Nando
Sempre soube que León não era um bom pai, mas nunca imaginei que entregaria a filha para aquele desgraçado apenas para manter as aparências. Nem mesmo o estado delicado de saúde dela deteve a sua ganancia. As lágrimas que correm descontroladas manchando seu rosto me aperta o coração.
Meu sangue ferve a cada palavra dita e as imagens que minha mente cria com aquilo que não foi dito. Um calafrio me percorre a espinha quando a ouço dizer que o sofrimento era tanto que cogitou acabar com a própria vida. Só então tenho dimensão do quanto ela está quebrada e que a única coisa que a mantém firme é Olívia. O que torna a garotinha ainda mais especial.
_ Desculpa. – Peço atraindo a sua atenção.
_ Por que está se desculpando? – Pergunta com a voz ainda estrangulada pelo choro.
_ Por não ter impedido que isso acontecesse com você. – Me ajoelho diante dela e tomo as suas mãos entre as minhas. – Com vocês. – Meus olhos recaem sobre Olívia que dorme alheia a tudo o que está acontecendo.
_ Não foi culpa sua, Nando. – Me volto para ela fazendo nossos olhares se encontrarem. Perdida entre as lágrimas vejo a velha Brenda lutando para se manter viva. – Não foi culpa sua ou minha. – Engole em seco tentando conter o choro. – Os únicos culpados foram aqueles dois.
_ Eu tenho culpa nessa história sim. Porque eu tive a oportunidade de te tirar daquela casa e não fiz.
_ Como assim? Do que você está falando?
_ Fui atrás de você em Madrid assim que soube que seu pai a tinha levado para lá. – Conto sem tirar os meus olhos dos dela. – Não acreditei em nada que aquele desgraçado me contou quando foi me ver na cadeia. Queria ouvir a verdade da sua boca. Mas não pude. Seu pai não me deixaram sequer passar do jardim. Ele me mostrou a sua certidão de casamento e disse que você estava vivendo feliz com o seu marido em Londres.
_ Nunca seria feliz com aquele homem. – Diz afastando as mãos das minhas um tanto magoada com minhas palavras.
_ Hoje eu consigo compreender isso. – Sento ao seu lado diminuindo ainda mais a distância entre nós. – Só que o Nando de seis anos atrás apenas aceitou aquilo e foi embora magoado com você. Mas hoje tenho a chance de reparar um pouco este erro e não vou perde-la.
Vejo que não acredita no que digo, mas vou fazer com que isso mude.
Juro a mim mesmo que não irei descansar enquanto não a fizer feliz novamente. E no meio do caminho faço feliz também a essa pequena que já me roubou o coração. Coração esse que antes batia cheio de rancor, mas hoje começa a bater de uma forma diferente. Ainda tenho dúvidas e existem coisas que não fazem o menor sentido em minha cabeça. Mas não quero pensar nisso agora.
Aos poucos a assisto controlar as lágrimas e se recompor. Fica evidente o quanto essa conversa a afetou a deixando ainda mais frágil. A palidez está ainda mais acentuada e seus olhos fogem dos meus sempre que tento estabelecer algum contato. Não sei se por raiva, medo ou vergonha.
_ Vamos assistir um filme? – Sugiro recebendo um olhar lindo olhar confuso que me faz querer abraçá-la. – Uma animação para espantar a tristeza. – Digo me acomodando melhor no sofá ligando a televisão. – O que acha de assistir Cinderela? Ainda é o seu filme preferido, não é?
Sinto os seus olhos sobre mim, mas me mantenho concentrado na televisão. Percebo o seu corpo relaxar após os primeiros minutos de filme. Espero por seu riso quando os ratinhos aparecem trazendo o alívio cômico no drama da pobre Cinderela. Mas o riso não vem. Olívia desperta no momento em que a Fada Madrinha aparece para ajudar Cinderela e aplaude cada encanto feito pela doce velhinha. E torce pela moça quando a madrasta tenta impedir que prove o sapatinho de cristal no final.
Peço comida para nós em um restaurante que fica aqui perto. Olívia não para de falar durante todo o almoço deixando o clima um pouco mais leve.
_ Vou precisar sair um pouco. – Aviso descansando os talheres sobre o prato. – Tudo bem vocês ficarem sozinhas?
_ Claro. – Brenda responde ainda jogando a comida de um lado para o outro. Percebi que ela não costuma comer muito.
_ Onde você vai, Nando? – Olívia pergunta atenta a nossa conversa.
_ Vou até o meu trabalho. Tenho alguns assuntos para resolver.
_ Eu também vou? A gente já vai andar de barco? É hoje? – Dispara um tanto eufórica.
_ Não, amorzinho. – Brenda diz tocando o braço da filha com carinho. – Você não pode ir. O Nando vai trabalhar. – Os ombros da pequena se encolhem e ela faz uma carinha que me parte o coração.
