Brenda
Observo o meu reflexo no espelho depois de esconder as olheiras e os hematomas do recente acesso de raiva com corretivo. Aplico um pouco mais de blush para trazer um ar saudável ao meu rosto. Tudo isso para esconder das pessoas que nos rodeiam o que vivo nessa jaula que tem a aparência de uma casa.
Devolvo o pincel a bancada e analiso o resultado. Antes de deixar o banheiro tomo o cuidado de ajustar bem a camisa para cobrir a cicatriz que tanto odeiam. Mesmo que a razão para tê-la tenha me devolvido à vida.
Solto um suspiro cansado enquanto retorno para o quarto ao mesmo tempo em que um pequeno tornado de cabelos dourados e vestindo um pijama azul com estampa de nuvens invade o quarto.
_ Bom dia, mamãe. – Diz me envolvendo as pernas e me abaixo para ficarmos da mesma altura.
_ Bom dia, amorzinho. – Beijo suas bochechas coradas. – Dormiu bem?
_ Sim. – Toca o meu rosto carinhosa como sempre. – Sonhei com a gente brincando de pegar conchinhas na praia.
Queria prometer a ela que um dia iremos realizar esse sonho, mas não posso. Não quero enganá-la. As chances de um dia deixarmos esse maldito lugar são quase inexistentes.
_ Que lindo. – Beijo novamente seu rostinho. – Vamos tomar um banho e mudar essa roupa. – Me ergo a trazendo junto em meu colo e então seguimos para o seu quarto.
Dar banho em Olívia é sempre uma pequena festa. Ela adora água desde que era um bebê. Tirá-la da banheira é a parte mais complicada. Ela sempre quer ficar mais um pouco e preciso ser ágil. Antes que se dê conta a retiro da banheira, enrolo na toalha e a levo para se trocar em seu quarto.
A deixo sentada em sua cama enquanto vou separo sua roupa. Opto por uma calça jeans, uma camiseta branca com algumas flores amarelas estampadas na parte da frente e pego um tênis para que fique confortável.
Depois de vesti-la e de penteá-la descemos para o café da manhã. Como imaginei somos as últimas a chegar.
_ Por que tanta demora? – Thomás dispara em tom ríspido assustando Olívia que se encolhe atrás de mim.
_ Estava cuidando da Olívia. – A voz saí um tanto falha.
_ Já disse que deveria contratar uma babá para cuidar dessa criança. – Meu pai diz antes de dar uma nova mordida em sua torrada.
_ Não preciso de babás para cuidar da minha filha. – Rebato antes de acomodar Olívia na cadeira ao meu lado.
_ Então seja mais rápida. – Thomás diz batendo com a palma da mão na mesa e me encolho assustada. – Você sabe que detesto atrasos à mesa. – Praticamente rosna. – Eu deveria deixar você sem comer para aprender a obedecer às regras da casa. – Ameaça apertando o meu braço com força. – Mas estou de bom-humor e vou relevar esse deslise de hoje. – Me solta e refreio a vontade de tocar no lugar onde ele apertava a pouco. – Vamos apenas tomar o nosso café da manhã em paz.
Com o canto dos olhos percebo que Olívia chora sem fazer o menor ruído. Algo incomum para uma criança de cinco anos e isso me dói. Comemos em silêncio enquanto Thomás e León discutem sobre trabalho. Os dois se retiram assim que terminam de comer e sinto Olívia relaxar.
_ Podemos brincar no jardim, mamãe? – Pergunta quando terminamos.
_ Está frio. – Afago o seu rostinho ainda marcado pelas lágrimas. – Mas podemos brincar na sala de estar.
_ Pode ser. – Ergue levemente os ombros.
_ Vamos pegar alguns brinquedos no seu quarto. – A convido já deixando o meu lugar à mesa.
Ela sobe ao meu lado com uma mão segurando o corrimão e a outra presa a minha. Quando chegamos ao quarto a ajudo a pegar as duas bonecas que ela mais gosta e voltamos para o andar de baixo.
_ Vamos brincar de médico, mamãe. – Determina acomodando as duas bonecas lado a lado no sofá.
_ Tudo bem, doutora. – Brinco a fazendo sorrir.
Passamos as próximas duas horas verificando a temperatura e dando injeções nas bonecas. Aproveito o tempo para praticarmos um pouco da minha língua materna. Mesmo tendo apenas cinco anos Olívia já domina o espanhol.
Quando se cansa recolhemos a bagunça que fizemos e vamos assistir um pouco de desenho. O almoço é tranquilo sem a presença daqueles dois projetos m*l sucedidos de seres humanos.
