2 CAPÍTULO

2740 Palavras
Pov Michelle Minha vida estava uma verdadeira bagunça, eu era uma verdadeira catástrofe, essa era a frase que eu repetia todos os dias para mim mesma nos últimos meses. Desde que me separei de Nathalia eu vivia sem rumo, afogando minhas mágoas e frustações em bebidas e noitadas com mulheres que no dia seguinte eram dispensadas sem ao menos me preocupar em lembrar o nome, para ser sincera na maioria das vezes eu sequer perguntava os nomes, não era algo consideravelmente importante para quem tentava esquecer o quanto um casamento tão sonhado foi para o espaço sem muita explicação. Eu não me orgulhava do que estava me tornando, quando olhava no espelho via apenas o reflexo de uma mulher fracassada. A verdade é que vivi com Nathalia aquele amor de novela, com ela me sentia vivia e completa. Um sorriso nascia em meu rosto sempre que acordava e ao olhar para o lado encontrava seu rosto angelical me presenteando como a primeira visão do meu dia. Meu amor por aquela mulher era tão imenso que me fazia pensar nela antes de pensar em mim mesma. Conquistar meus sonhos ficou ainda melhor quando cada um deles foi planejado com ela ao meu lado. Nós sonhávamos juntas com um futuro enquanto vivíamos o presente intensamente. Eu costumava dizer que sempre sonhei em viver algo tão bonito quanto nosso amor, mas quando aconteceu percebi que não estava preparada, pois ele era tão forte que muitas vezes chegava a doer a alma e sequer eu sabia como agir diante do sentimento que era maior do que eu. No entanto, apesar do sentimento que compartilhávamos, nem tudo era sempre mil maravilhas, como todo casal enfrentávamos problemas, vencemos obstáculos para alcançar cada objetivo e o maior deles foi a família de Nathalia. A família Banin vinha de uma geração muito rígida, descendentes de italianos que mudaram-se para o Brasil quando Nathalia ainda era criança. Aqui construíram o império e maior orgulho da família: o famoso hospital Cassems Banin. E o sr. Rodolfo não abria mão que um dia fosse administrado pelos seus únicos dois filhos: Nathalia e Ricardo. Ana Tereza, mais conhecida como a megera da minha sogra, desde o nosso namoro fez o que pode e o que não pode para acabar com o que ela costumava chamar de “vergonha para família”, foram incontáveis as vezes que ela armou para Nathalia e Higor reatarem o namoro. Foram inúmeros jantares programados, viagens, encontros e etc. O garoto era o sonho de consumo da velha Banin, eu arriscava dizer que isso tinha muito a ver com toda influência que a família do mesmo possuía, além de ser o típico filhinho de papai, tão mimado que chegava a provocar náuseas. A megera nunca me respeitava e dirigia-se a mim como a imprestável que desvirtuou o caminho brilhante da filha. Se eu não amasse tanto a filha daquela mulher ela teria conseguido o que desejava muito cedo. Eu nunca fui o tipo de pessoa que me deixava ser humilhada ou aguentava desaforos, minha paciência era zero, minha tolerância então... mas por amor eu descobri que somos capazes de coisas inimagináveis. Depois que nos casamos, o pai de Nathalia passou a conviver melhor com a situação e por mais que não compreendesse o que ele definia como “novidade” passou a conviver de forma respeitável comigo. O irmão de Nathalia era o único que nos apoiava de verdade. Nossos filhos nasceram trazendo felicidade para todos à nossa volta, e quando digo todos estou incluindo a própria Ana Tereza. Guto e Benjamim foram as únicas coisas do nosso casamento que de fato a matriarca parecia respeitar e até mesmo amar. Apesar dos netos não serem fruto de uma relação hétero e nem terem sido concebidos de maneira tradicional, eles amoleciam o coração da avó de um jeito que jamais acreditei ser possível. Ela passou a frequentar nossa casa e até a fingir me respeitar, mas era nítida sua verdadeira opinião sobre nosso casamento. No entanto, as discussões entre mim e Nathalia eram constantes, principalmente quando o assunto era a educação de Gustavo