Luanne...
Acordei antes do despertador,algo que anda acontecendo com muita frequência,não estou em me reconhendo,tô pior do que a mamãe. Me levantei e fui pro banheiro tomar meu banho matinal e fazer minha higiene pessoal. Saí do banheiro depois de quase meia hora debaixo da água,fui até meu closet e peguei uma roupa mais social do que eu gostaria,mas como estou trabalhar,não dá pra vestir qualquer coisa. Imaginem só,eu,uma das melhores médicas cirurgiã daquele hospital,chegar no meu ambiente de trabalho,usando uma calça jeans rasgata,com uma regata larga e comprida,e só pra finalizar,calçar um all star. Posso nem pensar nisso,tenho que manter minha reputação de excelente profissional,já que todas as outras foram estragadas né?
Ótima filha? Já era.
Exemplo pra irmã mais nova? Não existe mais.
Manter relacionamentos por mais de um mês? Nunca nem vi.
Manter uma alimentação saudável? Foi o tempo.
Entre muitas outras,mas essa eu tenho que manter, querendo ou não.
Ao terminar de me arrumar,desci na intenção de preparar meu café e o de Tati,mas vendo mamãe já colocando tudo pronto sobre a mesa. Eu já falei o quanto eu amo quando ela está por aqui? Se tirar as broncas, é claro.
-- Bom dia__falei me aproximando dela para lhe dar um beijo na bochecha.
-- Bom dia__respondeu sorrindo, radiante como sempre__ Caiu da cama,e não percebi?
-- Nem é pra tanto mãe__disse me sentando e pegando a salada de fruta de sempre__ Isso tem acontecido mais do que a senhora possa imaginar.
-- Aconteceu algo?__perguntouse se sentando a minha frente.
-- Não que eu saiba,por que?
-- Não sei bem__me analisou o máximo que pode,e nesse meio tempo,Tati se juntou a nós__ Você me parece mais feliz do que da a última vez que estive aqui.
-- Deve ser impressão da senhora__olhei pra Tati que abriu um sorriso enorme,como o de quem vai falar o que não devia,sabe?__ Estou como em todas as outras vezes que vocês vieram pra cá.
-- A mamãe tem razão__eu praticamente a fuzilei com o olhar,e nem assim a desgraça calou a maldita boca__ Desde aquele dia você anda sorrindo feito uma i****a pelos cantos da casa__sorriu ainda mais__ Está mais feliz do que o normal,e sem contar que seu humor tem andado lá na lua,o que é uma coisa boa.
-- Isso é verdade__mamãe concordou__ Mas você não anda muito diferente da sua irmã não, Tatiane__a garota até engasgou,e eu não me contive,caindo na gargalhada e recebendo um olhar de reprovação vindo de mamãe logo em seguida__ O que eu já falei sobre esse tipo de ação durante as refeições Luanne?
-- Desculpe__pedi terminando minha salada__ Mas é que a cara que Tati fez,foi muito hilária.
-- i****a.
-- Olha só quem tá falando?
-- Parou com isso,as duas.
-- Desculpe, mãe__pedimos juntas__ Mas essa coisa,age como se tivesse apenas doze anos,não dá aturar sempre__ Tati diz e mamãe sorri,meio que concordando,e pra não ter mais problemas,apenas ignorei o comentário dela,e me levantei da mesa,já indo pegar as minhas chaves e capacete,pra poder ir pro hospital.
-- Tchau, beijos,vejo vocês a tarde__falei me despedindo e vazei seguindo com o meu caminho.
....
Fui chegando ao hospital,e foi como se estivessem me esperando. m*l cruzei a porta de entrada,e já vieram me entregar alguns prontuários,os quais eu tive a paciência de sempre pra poder analisar e chegar a uma conclusão objetiva,e segui direto pra sala de cirurgia,ainda estudando qual era o problema do paciente do quarto sete. Um jovem de dezenove anos,deu a entrada na emergência ontem, sentindo fortes dores de cabeça,e acabou desmaiando devido o aumento superficial da dor em si,durante a radiografia,na qual foi constatado um tumor em processo,que pra sorte do rapaz,foi encontrado bem no início do processo.
Chegando na sala de cirurgia,já devidamente vestida,fui até o rapaz que ainda estava consciente.
-- Checagem obrigatória__pedi olhando pro rapaz.
-- Denis Romero dos Santos, dezenove anos de idade, entrada pela emergência,cirurgia de risco confirmada pelos parentes,sem vínculo afetivo com o médico responsável em questão...__continuou com a checagem como pede o regulamento.
-- Vamos começar__digo e a enfermeira seda o rapaz,que vai caindo em sono profundo aos poucos.
....
A cirurgia foi um sucesso. O rapaz saiu daquela sala sem nenhuma sequela,e melhor do que nunca. Podendo viver a vida intensamente,dentro de seus próprios limites.
Estava na sala de descanso quando recebi uma ligação de mamãe. Normalmente eu não atenderia,mas depois do que ela me disse,achei melhor atender logo.
Ligação on...
-- Oi mãe?
-- Não queria atrapalhar,mas eu não poderia ir embora sem ao menos avisar vocês__disse ela sem nenhuma enrolação.
-- Como assim vocês estão indo embora? Não era só depois de amanhã?__perguntei já me levantando e seguindo até o estacionamento do hospital em busca da minha moto..
-- Era,mas aconteceu algo de importante na empresa do seu pai,que não dá pra ele resolver daqui.
-- Ok,mais que horas o vôo de vocês sai?
-- Dentro de uma hora no máximo,estamos quase no aeroporto.
-- Chego aí em meia hora então__falo já desligando o celular sem dar tempo dela retrucar.
Ligação off...
Montei na moto e sai sem nem avisar nada pra ninguém,o que vai me render a maior bronca de toda a minha vida.
Tatiane...
Como todos os outros,esse dia tem sido bem cansativo,talvez um pouco por mais,já que eu não compareci na empresa ontem.
Estou revisando contratos desde o momento em que cheguei até agora. Tá até parecendo algum tipo de vingança da parte do Eduardo,e se for,não vai ficar assim. O bom do meu dia até agora, é que não tive que dar de cara com ele ainda,o que quer dizer que eu não tive que falar,muito menos ouvir,o que ele tem pra dizer sobre a ameaça que o mesmo me fez na minha casa a três dias.
Já estava terminando de revisar o último contrato,quando meu celular vibrou alegando ter chegado uma mensagem de mamãe,não esitei em nem um momento em ler a mensagem.
Mensagem on...
Mãe - filha,eu e seu pai estamos com um problema na empresa que não dar pra ser resolvido daqui, então decidimos voltar antes do previsto.
Como eu já falei com a sua irmã,e a desnaturada não me deu nem a chance de dizer um até logo,tô te avisando pra caso você queira vir até o aeroporto. Saímos em mais ou menos cinquenta minutos.
Eu - Claro,chego aí em meia vinte minutos no máximo.
Mensagem off...
Guardei o celular e sai em direção ao estacionamento,onde entrei no carro já saindo em direção ao aeroporto. Como a empresa não ficava muito longe do aeroporto,eu não tive nenhum problema.
Cheguei no local dentro do tempo por mim estipulado. Mamãe estava junto de Isa perto da máquina de refrigerante,então me aproximei delas.
-- Demorei?
-- Na verdade não__disse me abraçando.
-- O que aconteceu em relação a empresa?__perguntei um tanto quanto curiosa.
-- Não sabemos, papai não disse__ Isa me respondeu.
Estava pra falar mais alguma coisa,quando Lu surgiu dos infernos,descendo da moto ainda em seu jaleco.
-- O que aconteceu na empresa pra vocês terem que ir embora assim do nada?__perguntou dentro do abraço da mamãe.
-- Seu pai não nos disse.
Conversamos mais algumas banalidades enquanto não dava o horário do voo,que não demorou a chegar.
Durante a despedida,pude notar que algo muito grave aconteceu,e tenho quase certeza que essa volta tão repentina pro Brasil,não tem nada haver com a empresa,mas resolvi não comentar nada.
-- Tchau mãe, chegando me liga tá?__Lu disse dando um último abraço nela__ Prometo que vou atender__sorriu e mamãe riu__ Se cuida pirralha,e vê toma juízo e volta com os seus estudos__também abraçou a Isa__ Sabe que pode vir nos visitar quando quiser né?
