A verdadeira batalha não ocorre no campo de batalha, mas sim no campo mental.
Manter o controlo sobre tudo.
Domina a mente e dominarás o ambiente à tua volta.
Félix está comigo, através dos seus treinos. Consigo senti-lo. Consigo ouvi-lo, ecoando na minha mente. Não sei se o vou encontrar quando sair deste Labirinto. Não sei sequer se o vou encontrar na Capital, sepultado num campo de cadáveres. Não sei de nada. Apenas me deixo guiar pela sua pequena voz, que ainda está presente no fundo da mente. É subtil, mas presente. Robusta. E ainda me ilude o suficiente para me fazer acreditar que o vou encontrar vivo.
Suprimo a ânsia que me comprime o peito. Entre a subtil descarga de energia mística, a última coisa que preciso é de andar às voltas num Labirinto ainda desconhecido. Não sei o que poderei encontrar. Segundo a sensorial, a minha geração deverá conseguir derrotá-lo. Mas a verdade é que nenhuma capacidade é infalível. Martin conseguiu prever que o Governador estava a preparar as tropas e que o último anil se revelaria durante o eclipse. Mas nunca adivinhou que a pessoa que procurássemos fosse Sua Graça. Pode conseguir ver o futuro, mas até a sua habilidade é limitada. Pelo que me lembro, apenas a despertou dias antes de chegar ao Cabo da Serpente. Pelo menos, conscientemente. Segundo o que nos contou, sempre teve visões, sonhos que se tornavam realidade, desde criança. Mas só começou a invocar visões quando foi descoberto por uma das Resistências. Se estará vivo neste momento, não sei dizer. Apenas tenho certeza de uma coisa. Tenho de dar tudo o que tenho, se quero sobreviver.
Relaxo, ainda que os picos energéticos no meu peito não se acalmem. A ânsia intensifica-se, mas não me vou render aos impulsos. Isto pode ser uma armadilha do Governador, pode ser um dos desafios da sua malévola criação. Se o quimera também conhecer as nossas aptidões, saberá do meu sentido energético. Saberá que consigo sentir o fluxo de energia mística e poderá atrair-me com isso, tal traça com a luz. Não lhe darei a satisfação de brincar comigo. Não serei mais um dos seus peões, mais um dos seus cordeirinhos.
Reclino-me sobre uma parede e fito o que penso ser o céu acima de mim. Não existe nenhuma nuvem. Nenhum sol ou lua. Apenas um imenso manto azulado, de tons claros. Não oiço nada por um segundo, sem ser o som do meu coração e das picadas excruciantes de energia que palpitam por debaixo da minha pele. Mas fico assim. Imóvel, sucumbindo ao silêncio devastador que nada mais faz para além de me acompanhar. Os meus cabelos esvoaçam levemente. A brisa que brinca pelos meus dedos transporta uma pequena fragrância do sangue seco nas minhas luvas diretamente para o meu nariz. Cada habilidade, cada golpe, cada momento. Não posso esquecer a batalha na Capital. Retraio-me. A maior parte do sangue que me pinta as vestes não é minha. É sangue de observadores. Sangue da estirpe laranja. Mas não me importo. A invasão à Capital era a única solução. Se não tivéssemos partido para a vigésima região, o Governador dar-nos-ia caça e nunca teríamos descoberto que ele é o anil quimera – o vigésimo anil. Passaríamos o resto das nossas vidas – das nossas curtas vidas – a fugir como animais sob caça. Seríamos mortos e todos os que nos protegiam também. Morreriam muitos mais para além dos que pereceram na Capital.
Parede. Fonte. Disruptor.
As únicas palavras do diário da sensorial que me causam alguma sensação, as únicas palavras – além das páginas das descrições das habilidades – que estão escritas na nossa língua contemporânea. Poderá o poder de um sensorial prever até o modo de escrita de um povo, num intervalo de quinhentos anos?
Não me posso deixar influenciar por suposições. Afinal de contas, entre todos os anis, o sensorial tem a habilidade única de prever o futuro. É uma grande habilidade, mas, tanto quanto sei, é tão limitada quanto as dos restantes anis. Podemos ser poderosos, mas todos e cada um de nós tem uma fraqueza. Algum ponto fraco que se expõe quando estamos num ponto de energia mística reduzida. Se o Governador é um de nós, também o deve ter. Mesmo sendo uma simbiose entre a nossa estirpe e um monstro Psoc, não deixa de ser – em parte – anil, o que o faz tão exposto às fraquezas da nossa estirpe como qualquer outro anil. Sua Graça também tem falhas. Falhas que pretendo utilizar para acabar com ele. Custe o que custar.
Deixo que o corpo se estenda no trilho da terra, e dou por mim com os dedos a alcançarem a nuca. À parte da dor de cabeça e dos pensamentos pendulares, que vêm e vão, não consigo relaxar. Sei que pode ser uma armadilha. Sei que posso estar a ser atraído pelo meu carrasco ou pela própria morte. Mas, ainda assim, não consigo suprimir mais este aperto. É como contrariar a minha própria natureza. Não sei o que o Governador espera conseguir com isto, mas não o deixarei domar-me.
Durante anos vivi aprisionado, mesmo estando em suposta liberdade. Em Gren, eram os observadores que mantinham o povo sob vigilância apertada, sob o peso de olhos afiados e armas à cintura. Nem mesmo o meu corpo me pertencia. Servia apenas para servir o Governador e suprimir todas as suas necessidades. Todos e cada um de nós presos a uma figura que desconhecemos e a quem servíamos incondicionalmente. Tudo porque as mentiras eram os nossos filtros de realidade. Aqui, neste monte de cristal enegrecido, são as próprias paredes que se transformam nas minhas correntes. Mas, desta vez, tenho algo que é meu. Algo que posso utilizar e que o Governador não pode tirar de mim, mesmo que roube tudo o que sou. Dou vazão à minha energia mística e guio-a para fortalecer o meu sentido energético.
Tenho de encontrar a fraqueza deste monte de paredes e sair daqui. E não o vou fazer negando quem sou e ficando sentado à espera da morte. Mais vale enfrentá-la e, na volta, enganá-la, sobrevivendo mais um dia. A imagem do Governador a sugar a energia mística de uma menina que não pude salvar não me sai de trás dos olhos. O cheiro a sangue motiva-me a encontrar a b***a que sugou cada gota de energia mística daquela carcaça e a fazê-lo pagar com a sua vida. Com cada suspiro e gota de sangue. Do seu sangue. Não me interessa que tenha de o fazer com as minhas próprias mãos. Ele há de ruir, com tudo o que nos fez passar. Serei a última pessoa a colocar o prego no seu caixão, pessoalmente. Não deixarei que se alimente mais do povo de Arstrik. Não deixarei que se divirta a seu bel-prazer. Não me tornarei gado. Não agora. Não, nunca mais. Os restantes anis devem estar a divagar por aqui também. Afinal, se o Labirinto nos convocou a todos, devemos encontrar-nos de uma forma ou de outra.
Levanto-me, abanando a cabeça. Os pensamentos fogem-me, quando deixo que o sangue volte a fluir livremente pelas pernas. Sacudo a poeira das roupas e continuo a andar. Não posso parar. A vontade de gritar esconde-se entre um nó na garganta. Controlo, repito de mim para mim. Controlo.
Sigo o meu caminho, com a única certeza que tenho: irei sobreviver. A todo o custo.