Brenda
Londres – Inglaterra
Olho para o anel de brilhante em meu dedo ainda sem acreditar que estou realmente casada com o homem que mais odeio no mundo. Parece que acabo de decretar a minha sentença de morte. E pensar que foi o meu próprio pai quem me causou tamanho sofrimento.
_ Sorria, docinho. – Thomás pede em seu sorriso nojento que me embrulha o estômago. – É a festa para nos apresentar a sociedade londrina como um casal e não um funeral.
_ Para mim dá na mesma. Não vejo diferença entre as duas. – Rebato com o queixo erguido em desafio.
Vejo a raiva se acender em seus olhos e o assisto buscar algum controle para não explodir diante dos seus convidados. Não estar em seus planos mostrar quem é o verdadeiro Thomás.
_ Vamos circular. – Diz entredentes.
Atravessamos o pequeno salão e nos juntamos a um grupo de acionistas da empresa de Thomás. Fico em silêncio a maior parte do tempo falando apenas quando sou mencionada. León e Thomás ficam me cercando como dois cães de guarda a me sufocar.
O lugar vai ficando vazio conforme os convidados vão se retirando até que restamos apenas Thomás, León e eu no salão íntimo da imensa mansão que agora se converte em minha mais nova jaula de ouro.
_ Vou me recolher e deixar o casal em paz. – León fala antes de sair.
_ Enfim sós. – Thomás diz ao meu ouvido.
Seus braços me envolvem por trás e beija o meu pescoço. Tento me afastar dele, mas ele cola ainda mais o seu corpo no meu.
_ Não sabe o quanto esperei por esse momento. – Morde a minha orelha enquanto me mantenho congelada. – Em te fazer minha mulher.
_ Me solta. – Me debato tentando me soltar.
_ Não tente resistir, docinho. – Me joga no chão e então sobe em cima de mim limitando meus movimentos. – Sei que você quer isso tanto quanto eu.
Seus lábios sujos cobrem os meus num beijo que não correspondo. Sinto suas mãos percorrendo cada centímetro do meu corpo.
Fecho os olhos com força pedindo aos céus que tudo acabe. São os dez minutos mais longos da minha vida.
Continuo no chão quando ele finalmente se afasta e deixa o salão a passos trôpegos. Me sinto a mais suja das mulheres. Os dez minutos se repetem em minha mente num looping infinito.
Me encolho abraçada ao meu próprio corpo perdida em minha dor. Não vejo o tempo passar. Não sinto frio, fome ou cede. Tudo o que sinto é uma dor que parece ter a força de me partir ao meio.
Quando o sol da manhã invade o ambiente me obrigo a levantar do chão perfeitamente polido. Com passos arrastados subo para o meu quarto. Em meio a uma nova crise de choro arranco o vestido e me enfio no banho esfregando o meu corpo com tanto vigor que meus braços e pernas ficam vermelhos. Mesmo assim ainda me sinto suja.
Antes de me encolher em minha cama verifico novamente a fechadura do quarto para ter certeza de que está devidamente trancada. As lágrimas voltam a me dominar e choro até adormecer.
Já é noite quando torno a abrir os olhos. Sinto a cabeça um tanto pesada pela forte crise de choro. Sem forças para nada além de ficar na cama revivo aqueles dez minutos tenebrosos que parecem me puxar para a escuridão. Tudo o que desejava era morrer.
_ Senhora. – Uma voz suave do outro lado da porta me chama trazendo-me de volta a realidade. – O senhor Lancaster a está chamando para o jantar.
_ Diga que estou sem fome.
_ Como quiser, senhora. – A ouço dizer antes de se afastar.
A minha ausência durante as refeições é algo comum. Os funcionários já estão habituados a isso já que sempre fiz de tudo para evitar estar no mesmo ambiente que aqueles dois monstros.
_ Brenda. – Thomás chama ao mesmo tempo que força a fechadura tentando entrar. – Estamos todos te esperando para jantar. – Bate na porta e me sento assustada.
_ Já disse que estou sem fome. – Digo quase num fio de voz.
_ Pare com essa atitude de menina mimada, docinho. – Cada vez que ele repete esse apelido sinto um leve revirar em meu estômago. – Vim busca-la para comer conosco.
_ Não quero! – Me encolho abraçando os joelhos. – Vai embora!
_ Abra logo essa porta antes que a derrube. – Ameaça batendo mais forte.