-- Valeu mana,e eu vou pensar direito nessas minhas escolhas__disse sorrindo e olhou pra papai,que estava com um olhar mortal pra ela e mamãe,o que só aumentava as minhas suspeitas,mas de novo não disse nada.
Também me despedi delas,dando os mesmos conselhos que Lu,pra Isa,deixando papai,que me deu um forte abraço sem dizer muita coisa além de um até logo e vai nos visitar, por último. Pelo modo que ele estava agindo,não estranhei o fato dele ignorar Lu quase que por completo,e ela também não fez muita questão de tentar algo.
....
Finalmente em casa. Nunca mais quero ter um dia tão cheio quanto esse.
Já no meu quarto,fui pro banheiro tomar um banho,pra tentar relaxar um pouco. Saí do banheiro já vestindo meu pijama,pois já passava das oito da noite,e eu não iria sair.
Desci as escadas e me surpreendi ao chegar a cozinha. Lu depois de muitos meses,estava cozinhando. O que de alguma forma me preocupou. Ela só costuma cozinhar quando está passando por algo e não quer se abrir com ninguém.
-- Você apareceu no momento certo__disse colocando tudo sobre a mesa.
-- Quer dizer que hoje eu vou jantar algo completamente comestível?__falei sorrindo e ela fez o mesmo.
-- Palhaça__falou colocando os pratos e talheres nos lugares de sempre__ Aproveita que hoje eu caprichei.
Vendo que ela estava tentando me agradar,pela primeira vez em muitos dias,deixei um pouco as provações de lado e me servir,com ela fazendo o mesmo logo em seguida.
Terminando o jantar,ela se levantou pra arrumar toda a bagunça que ela a feito,que nem era tanta assim,e eu decidi ajudar.
-- Lu,o que você tem?__perguntei quando estava terminando de secar o restante da louça.
-- Nada,eu estou ótima__falou forçando um sorriso.
-- Não,você não está__falei guardando o último prato e a encarando de frente__ Você tá meio estranha desde que saímos do aeroporto,algo aconteceu,eu sei disso. Eu te conheço melhor do que qualquer um__suspirou me dando as costas e subindo pro seu quarto comigo no seu encalço__ É por causa do papai,não é?
-- Tá tão na cara assim?__perguntou se jogando na cama.
-- Não,mais eu sou sua irmã,tenho quase que obrigação de saber quando você está agindo fora do normal__me deitei ao lado dela__ Quer me contar o que tá acontecendo?
-- Eu não faço ideia Tati,eu sei que a minha convivência com ele não é das melhores,mas o modo como ele agiu hoje,me afastando cada vez mais__suspirou pesadamente, talvez tomando forças pra continuar__ Foi diferente,mais pesado...foi como se eu não estivesse ali. Eu sei que você também percebeu,o olhar assassino que ele mandou na direção da Isa,quando ela estava falando comigo, é como se o motivo pra ele dizer que precisava ir embora,não fosse a empresa,como mamãe falou pra gente,mas sim eu. Alguma coisa aconteceu Tati,mesmo sabendo que isso viria acontecer um dia por causa da minha sexualidade,não pensei que seria tão r**m de aceitar. Ainda mais brigando a cada duas conversas,como a gente faz__olhou algo no celular,que eu não conseguir ver o que era__ O mais engraçado de tudo isso Tati, é que desde criança,eu sempre me imaginei,no futuro,já formada e com a minha vida resolvida,poder contar com o apoio dele,caso eu decidisse tomar a frente em um relacionamento,queria poder pedir conselhos,ajuda,algo assim,quando eu conhecesse alguém legal,alguém que eu achasse que valeria a pena investir. Não queria que fosse assim,acho que a gente tem potencial pra sermos muito melhor do que isso,pra sermos pai e filha com nos meus dez,onze anos. E não essa bagunça que começou depois dos meus treze,e que só piorou a partir dos meus dezessete.
-- Não precisa ficar assim Lu,eu tô sempre do seu lado,vamos passar cima disso,como sempre fizemos até aqui__ a puxei pra um abraço,já sabendo que não sairia dali está noite__ Uma ao lado da outra.
-- Eu sei mana, e obrigada.