Capítulo 08

1581 Palavras
Fantasma narrando Eu precisava sair daquela casa antes que alguém percebesse a merda que estava acontecendo dentro da minha cabeça. Thor terminou o café dele rápido, reclamando da Rafaela ter saído daquele jeito, e eu aproveitei o embalo para levantar junto com ele. Pegamos as motos na garagem e descemos o morro em direção à praça, onde já dava para ouvir de longe o paredão estourando no grave, aquele batidão pesado que fazia o chão vibrar antes mesmo da gente chegar perto. A favela já estava acordada de verdade, gente subindo e descendo as vielas, vapores trabalhando, moto passando toda hora, e o cheiro de churrasco já começando a tomar conta do ar. Eu acelerei a moto ao lado da dele enquanto a gente fazia o giro pela área, aquele tipo de volta que a gente sempre dava antes de qualquer festa grande no morro para sentir o clima da rua. Thor estava falando comigo sobre as cargas que iam chegar naquela semana, droga nova que estava vindo para reabastecer o ponto dele, transporte que precisava ser ajustado porque tinha caminhão que estava demorando demais para cruzar a pista. Eu escutava e respondia automaticamente, porque aquilo era rotina para mim, fazia parte do meu dia a dia há mais de vinte anos, mas ao mesmo tempo minha cabeça continuava voltando para o mesmo lugar, para o mesmo quarto, para o mesmo par de olhos me encarando como se tivesse arrancado alguma coisa de dentro de mim. A gente parou na praça onde o pagode ia acontecer. O paredão já estava montado, caixas empilhadas uma em cima da outra, e uma multidão começando a se formar ali em volta. Um monte de p*****a já estava espalhada pela área, aquelas que sempre aparecem primeiro em qualquer festa esperando a música começar para se pendurar em qualquer homem que tenha dinheiro ou poder. Alguns aliados nossos já estavam ali também, bebendo cerveja, conversando, dando risada. Thor desligou a moto e encostou do meu lado. — e aquela parada que tu falou ontem? — ele perguntou tirando o capacete e passando a mão no cabelo. — do X9 lá da polícia? Eu soltei o ar devagar enquanto encostava a moto perto do meio-fio e olhava em volta da praça. — é sério — respondi baixo. — o informante falou que estão estudando essa área aqui. Estão querendo pacificar teu morro. Thor fez uma careta, cuspindo para o lado. — esses filhos da p**a nunca cansam, né? — por isso que eu tô te falando pra tu pegar visão — respondi olhando direto para ele. — cerca melhor essa favela, aumenta a segurança nas entradas, não dá mole na pista de jeito nenhum. Os caras estão de olho em tu, parceiro, e tu sabe muito bem que se eles te pegam… Eu deixei a frase morrer no ar porque ele já sabia o resto. Thor era filho de quem era. Se a polícia conseguisse pegar ele ia virar uma guerra gigantesca. — relaxa — ele respondeu depois de alguns segundos. — ninguém entra aqui e se tentar nos bota pra voltar de ré — ele fala batendo no fuzil Enquanto a gente conversava, mais gente foi chegando na praça. Aliados nossos, vapores, moradores, curiosos, e claro… as putas. Elas apareciam como formiga em volta de açúcar quando sabiam que tinha festa e dinheiro circulando. Eu estava com uma garrafa de cerveja na mão quando senti alguém se aproximando por trás. Um perfume doce demais invadiu meu nariz e antes que eu pudesse reagir senti uma boca encostando no meu cangote. — saudade de mim, Fantasma? — a voz da loira saiu baixa no meu ouvido enquanto a mão dela deslizava pela minha nuca. Eu já sabia quem era antes mesmo de virar a cabeça. A loira que eu tinha comido algumas vezes nos últimos meses. Nada demais, só mais uma entre muitas. Ela passou a perna por cima da minha e sentou direto no meu colo como se aquilo fosse o lugar mais natural do mundo. — sumido… — murmurou sorrindo enquanto passava a mão pelo meu peito. Eu fiquei parado por um segundo. Uma parte de mim queria tirar ela dali imediatamente. Empurrar aquela mulher para longe e mandar ela procurar outro o****o para se pendurar. Mas a outra parte… A outra parte sabia exatamente por que aquilo podia ser útil naquele momento. Porque se eu continuasse sozinho ali, com a cabeça livre demais, eu ia acabar pensando em Rafaela de novo. E eu já estava pensando nela de qualquer forma. Eu deixei a loira sentar no meu colo. Passei a mão na garrafa de cerveja tentando manter o semblante neutro enquanto o pagode ao vivo começava a tocar no palco improvisado da praça. O cavaquinho puxou os primeiros acordes e a galera começou a gritar