Sinto todo o meu corpo congelar à medida que o barulho do punho dele contra a madeira maciça se torna mais alto até que a porta abre com tudo revelando um Thomás completamente transtornado.
Minhas mãos descem até os lençóis e os aperto com força quando ele invade o quarto. Assisto atravessar o cômodo com passos largos. O olhar sombrio parece penetrar minha alma me causando calafrios. Antes que pudesse reagir sua mão me acertou um t**a do lado esquerdo do rosto.
_ Primeira lição que deve aprender. – Aperta meu braço e um gemido de dor escapa por meus lábios. – Sempre atenda quando eu chamar. – Inclina levemente a cabeça para o lado. – Segunda lição. – Me puxa para fora da cama. – Sempre faremos as nossas refeições em conjunto. – Cola o seu corpo contra o meu. – Terceira lição. Nunca deixe a porta fechada para mim. – Diz em meu ouvido. – Agora vamos descer que o jantar já foi servido.
Me arrasta pelo corredor e escada até a sala de jantar onde o meu pai saboreia o seu salmão grelhado alheio a forma bruta como sou atirada na cadeira em frente a sua. Os empregados também mantém a sua postura. Creio que com receio de perder o emprego.
Remexo a comida no prato a jogando de um lado para o outro sem erguer os olhos em momento algum. Quando o jantar termina tento deixar a mesa e correr de volta para a p******o do meu quarto, mas Thomás me impede.
_ Onde pensa que vai, docinho? – Tenta tocar meu rosto, mas me esquivo.
_ Voltar para o meu quarto. – Minha voz sai tão baixa que chego a questionar se disse mesmo algo.
_ Seu quarto? – Questiona com ar de riso. – Não existe mais o seu quarto. Nós somos oficialmente casados e não dormimos mais separados. – Toca meu rosto no lugar onde machucou mais cedo.
_ Thomás tem total razão, Brenda. – León concorda deixando claro de que lado está nisso tudo.
_ Eu sempre tenho razão, sogro. – Sorri de modo doentio me causando calafrios. – Nós já vamos nos recolher. – Acena para León antes de me conduzir até a escada.
Seu toque começa a ficar mais invasivo ainda no corredor. Tento me esquivar, mas é inútil. Quando chegamos ao seu quarto minhas roupas são arrancadas bruscamente. Paro de lutar no momento em que o seu corpo cobre o meu e procuro me concentrar em outra coisa.
Os dias seguintes são ainda piores. Tenho manchas roxas espalhadas por meu rosto, braços e abdômen que ganhei quando aproveitei o descuido dos seguranças e tentei fugir. Thomás me obrigou a usar camisas de mangas cumpridas e maquiagem para cobri-las quando recebemos a visita da família de seu sócio temendo que descobrissem o lixo de ser humano que ele é.
Meu pai não diz nada ou tenta me defender. É sempre indiferente. Em momentos chego a duvidar se ele é realmente meu pai.
Várias vezes ao dia me pego imaginando como seria a minha vida se o meu pai tivesse morrido naquela viagem e não a minha mãe. Tenho certeza de que tudo seria diferente agora. Seria muito melhor. Tenho certeza de que eu seria bastante feliz.
Nessa outra realidade estaria com o Nando na nossa praia admirando o pôr do sol e fazendo planos de morar em uma casa com uma grande varanda com vista para o mar onde tomaríamos o nosso café da manhã durante o verão.
Quase consigo sorrir ao pensar nisso. Mas então o perfume de Thomás inunda o ambiente em que estou me trazendo de volta para a realidade.
_ Senti saudades, docinho. – Beija meu rosto antes de sentar ao meu lado no sofá. – Aonde vai? – Questiona quando faço menção de levantar.
_ Vou me preparar para o jantar. – Respondo de modo automático.
_ Vista mangas cumpridas e tampe esse hematoma em seu olho com maquiagem. – Diz de modo relaxado. – Os Baker vem jantar conosco outra vez. Tenho assuntos a tratar com Philip e Susan ficou tão encantada com você que quis vir junto.
_ Até quando acha que vai conseguir enganá-los? – O enfrento em um rompante de coragem.
_ Não me torre a paciência, Brenda. – Diz entre dentes. – Você sabe muito bem quais são as consequências para isso. – Me retraio em meu lugar o fazendo sorrir feliz. – Boa menina. – Suspira se erguendo. – Vá se trocar e não demore. – Diz antes de seguir para o escritório.
Sem nenhum resquício de coragem para desobedece-lo apenas faço o que me mandou.