele abriu a boca para responder, mas eu nem dei espaço. Virei as costas para ele com o copo ainda na mão e caminhei de volta para a roda de pagode, sentindo todos os olhos ainda em cima de mim. No fundo, aquilo era exatamente o que eu queria. Se ele tinha tentado me constranger, tinha conseguido o efeito completamente contrário. A sensação de estar sendo observada, comentada, desejada, me dava uma energia absurda correndo pelo corpo. Eu sentia a música vibrar no chão através do salto alto, sentia o calor da multidão em volta, o cheiro de cerveja, de perfume barato, de fumaça, e tudo aquilo parecia alimentar ainda mais a revolta que estava crescendo dentro de mim. E a cada segundo que eu dançava, a imagem daquele homem sentado na mesa com aquela loira agarrada nele voltava para minha cabeça como um tapa na cara. Eu tinha visto. Eu tinha visto exatamente como ela estava sentada no colo dele, rebolando, passando a mão na nuca dele, grudada nele como se tivesse algum direito ali. E o pior de tudo era que ele tinha deixado. Ele tinha deixado aquela mulher encostar nele daquele jeito como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. A lembrança daquela cena fazia meu sangue ferver de um jeito que eu não conseguia explicar nem para mim mesma. Uma parte de mim queria voltar naquela mesa e virar a garrafa de whisky na cabeça dele e depois quebrar na cabeça dele pra ver se volta a funcionar. A outra parte queria arrastar aquela loira pelos cabelos até fora da praça e encher ela de tiro mas antes deixar ela sem um fio de cabelo. Mas eu não fiz nenhuma das duas coisas. Eu dancei. Dancei com toda a raiva que estava presa dentro de mim, deixando o corpo acompanhar o ritmo do pagode como se cada movimento fosse uma forma de descarregar tudo aquilo que eu estava sentindo. Eu sempre gostei de sambar, sempre gostei de dançar, e naquele momento parecia que cada músculo do meu corpo estava trabalhando para jogar para fora a revolta que estava me consumindo. Meu quadril acompanhava o ritmo da música, minhas pernas marcavam o compasso no chão, e eu sentia os olhos dos pagodeiros em cima de mim enquanto eu me movimentava no meio da roda. Alguns deles começaram a incentivar, batendo palma, sorrindo, entrando no clima da dança. — aí sim, princesa! — um deles gritou rindo. Eu levantei o copo, tomando mais um gole da mistura de whisky com energético, e continuei dançando como se o mundo inteiro tivesse desaparecido ao redor. O barulho do pandeiro parecia vibrar dentro do meu peito, e eu sentia a energia da roda aumentando cada vez mais. Eu girava, requebrava, acompanhava o ritmo com uma naturalidade que vinha de anos ouvindo aquele tipo de música. E no fundo de tudo aquilo havia uma única motivação: mostrar para ele que eu não estava nem aí. Mostrar para ele que aquela loira ridícula não significava absolutamente nada para mim. Mostrar para ele que, se ele queria me provocar, eu sabia provocar muito melhor. Mas a verdade é que eu estava consumida por dentro. Cada vez que eu lembrava da mão dele segurando a cintura daquela mulher, algo dentro de mim parecia querer explodir. Meu peito subia e descia rápido, e eu sabia que se alguém falasse o nome dele naquele momento eu provavelmente perderia completamente o controle. Foi exatamente nesse momento que eu senti meu braço sendo agarrado com força. O movimento foi tão rápido que eu m*l tive tempo de reagir antes de perceber que alguém estava me puxando para fora da roda de pagode. Meu corpo foi arrastado para trás, longe da música, longe da multidão, e quando eu virei o rosto para entender o que estava acontecendo, eu vi exatamente quem estava me puxando daquele jeito. Fantasma. A raiva que já estava dentro de mim explodiu de uma vez. — tu ficou maluco? — eu gritei tentando soltar o braço dele enquanto ele me puxava em direção à saída da praça. — me solta, p***a! Eu comecei a bater nele com a mão livre, socando o braço dele, tentando me desvencilhar enquanto ele continuava andando como se não estivesse sentindo absolutamente nada. — tu é louco? — eu gritei de novo, dando um tapa no ombro dele. — psicopata do c*****o, me solta! Ele não respondeu. Nem diminuiu o passo. A única coisa que ele fez foi apertar ainda mais o meu braço enquanto me arrastava pela lateral da praça, passando por trás das mesas, ignorando completamente os olhares curiosos de quem percebia a cena. Eu tentei puxar o braço para trás, tentei parar o movimento, mas ele simplesmente continuou andando até chegar onde meu carro estava estacionado. Antes que eu conseguisse entender o que ele estava fazendo, ele abriu a porta do carona e praticamente me empurrou para dentro do carro. — tu perdeu completamente a cabeça! — eu gritei tentando sair de novo enquanto ele fechava a porta com força. A próxima coisa que eu ouvi foi o barulho da porta do lado do motorista sendo aberta e depois batendo com violência. O impacto foi tão forte que o carro inteiro tremeu por dentro. Eu virei o rosto imediatamente para ele, ainda ofegante, o coração disparado no peito. — de onde tu tirou a chave do meu carro? — eu falei completamente indignada. Porque até aquele momento eu nem tinha percebido quando ele tinha pegado aquilo. Fantasma estava sentado no banco do motorista, respirando pesado, os olhos escuros fixos em mim com uma intensidade que fazia o ar dentro daquele carro parecer muito mais quente do que realmente era.
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