e Benjamim. Ana Tereza sempre arrumava uma maneira para determinar as coisas do seu jeito, ou seja, conservadora, ultrapassado e preocupante. Como avó eu sentia que a mulher se metia na educação dos nossos filhos de uma forma que ultrapassava todos os limites que deveriam ser estabelecidos e com isso trazia constantes contendas para nosso lar. Sempre acreditei que Nathalia precisava ter mais pulso firme com a mãe, eu não poderia aceitar que meus filhos crescessem como crianças riquinhas, mimadas e sem saber os reais valores da vida, muito menos que fossem preconceituosos e isso era tudo que a mais velha transmitia para eles. Nathalia compartilhava dos mesmos pensamentos que eu, porém sempre deixava-se levar pela arrogância da mãe, não tinha coragem de enfrentá-la sempre que necessário, tornava-se fraca diante da soberania da mais velha e isso me perturbava. Enfim, a verdade é que aquela situação toda desgastou nosso casamento, não sei como e quando, mas quando percebi já estava saindo da casa que um dia sonhamos com tanto amor. É, Ana Tereza parecia ter vencido aquela guerra. Exatos sete meses se passaram desde o dia que pedi o divórcio para Nathalia. Nos primeiros dias eu sequer pensava o que estava fazendo, entrei com o pedido sem pensar em nada que não fosse me livrar daquela situação sufocante que era viver em brigas diárias com minha esposa. Naquele momento eu não conseguia compreender meus sentimentos, algo dentro de mim gritava em desespero por deixá-la, mas por outro lado eu tinha certeza que precisávamos enfrentar aquilo tudo agora, antes que mais tarde fosse algo ainda mais doloroso onde só restariam mágoas de algo que foi tão bonito. Nosso casamento caiu em uma rotina constante onde por vezes cheguei a me questionar se ainda existia amor de ambas as partes. Nathalia por sua vez não pareceu disposta a negar a separação. Se ela ainda me amava? Eu não sabia, mas a conhecia suficiente para compreender que por mais que ela estivesse sofrendo com nossa separação, o seu orgulho não permitiria que ela negasse assinar o divorcio ou até que pedisse uma chance para que salvássemos nosso casamento. As dificuldades de enfrentar um processo de separação começaram a partir do momento que nossos filhos demonstravam sofrer ainda mais que nós duas. E foi nesse instante que me senti perdida, confusa, magoada, com raiva de mim e do mundo. O que eu tinha feito da minha familia? Será que eu ainda amava Nathalia? Os dias passavam e a única certeza que eu tinha era que estava fazendo meus filhos sofrerem, mas estar perto da minha família com o coração tão amargurado também não os traria felicidade alguma. A campainha do meu apartamento tocou e eu respirei fundo antes de abrir a porta. Eu sabia que iria encontrar com Nathalia ali. Nós convivíamos apenas o necessário, porém nosso único assunto incomum era nossos dois filhos. E eu achava incrível como duas mulheres que passaram por tantas coisas juntas hoje tornaram-se duas completas estranhas. Nathalia estava trazendo nosso filho mais velho para passar o fim de semana em minha casa. Ben esse final de semana ficaria com ela, pois o passeio que faríamos não era apropriado para sua idade. Eu ficava feliz por pelo menos nisso conseguirmos entrar em acordo sem causar muitos danos. Nossos filhos tinham acesso livre ao meu apartamento e pelo menos dois finais de semana eram garantidos que eles passassem comigo. Durante a semana ficava meio corrido para nós e para não bagunçar os horários deles, resolvemos que Nathalia ficaria com eles, a menos que algum imprevisto acontecesse em sua agenda, mas com a ressalva que eu poderia visitá-los sempre que quisesse. – E aí Garotão? Vem cá dá um abraço na mãe! Fiquei à altura do Guto, mas para minha surpresa ele passou reto por mim deixando-me sem compreender aquela atitude. Olhei para Nathalia que estava com Ben em seu colo, ela parecia cansada e triste. Ficamos ali em silêncio nos olhando tão intensamente como se aquela troca de olhar pudesse