animada, formando roda em frente aos músicos. A loira se mexeu no meu colo, aproximando a boca do meu ouvido. — tu tá muito sério hoje… — ela murmurou. — saudade de mim não? Eu olhei para frente, para a praça enchendo cada vez mais, tentando ignorar o calor do corpo dela encostado no meu. A verdade era que eu não queria ela ali. Mas ao mesmo tempo eu queria. Porque eu sabia que Rafaela ia aparecer naquele pagode. Eu conhecia aquela menina bem demais para saber que ela não ia perder a oportunidade de provocar depois da forma como a gente se separou dentro daquele quarto. Ela ia vir para afrontar. Ia vir para jogar na minha cara tudo que ela pudesse. E eu não tinha certeza se conseguiria manter o controle. A loira passou a mão pela minha nuca de novo, tentando chamar minha atenção. — tá pensando em quê? Eu não respondi. Porque naquele momento a única coisa que passava pela minha cabeça era a imagem de Rafaela entrando naquela praça com aquele corpo que parecia feito para testar todos os limites que eu tentei impor a mim mesmo nos últimos três anos. E eu sabia que, quando ela chegasse… Aquilo ali ia virar um inferno. A mesa onde Thor e eu estávamos parecia mais um ponto de reunião do que qualquer outra coisa. Garrafas de cerveja abertas, whisky passando de mão em mão, algumas pistolas largadas ali em cima da mesa como se fossem apenas mais um objeto comum no meio da bagunça, enquanto os caras falavam de carga, de transporte, de mercadoria que ia chegar durante a madrugada e da droga que precisava ser reabastecida nos pontos antes que acabasse no final de semana. Thor estava completamente à vontade na cadeira grande que tinham arrumado para ele, duas mulheres rebolando praticamente no colo dele enquanto ele ria alto de alguma história que um dos aliados contava. O braço dele envolvia uma de cada lado com aquela naturalidade típica de quem cresceu no meio daquilo tudo e nunca precisou se preocupar em parecer discreto. Entre uma gargalhada e outra ele ainda conseguia falar de negócio, comentar sobre a carga que estava para chegar e perguntar sobre um caminhão que tinha atrasado na pista. Aquela mistura de festa e comando era rotina para nós, algo que fazia parte da vida desde muito antes de Thor assumir a frente daquele morro. Eu estava sentado um pouco mais ao lado, com a loira no meu colo, enquanto segurava uma garrafa de cerveja e fingia prestar atenção na conversa. Ela se mexia devagar no ritmo do pagode, passando a mão pela minha nuca e pelo meu peito como se já tivesse certeza de que aquela noite terminaria do jeito que ela queria. O perfume doce dela misturava com o cheiro da bebida e da fumaça no ar, e de vez em quando ela encostava a boca no meu ouvido para falar alguma coisa provocativa. Eu deixava ela ali, não porque estivesse realmente interessado naquele jogo, mas porque naquele momento qualquer distração servia para tentar afastar da minha cabeça uma única imagem que insistia em voltar desde que eu tinha saído do quarto da Rafaela naquela manhã. A conversa na mesa continuava, um dos aliados falando sobre a rota de uma carga que precisava cruzar a pista sem chamar atenção da polícia. Thor respondia com aquela segurança de sempre, discutindo detalhe por detalhe do transporte enquanto as duas mulheres continuavam se esfregando nele como se aquilo fosse parte da música. No meio daquela bagunça organizada, um dos caras que estava mais na ponta da mesa virou o rosto em direção à entrada da praça e estreitou os olhos como se estivesse tentando reconhecer alguém à distância. — c*****o… — ele comentou alto o suficiente para alguns de nós olharmos na mesma direção. — Thor, é a tua irmã chegando ali naquele carro? Eu virei a cabeça quase no mesmo instante, sem nem perceber o impulso que tinha me feito reagir tão rápido. O carro dela tinha acabado de parar na entrada da praça, iluminado pela luz dos postes e pelas lâmpadas improvisadas da festa. A porta abriu e Rafaela desceu do carro como se estivesse entrando em um palco. No momento em que meus olhos bateram nela, alguma coisa dentro de mim queimou de um jeito difícil de explicar. Minha mão apertou automaticamente a cintura da loira que estava no meu colo, puxando ela contra mim com força suficiente para fazer ela soltar um pequeno gemido surpreso, mas eu m*l registrei aquilo. Porque naquele momento minha atenção estava completamente presa na forma como Rafaela atravessava a praça na nossa direção.
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