ANALU
O beijo não foi doce.
Foi uma conflagração.
Foi o estilhaçar de todos os meus bons propósitos, o incêndio de todas as pontes que eu tentara construir entre a mulher que eu era e a mulher que eu deveria ser.
Seus lábios eram ásperos, seu gosto era de tabaco e verdade amarga, e suas mãos, aquelas mãos calejadas e sujas de graxa, me seguravam com uma posse que era ao mesmo tempo violenta e desesperada.
Eu tentei recuar, colocar as mãos em seu peito para empurrar, mas meus dedos se recusaram a obedecer. Em vez disso, se agarraram ao macacão áspero, puxando ele para mais perto, como um náufrago se agarrando a um rochedo em meio a uma tempestade.
Ele quebrou o beijo por um segundo, ofegante, seus olhos escuros vasculhando o meu rosto, procurando por resistência, por arrependimento. Encontraram apenas um caos igual ao dele.
— Não — eu sussurrei, mas a palavra soou falsa, um eco fraco de uma convicção que já havia se desintegrado. — Cayo, eu não posso... o noivado...
— Mentira — ele rosnou, sua testa ainda colada na minha. — Tudo isso é mentira, Analu. Você não é feita para essa vidinha de plástico. Você é feita de fogo, igual a mim. E o fogo, quando encontra mais fogo, vira inferno. E eu tô pronto pra queimar contigo.
Suas palavras eram como gasolina no que já estava em chamas. Ele me puxou novamente, e dessa vez, eu não tentei resistir.
Meu corpo se curvou contra o dele, uma rendição total. E entre beijos que mais pareciam batalhas, entre lágrimas que escorriam sem parar — lágrimas de raiva, de medo, de uma alegria proibida e avassaladora — as palavras que eu mantive trancadas a sete chaves finalmente explodiram para fora de mim.
— Eu não aguento mais! — eu gemi contra sua boca. — Não aguento mais as mentiras, as aparências, essa vida que não é minha! Eu te quero, Cayo. Só você. Mesmo que seja errado. Mesmo que seja minha ruína.
Ele sorriu.
Não era um sorriso de triunfo, era um sorriso de alívio, de uma felicidade tão profunda que doía de se ver. Era o sorriso de um homem que finalmente recebe o que mais deseja, depois de temer ter perdido para sempre.
— Então vem — ele disse, sua voz um rosnado de urgência. Ele pegou minha mão, seus dedos se entrelaçando nos meus com uma força que prometia nunca mais soltar. — Vem comigo agora. Deixa essa prisão dourada.
Meu coração disparou, batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado tentando escapar. Olhei para trás, para a sala ampla e impessoal da mansão, para a vida que estava prestes a abandonar. A razão gritava, um alarme distante e impotente.
Humberto.
Meus pais.
A desilusão.
O escândalo.
Mas então olhei para ele.
Para Cayo.
Para seus olhos cheios de um amor bruto e incontestável. E a razão se calou.
Sem pensar, sem planejar, agi por puro instinto. Corri até o hall, peguei minha bolsa — uma bolsa de couro caríssima que agora parecia um artefato de outra pessoa — e verifiquei rapidamente: celular, carteira, documentos.
Era tudo que eu levava.
Era tudo que importava.
— Vamos — eu disse, minha voz trêmula, mas decidida.
Ele não precisou que eu dissesse duas vezes. Me puxou pela mão, e nós saímos correndo pela porta da frente, como dois ladrões fugindo com o próprio coração.
A noite quente do Rio nos engoliu.
A moto dele estava estacionada do lado de fora, uma criatura de metal esperando. Ele me passou o capacete, suas mãos tremendo ligeiramente, e eu subi na garupa, me agarrando a ele como se fosse a única coisa real em um mundo de sonhos frágeis.
Ele acelerou, e a moto rugiu, nos projetando para a frente. O vento uivava nos meus ouvidos, levando consigo os últimos vestígios da minha vida anterior. O medo era uma faca fria no meu estômago — medo do desconhecido, medo da dor que eu estava causando, medo de estar cometendo o maior erro da minha vida.
Mas sob o medo, havia uma euforia.
Uma euforia tão intensa que era quase dolorosa, quase palpável.
Era a liberdade.
A terrível, perigosa e eletrizante liberdade de estar escolhendo meu próprio caminho, mesmo que ele levasse direto para o abismo. Cada curva que a moto fazia, cada rua que deixávamos para trás, era um fio cortado que me ligava à Ana Luísa Bernardes, a noiva do Humberto, a filha exemplar.
Eu não era mais ela.
Eu era apenas uma mulher, de mãos dadas com o seu destino, correndo com o homem que amava.
Enterrei o rosto nas costas dele, sentindo o tecido áspero do macacão contra minha pele. Cheirava a ele, a gasolina, a suor, a esforço. Cheirava a verdade. E eu, que tinha vivido tanto tempo em um mundo de perfumes caros e mentiras perfumadas, respirei fundo aquele aroma como se fosse o primeiro sopro de ar puro da minha vida.
Não sei por quanto tempo andamos.
O tempo perdeu o significado.
Foi uma eternidade e um instante.
Até que a paisagem começou a mudar. Os prédios altos e imponentes deram lugar a casas mais simples, as ruas largas e iluminadas se transformaram em ladeiras estreitas e escuras.
Estávamos subindo o morro.
O coração bateu mais forte, não mais de medo, mas de antecipação.
Ele finalmente parou em frente a uma casinha simples, de porta azul, encravada na encosta. Desligou o motor, e o silêncio súbito foi como um choque. O único som era a nossa respiração ofegante e os grilos cantando na noite.
— É aqui — ele disse, sua voz um pouco rouca. Ele desceu da moto e me estendeu a mão. — Minha casa.
Peguei sua mão e desci, minhas pernas ainda fracas.
Ele abriu a porta e acendeu a luz.
Eu esperava... não sei o que esperava.
O mesmo caos da casa da mãe dele, o colchão no chão, a desordem que era o quarto dele.
Mas não era isso.
A casinha era pequena, sim.
Humilde.
Mas estava... arrumada.
Limpa.
Havia um sofá pequeno, uma televisão, uma estante com alguns livros e ferramentas. E no canto, uma cama. Uma cama de verdade, com cabeceira e tudo, coberta com um cobertor simples, mas limpo.
Ele fechou a porta atrás de nós, e o mundo lá fora parou de existir.
Estávamos sós.
Em seu território.
No lugar que ele havia construído, ou pelo menos arrumado, sozinho.
Ele me olhou, uma ponta de insegurança em seus olhos, como se temesse meu julgamento.
— É simples — ele disse, baixinho.
Eu olhei em volta, e então olhei para ele. Para o homem que, contra todas as probabilidades, estava tentando se erguer. E algo dentro de mim, algo que estava tenso e com medo, simplesmente se aquietou.
— É perfeito — eu respondi, e pela primeira vez naquela noite, as palavras saíram sem um traço de hesitação.
E naquele pequeno cômodo, cheirando a limpeza e a esforço, longe do mundo que eu conhecia, eu sabia que tinha acabado de cruzar um limiar.
Não sabia para o que estava indo, nem qual seria o preço. Só sabia que, pela primeira vez em muito, muito tempo, eu estava exatamente onde deveria estar.