_ Tudo bem. – Aceita sem reclamar. – Mas você volta para brincar comigo mais tarde, não é?
_ Volto. – Garanto me esticando para beijar o topo da sua cabeça e depois me volto para Brenda. – Vou deixar o meu número no móvel onde fica o telefone. Me liga se acontecer alguma coisa ou se precisarem de algo. – Peço a ela que apenas assente em resposta.
Me apresso em sair antes que desista e começo a contar os segundos para voltar para junto delas. As coisas estão uma pequena bagunça quando chego. Blanca fala ao telefone ao mesmo tempo em que resolve algo no computador.
_ Graças à Deus! – Exclama ao me notar. – Que bom que você chegou.
_ Algum problema? – Questiono preocupado.
_ Todos possíveis. – Diz tirando os óculos de leitura. – Um dos barcos se envolveu em um acidente e os tripulantes precisaram ser resgatados pela guarda costeira. A senhorita Mirabella apareceu está manhã e fez um grande escândalo quando o Santiago estava em reunião com possíveis novos associados. E agora um advogado representando a família dela entrou em contato para desfazer a parceria entre a Mar de Estrelas e o Hotel Villalobos.
_ Imaginei que algo assim aconteceria quando bloqueie as chamadas de Mirabella. Ela comentou algo parecido quando terminamos. Mas perder a parceria com os Villalobos não é algo tão grave quanto parece. Estamos bem firmes no mercado e isso não nos afetará tanto. O que me preocupa é o acidente. Houveram feridos?
_ Um turista cortou o supercilio no meio de toda a confusão, mas passa bem. Já nos encarregamos das despesas médicas. – Avisa retirando o telefone, que não para de tocar, do gancho. – Os jornais locais não param de ligar. Querem uma nota nossa a respeito do ocorrido.
_ Acabei de falar com o pessoal de relações públicas e eles vão resolver isso. – Santiago comenta ao se juntar a nós. – Oi, sumido. – Brinca em sua leveza de sempre. – Estava se escondendo da sua ex maluca? – Encosta na mesa com os braços cruzados completamente relaxado. – Ela deu o maior show quando chegou e não viu você aqui.
_ Eu soube. – Digo seguindo para a minha sala com ele em meu encalço.
_ Falando nisso. Onde esteve durante toda essa manhã, espertinho?
_ Você não vai acreditar se eu contar. – Me acomodo em minha cadeira e ele se joga na cadeira de frente para mim.
_ Tenta. – Diz erguendo levemente os ombros.
_ Reencontrei a Brenda ontem à noite quando fui embora da boate.
_ A sua Brenda? – Pergunta em choque e anuo a cabeça confirmando. – Como foi isso? Ela estava com o i*****l? Vocês conversaram?
_ Calma. – Peço ao meu amigo eufórico. – Vou explicar tudo. – Tomo fôlego apoiando os cotovelos sobre a mesa fazendo minhas mãos se unirem. – Vi uma confusão acontecendo perto de onde estava e decidi ir ajudar. Foi quando a vi ali. Com os olhos assustados tentando a todo custo proteger a filha.
_ Ela tem uma filha?
_ Sim. – Sorrio ao lembrar de Olívia abraçada a sua abelhinha de pelúcia. – É a menininha mais fofa e doce que já conheci. Se parece completamente com a mãe. Não herdou nada daquele i*****l.
_ Está encantado pela pequena.
_ Completamente. – Admito sem qualquer receio. – Bom. Depois da confusão na praia descobri que elas estavam vivendo na velha cabana onde nos encontrávamos escondidos. – Continuo com meu relato. – O lugar está caindo aos pedaços como você bem sabe. Não podia deixa-las ficarem lá. Então as levei para a minha casa. Aquela perto da praia.
_ Aquela que você se esconde sempre que precisa de um tempo? – Assinto me recostando novamente na cadeira. – Só não entendo uma coisa. Por que Brenda e a filha estavam morando na cabana abandonada se supõem-se que ela e o marido são riquíssimos?
_ Essa é a pior parte da história. – Sinto raiva só em lembrar. – Elas estavam se escondendo do i*****l.
_ E por quê?
_ Porque aquele covarde abusava dela. – As palavras amargam em minha boca. – Ele batia nela e obrigava a fazer coisas. – Vejo a minha raiva refletida nos olhos de Santiago. – Ele a destruiu, Santy. – Digo com pesar. – Aquela Brenda que conhecíamos está quebrada em pedaços. Ela não acredita mais nas pessoas. Mas vou mudar isso. Só não sei ainda como.
_ Ela tem que denunciar aquele canalha é o primeiro passo. Só o colocando atrás das grades é que as duas terão paz. – Assinto em concordância. – Depois e com a sua ajuda ela consegue juntar os caquinhos e, quem sabe, voltar a ser aquela Brenda de antes.