explicar o que tinha acabado de acontecer ali. – O que foi isso? Finalmente me pronunciei, mas minha voz saiu mais tímida do que realmente eu gostaria. Enquanto tirava Ben dos seus braços ela respondeu. – Ele hoje acordou m*l humorado, mas fica tranquila logo passa. – Assenti e passei a conversar com meu caçula. – E você meu príncipe encantado, como está? Ben era um garoto esperto, sempre muito brincalhão, sorridente e conversador. Meu filho era carinhoso e eu não podia negar o quanto se parecia comigo no aspecto manhoso também. Mas naquele momento ele estava estranhamente silencioso. – Bem. – Respondeu secamente e eu me perguntava o que diabos estava acontecendo com aquelas crianças hoje. Olhei para Nathalia que prestava atenção em nós com certa ternura nos olhos. Anos poderiam passar, o mundo poderia desabar, mas Nathalia sempre seria transparente quando o assunto eram seus sentimentos. Se existia uma coisa que ela amava admirar era minha interação com nossos filhos. – Ei, não fica triste não. Prometo que vamos ter um passeio só nosso também qualquer dia desses. O que acha? – Ele pensou por um instante. – A mamãe Nat também vai poder participar? Engoli em seco aquela pergunta e me vi em apuros em busca de uma resposta para Bem. Troquei olhares com Nathalia que respirou profundamente e passou a mão pelo rosto. – Que tal a gente ver isso depois? Perguntei esperançosa, mas Benjamim adotou uma expressão triste que partiu meu coração. Comecei a fazer cócegas em seu corpinho na tentativa de melhorar o clima que se formou até que finalmente ele explodiu em uma gargalhada gostosa. – Ai, tá bom mamãe eu me rendo. – Falou por fim quase sem fôlego. – Ótimo! Agora que estão resolvidos vamos embora garotinho que eu ainda preciso ir para o hospital. A voz de Nathalia me chamou atenção. Voltamos a nos encarar e percebi que apesar do cansaço em seu rosto ela continuava tão linda quanto antes e isso eu não poderia negar, mas nossa sintonia de anos parecia não mais existir naquele momento. – Tchau, Michelle! – Ela falou com a voz apressada – Tchau, Nathalia! Ela se foi com Ben no colo deixando pela primeira vez em meses uma sensação de um vazio tão doloroso que me afetou quase que imediatamente. – Mas que droga é essa que estou sentindo? – Coloquei a mão na cabeça em desespero. Não era possível me sentir insegura ou confusa agora. O passeio com Gustavo no inicio não foi como esperado, meu filho estava arredio e domar aquela pequena fera não foi nada fácil. De todas as suas características, o garoto herdou de Nathalia seu lado orgulhoso. O gênio da mãe parecia estar impregnado no mais novo, porém com uma diferença, ele era ainda mais difícil de lidar. No entanto, no decorrer do dia o humor do garoto foi melhorando. Nos divertimos juntos e tudo só não foi ainda mais perfeito porque tanto eu quanto Guto sentíamos falta do nosso pequeno príncipe. Eu como mãe não poderia me sentir mais feliz em ver o amor que meu filho mais velho nutria pelo irmão, ambos tinham uma conexão maravilhosa e isso me enchia de alegria e tranquilidade, pois assim eu sabia que no dia que eu não mais estivesse aqui meus filhos teriam um ao outro sempre cercados por união e amor. Era exatamente meia noite quando acordei com o barulho irritante do meu celular que tocava insistentemente. Já estava prestes a xingar o ser humano miserável que ousava me acordar a aquela hora. Será que esse povo não dorme não? Mas toda minha raiva foi substituída por surpresa quando vi o nome que estava no visor do celular. Ana Tereza! Eu teria mil e um motivos para recusar aquela ligação ou simplesmente atender e esquecer toda a educação que meus pais me deram e manda-la para o raio que a parta, mas meu coração inexplicavelmente apertou e meu instinto materno por alguma razão voou imediatamente para Benjamim. Somente duas pessoas nesse mundo seriam motivos suficientes para fazer aquela mulher me ligar a essa hora da manhã e como um deles estava comigo só me restava a crer que Ben