Capítulo 10

1048 Palavras
Quando a Noite Traz a Luz A noite havia descido silenciosa sobre o hospital. Os corredores estavam mais calmos, as luzes menos intensas, e o som constante dos aparelhos parecia acompanhar a respiração de quem lutava para continuar. No quarto de Morgana, a janela deixava entrar o reflexo distante dos postes da rua, desenhando sombras suaves na parede clara. Clara estava sentada ao lado da cama da filha. Segurava a mão de Morgana com cuidado, como se aquele gesto simples fosse capaz de protegê-la de tudo. Desde pequena, Clara sempre acreditou que o amor tinha força suficiente para sustentar o mundo. Naquela noite, ela precisava acreditar nisso mais do que nunca. Morgana estava acordada, os olhos claros atentos, apesar do cansaço evidente. A quimioterapia daquele dia tinha sido mais pesada. O corpo doía, a cabeça latejava, mas ela não reclamava. Apenas respirava fundo, como tinha aprendido a fazer. A porta se abriu devagar. Clara levantou o olhar imediatamente. — Doutor Douglas — disse, levantando-se num impulso contido. O médico entrou acompanhado de uma enfermeira. O semblante dele era diferente. Não carregava o peso habitual das más notícias nem a neutralidade fria de quem ainda não sabe o que dizer. Havia algo mais ali. Esperança. — Boa noite, Clara — disse ele, com a voz calma. — Boa noite, Morgana. — Boa noite — respondeu Morgana, endireitando-se um pouco na cama. Clara não conseguiu esperar. — Novidades, doutor? — perguntou, com a voz trêmula. O médico respirou fundo, como quem escolhe as palavras com cuidado. — Sim — respondeu. — Conseguimos um doador compatível. Por um segundo, o mundo pareceu parar. Clara levou a mão à boca, os olhos se enchendo de lágrimas antes mesmo que o cérebro conseguisse processar aquelas palavras. — Um… doador? — repetiu, quase sem voz. — Sim — confirmou o doutor Douglas. — A compatibilidade é alta. Agora vamos entrar em contato com ele, fazer os exames finais, alinhar os procedimentos. Assim que tivermos mais detalhes, informaremos vocês. Clara não conseguiu se conter. As lágrimas escorreram livremente, e ela apertou a mão da filha com força. — Obrigada, meu Deus… — sussurrou. — Obrigada. Morgana fechou os olhos por um instante. Não chorou. Sorriu. Um sorriso pequeno, cansado, mas verdadeiro. Um sorriso de quem tinha aprendido a esperar sem exigir, a lutar sem gritar. — Obrigada — disse ela, abrindo os olhos e olhando para o médico. — De verdade. O doutor assentiu, emocionado apesar da postura profissional. — Vocês são muito fortes — respondeu. — Vamos fazer tudo com cuidado. Agora, tentem descansar. Quando ele saiu, o quarto ficou em silêncio outra vez. Clara abraçou a filha com delicadeza, tomando cuidado com os fios, os tubos, o corpo frágil demais para qualquer movimento brusco. — Você vai ficar bem, meu amor — disse, com a voz embargada. — Eu sempre soube. Morgana encostou a cabeça no ombro da mãe. — Eu também, mãe. Longe dali, em outra casa, outra noite estava prestes a mudar um destino. Ana bateu de leve na porta do quarto do filho. — Thiago? — chamou. — Entra — respondeu ele, sem tirar os olhos do teto. Ana entrou e fechou a porta atrás de si. O semblante dela estava sério, mas os olhos brilhavam de um jeito diferente. — O hospital ligou — disse. Thiago sentou-se na cama num pulo. — Aconteceu alguma coisa com a Morgana? — perguntou, aflito. Ana foi rápida. — Não — respondeu. — Fica calmo. Ele respirou fundo, passando a mão pelos cabelos. — Então o que foi? Ana se aproximou e sentou-se ao lado dele. — Amanhã nós temos que ir ao hospital — disse, pausadamente. — Você é compatível com ela. O silêncio que se seguiu foi tão profundo que parecia ensurdecedor. — O quê? — murmurou Thiago, como se não tivesse ouvido direito. — Você é o doador — repetiu Ana. — Os exames confirmaram. A compatibilidade é alta. Thiago ficou parado, olhando para a mãe, sem conseguir piscar. — Eu… — começou, mas a voz falhou. — Isso é sério? Ana sorriu, emocionada. — É sério, meu filho. Os olhos de Thiago se encheram de lágrimas, mas ele não deixou que caíssem. O coração batia forte, rápido, como se quisesse sair do peito. — Então… — engoliu em seco. — Então ela vai ficar bem? — As chances são muito boas — respondeu Ana. — O resto depende do tratamento e da força dela. Mas agora… ela não está mais sozinha nessa luta. Thiago levou as mãos ao rosto por um instante, tentando organizar os pensamentos. Ele nunca tinha sido o tipo de pessoa que salvava alguém. Nunca tinha sido o herói da história de ninguém. Até agora. — Eu vou — disse, firme. — Vou fazer tudo que for preciso. Ana colocou a mão no ombro do filho. — Eu sabia — respondeu. — Desde o começo, eu sabia que você faria isso. — Ela… ela não sabe, né? — perguntou ele. — Ainda não — disse Ana. — O médico pediu discrição até confirmar tudo. Thiago assentiu. Deitou-se novamente na cama, mas agora o teto parecia diferente. Menos distante. Menos vazio. Pela primeira vez desde que conhecera Morgana, o medo não era o sentimento mais forte. Era esperança. Naquela mesma noite, Morgana demorou a dormir. Ficou olhando para o teto do quarto do hospital, sentindo o coração bater de um jeito mais leve. Havia algo no ar, algo que ela não sabia explicar. Talvez fosse intuição, talvez fosse fé. Ela pensou em Thiago. No jeito tímido dele. No silêncio confortável. No caderno de desenhos que ele tinha lhe dado. No modo como ele olhava para ela, como se ela fosse mais do que uma paciente, mais do que uma menina doente. Sorriu sozinha. Do outro lado da cidade, Thiago também não dormia. Pensava nela. Pensava no que estava por vir. Pensava que, mesmo sem saber como seria o amanhã, ele tinha certeza de uma coisa: faria tudo para que Morgana tivesse muitos dias pela frente. A noite avançou. E, enquanto o mundo dormia, dois destinos que já tinham se cruzado agora se uniam de um jeito definitivo. A luta continuava. Mas, pela primeira vez, a esperança tinha nome, rosto e um coração disposto a bater por dois.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR