Minha mãe nunca grita sem motivo. Ela fere com palavras afiadas, com silêncios calculados, com olhares que esmagam. Mas, naquela noite, a máscara caiu. Ela gritou.
O som atravessou as paredes da casa como fogo, e eu soube: era o início da guerra.
— Você desonrou esta casa! — ela berrou, avançando sobre mim no corredor. — Uma filha minha, suja, deitada com um estranho que m*l conhecemos!
— Ele não é um estranho! — respondi, o peito em chamas. — Ele me conhece mais do que você jamais conheceu.
A bofetada veio antes que eu pudesse reagir. O estalo ecoou pelo corredor, e a dor ardida espalhou-se pelo meu rosto. Mas não chorei. Não dessa vez.
Aidan surgiu do porão no mesmo instante. Seus olhos cinzentos estavam sombrios, a mandíbula travada. Ele me puxou para trás dele, protegendo-me com o corpo.
— Não encoste nela. — disse, a voz baixa, grave, perigosa.
Minha mãe riu, um riso amargo, c***l. — E vai fazer o quê? Vai me matar também? Como deixou o irmão morrer?
O corpo de Aidan enrijeceu. Eu o senti estremecer, como se cada palavra fosse uma lâmina cravada em suas cicatrizes. Mas ele não recuou.
— Já basta. — disse, firme. — Se quer me culpar, culpe. Mas não vai destruir a sua filha para isso.
Minha mãe me olhou como se eu fosse uma estranha. — Você é igual a ele. — cuspiu. — Queimados. Perdidos.
O silêncio que se seguiu parecia fumaça sufocando o ar. Então, pela primeira vez, eu gritei de volta.
— Eu não sou perdida, mãe! Eu sou livre! E se ser livre significa estar com ele, então é isso que vou escolher.
Os olhos dela se encheram de ódio. — Não enquanto eu estiver viva.
E naquele momento, percebi: ela não estava apenas tentando me controlar. Estava disposta a destruir tudo.
O confronto se arrastou pela noite. Palavras se transformaram em armas. Minha mãe atacava com lembranças, com acusações, com a vergonha que sempre me usou como corrente.
Mas, pela primeira vez, eu não me calei. Aidan, ao meu lado, era minha fortaleza. E, a cada vez que minha mãe cuspia veneno, ele segurava minha mão mais firme, como se dissesse: você não está sozinha.
Em um momento, ela avançou novamente, tentando me puxar pelo braço. Mas Aidan a segurou pelo pulso, não com violência, mas com firmeza suficiente para detê-la. — Não faça isso. — disse, a voz grave como trovão.
O olhar dela queimava de fúria. — Vai me impedir de criar minha própria filha?
— Não. — Aidan respondeu. — Mas vou impedir que a destrua.
Foi então que percebi: a casa já não era lar. Era campo de batalha. Cada parede carregava gritos, cada degrau rangia sob o peso da guerra.
E eu estava no meio. Entre a mulher que me deu a vida e o homem que me fazia querer vivê-la.
Mas já sabia qual seria a minha escolha.
Na madrugada, quando a tempestade de palavras cessou, minha mãe bateu a porta do quarto dela e nos deixou sozinhos no corredor. O silêncio que restou era pesado, mas não vazio. Era um silêncio depois do incêndio, cheio de cinzas e brasas ainda ardendo.
Aidan me puxou para perto, as mãos firmes em meu rosto. — Você não precisava fazer isso. — disse, os olhos cinzentos tomados de preocupação.
— Precisava, sim. — respondi. — Passei a vida toda obedecendo. Me escondendo. Me calando. Hoje eu escolhi falar. Escolhi você.
Ele respirou fundo, como se minhas palavras fossem bálsamo e fardo ao mesmo tempo. — Ela nunca vai aceitar.
— Então não é ela quem decide. — disse, firme. — É a minha vida.
Aidan me beijou ali mesmo, no corredor, com a casa inteira ainda pulsando de fúria. Foi um beijo forte, desesperado, cheio da certeza de que estávamos cercados. Mas também cheio da promessa de que não recuaríamos mais.
Quando nos separamos, encostei a testa na dele. — Não importa o que ela faça. — sussurrei. — Eu não vou te deixar.
Ele fechou os olhos, os dedos acariciando minha pele marcada pela bofetada. — Então vamos enfrentar isso juntos.
E, pela primeira vez, não tive medo.