seria a razão naquele instante. – Alô! – Atendi a ligação a essa altura sem nenhum respingo de sono presente. – Venha para o hospital... – Ela respondeu com a voz meio alterada deixando claro a impressão que estava andando apressada. – Agora! – Concluiu com a arrogância de sempre. Sem pensar duas vezes pulei da cama e capturei a primeira roupa que vi no armário. Acordei Gustavo sem dar ao garoto a oportunidade de sequer compreender o que estava acontecendo, tudo era feito na maior rapidez possível e mesmo sem entender nada meu filho parecia tão determinado a sairmos logo de casa quanto eu estava. Ele nem questionou quando eu determinei que ele não trocasse de roupa. Dirigi pelas ruas que estavam vazias sem me importar em respeitar o sinal de trânsito, eu sabia que aquilo era errado, mas cogitar a hipótese que algo aconteceu com meu filho me motivava a agir daquela maneira irresponsável. Quando entrei no hospital não precisei me identificar ou passar por toda aquela burocracia da recepção, pois apesar de estar separada de uma das donas daquele lugar, todos ainda me conheciam e respeitavam como se fosse legalmente parte da família de Nathalia. Não demorei a encontrar por quem procurava, Nathalia estava sentada na sala de espera do departamento infantil enquanto a avó dos meus filhos caminhava nervosamente de um lado para o outro. Fui até elas. – O que está acontecendo? – Gustavo sentou-se no colo de Nathalia que o abraçou com força. – O Ben passou m*l essa tarde e você como a grande mãe maravilhosa que é não atendia o celular. Precisei usar toda minha boa vontade para não explodir com aquela velha ali mesmo, respirei profundamente e engoli o sarcasmo dela, afinal, meu filho era a única coisa que me importava nesse momento. – Mamãe, por favor não começa. – Nathalia falou pacientemente, mas percebi o quanto ela estava preocupada. – Michelle, eu pedi para a mamãe te ligar porque acabei esquecendo meu celular em casa, espero que isso não seja um problema. – Não se preocupe. – Fui até ela que ainda tinha Gustavo em seus braços quase adormecendo. – Onde ele está? – Nesse momento está sendo avaliado, mas eu estava muito nervosa e papai não deixou que eu entrasse junto. – O que aconteceu exatamente? Isso foi assim, do nada? – Ben havia pedido para ficar na casa da Cris brincando com a Cecilia. Passei lá depois que saí do hospital. Ele já reclamava dizendo que estava muito cansado, pensei que fosse do dia agitado que teve. – Nathalia já tinha os olhos lagrimejados. – Depois que chegamos em casa coloquei ele no banho... Michelle eu juro que não o deixei sozinho por mais que dois minutos, quando cheguei no banheiro ele estava desmaiado. Nathalia chorava descontroladamente e meu coração se comprimiu. Eu não fui capaz de expressar nenhuma reação, dizer uma palavra sequer. Sentei ao lado de Nathalia, me perdi em meus próprios pensamentos enquanto via a minha sogra rodopiando feito perua tonta. Aquela mulher poderia ser o que fosse, mas se existia uma coisa que eu não duvidava era do seu amor por aquelas crianças e conhecendo a fera como conhecia eu sabia que ela já estava a ponto de derrubar aquele hospital por precisar ficar esperando por noticias. – Eu vou entrar lá, não suporto mais essa espera absurda. Quem pensam que eu sou para ficar esperando? A mulher falou e seguiu em direção ao corredor que deva acesso à sala onde o neto estava, mas ela não precisou andar muito, a figura do meu sogro surgiu na entrada do corredor, sua expressão era séria e aquilo me fazia pensar que não era um bom sinal. – E então Rodolfo, como está o Ben? Ana Tereza questionou. Eu e Nathalia nos levantamos apressadas ficando ao lado do Banin mais velho. O homem à nossa frente suspirou e então falou... – Está dormindo, mas nós precisamos ter uma conversa. Nathalia e eu nos entreolhamos apreensivas compartilhando da mesma sensação de desespero e angústia que somente um coração de mãe poderia entender.
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