Durante a tarde desenhamos, brincamos e assistimos um pouco mais de desenhos antes de subir para nos prepararmos para o jantar. Que é servido pontualmente quando Thomás e León chegam às oito. Depois do jantar coloco Olívia na cama e só deixo o seu quarto quando a vejo ressonar tranquila.
Quando chego ao meu quarto encontro Thomás dormindo esparramado na cama. Com cuidado para não acordá-lo me encolho na ponta da cama distante o suficiente dele e, com muito custo, adormeço.
_ Mas que d***a é essa! – O grito de Thomás me desperta num sobressalto. – Malditos abutres! – Esbraveja atirando a jarra de água contra a parede.
_ O que aconteceu? – Pergunto encolhida contra a cabeceira da cama.
_ Isso aconteceu! – Joga o celular na minha frente onde uma foto nossa aparece em um site de fofoca com a seguinte legenda Grande empresário Thomás Lancaster tem postura abusiva com esposa e filha. – Essa m***a está em toda a mídia. – Anda de um lado para o outro como uma fera enjaulada pronta para atacar a qualquer momento e obvio que a vítima sou eu. – Isso é tudo culpa sua. – Rosna me apertando os braços.
_ Não fiz nada. – n**o com a voz embargada pelo nó que se forma em minha garganta.
_ Você falou alguma m***a para alguém. – Me empurra com força contra a cabeceira me deixando sem ar.
_ Não falei nada para ninguém. Eu juro que não falei.
_ Pare de mentir. – Grita me jogando no chão. – Você é uma ingrata. – Chuta minha perna com força e grito de dor. – Eu te salvei e é assim que me agradece. – Recebo um novo golpe agora na altura da barriga que me deixa tonta.
_ Juro que não disse nada. – Reafirmo com um fio de voz. – Com quem vou falar se estou sempre presa aqui?
_ Espero que esteja me falando a verdade. – Diz me apertando o rosto com força. – Porque se você estiver mentindo vou fazer com que se arrependa. – Me solta de modo bruto e acabo batendo com a cabeça no móvel ao lado da cama.
Um zumbido incomodo começa a soar em meu ouvido, a visão fica turva por um tempo e sinto um líquido viscoso escorrer em meu pescoço. Respiro fundo lutando contra a terrível sensação de desmaio. Me mantenho encolhida no chão até que o vejo deixar o quarto batendo a porta.
Me ergo usando a cama de apoio. Uma nova tontura me atinge e preciso segurar a cabeceira da cama com mais força para não voltar a cair. Com passos lentos caminho até o banheiro e trato de limpar o machucado em minha cabeça. Por sorte está apenas um pouco acima da nuca e consigo cuidar dele.
Depois de um rápido banho vou até o quarto de Olívia e agradeço mentalmente que o cômodo seja no final do imenso corredor. Isso impede que ela ouça grande parte dos ataques de fúria de Thomás. A prova disso é que a encontro dormindo serenamente alheia ao que acaba de acontecer.
_ Bom dia, mamãe. – Murmura ainda com os olhinhos fechas enquanto lhe faço cafuné.
_ Bom dia, amorzinho. – Sussurro beijando a ponta do seu nariz a fazendo abrir os olhos, azuis como os meus, e sorrir, mas o sorriso logo se desfaz.
_ Já tem que levantar e ir lá embaixo tomar café com o vovô e o papai?
_ Hoje não. – Conto me acomodando ao seu lado na cama. – Podemos pedir para trazerem o nosso café da manhã no quarto e comer enquanto assistimos desenhos. Gosta da ideia?
_ Muito. – Diz me envolvendo o pescoço num abraço aperta e preciso apertar os lábios para impedir que um gemido de dor escape.
Antes de pedir o café da manhã a ajudo a tomar banho e trocar de roupa. A manhã passa com as horas ainda mais arrastadas que o comum. A casa está fervilhando. Os funcionários estão agitados com a possibilidade de uma demissão em massa depois daquela nota.
Queria ter esperança de que finalmente Olívia e eu conseguiremos nos livrar desse dois monstros, mas não consigo. Não consigo porque sei que aqueles dois darão um jeito de sair por cima sem pagar pelo que nos fazem.
Comprovo minha teorias no horário do almoço quando Thomás e León retornam calmos e sorridentes. Ao que parece a sua equipe de relações públicas conseguiu contornar a situação o pintando novamente como bom moço. E tudo o que precisamos fazer para reafirmar esse ponto de vista é aparecer em lindas fotos em nossa viagem de férias em família para visitar a minha terra natal.