Capítulo 25

1809 Palavras
À Frente da Escola Thiago nunca tinha sentido o coração bater tão forte por um papel. O resultado da faculdade estava aberto na tela do computador havia alguns minutos, mas ele ainda relia como se tivesse medo de desaparecer. Engenharia. A palavra parecia grande demais, importante demais, mas ao mesmo tempo carregava um alívio que ele não sentia havia semanas. — Passei… — murmurou, sorrindo sozinho. A alegria foi imediata, quente, verdadeira. Pensou em Morgana no mesmo instante. Pensou no sorriso dela, no jeito como sempre acreditava nele mesmo quando ele duvidava. Pegou o celular para ligar, mas parou antes de apertar o botão. O exército. Aquela parte ainda não tinha como adiar. Não teve conversa, não teve escolha. Três meses. Apenas três meses, diziam. Mas Thiago sabia que seriam longos. Longos demais. No dia em que entrou para o quartel, o céu estava cinza, como se o mundo soubesse que algo pesado estava começando. Morgana o acompanhou até onde pôde. Não chorou, mas os olhos denunciavam tudo o que ela segurava. Antes de se despedirem, ela colocou algo pequeno na mão dele. — Pra você não esquecer de mim — disse, tentando sorrir. Era uma toalhinha simples, dobrada com cuidado. Bordadas à mão, estavam as iniciais dos dois, entrelaçadas. T & M. Thiago engoliu em seco. — Eu nunca esqueceria — respondeu. — Mesmo assim — insistiu ela. — Quando tiver difícil… lembra que eu tô aqui. Ele a abraçou com força, respirando fundo, como se quisesse guardar aquele cheiro para usar depois, nos dias mais duros. E eles vieram. Os dias no quartel não foram fáceis. Rotina pesada, disciplina rígida, cansaço físico e mental. O tempo parecia passar mais devagar ali dentro. À noite, quando finalmente deitava, Thiago tirava a toalhinha da mochila e a segurava por alguns segundos, como um ritual silencioso. Morgana. Era o nome que repetia em pensamento quando os músculos doíam, quando a saudade apertava, quando a vontade de desistir aparecia. Ele ligava quando dava. Às vezes eram chamadas rápidas, às vezes mensagens curtas. Mesmo assim, eram suficientes para manter o mundo no lugar. — Tá tudo bem aí? — ela perguntava. — Tá — ele mentia um pouco. — E aí na escola? — Comecei o segundo ano — dizia ela. — É estranho sem você por perto. — Também é estranho aqui sem você — ele respondia. Morgana pensava nele todos os dias. No caminho para a escola, nas aulas, no ônibus. Guardava as mensagens como quem guarda cartas antigas. Quando sentia medo, lembrava das palavras dele. Quando sentia saudade, escrevia no caderno, desenhava, contava os dias. Ela dava força a ele como podia. — Falta menos do que parece — dizia. — Você é mais forte do que imagina. E ele acreditava, porque vinha dela. Os três meses passaram como uma tortura lenta. Para os dois. Mas, como tudo, também chegaram ao fim. No dia da saída, Thiago acordou antes do despertador. O corpo ainda cansado, mas o coração leve. Assinou os últimos papéis, ouviu as últimas orientações e, quando finalmente cruzou o portão do quartel, respirou fundo. Estava livre. Mas não ligou para Morgana. Queria vê-la. Foi direto para a frente da escola dela. Parou um pouco afastado, observando os alunos saírem aos poucos. O portão se abriu, o barulho aumentou, risadas, conversas, passos apressados. Então ele a viu. Morgana caminhava distraída, mochila nos ombros, conversando com uma amiga. O cabelo preso de qualquer jeito, o rosto mais maduro, mas o mesmo jeito doce de sempre. Thiago sentiu o peito apertar de emoção. Ela virou o rosto por acaso. Os olhos dela o encontraram. Por um segundo, Morgana achou que estava imaginando. Piscou, parou no meio do caminho. O mundo pareceu silenciar ao redor. — Thiago…? — sussurrou. Ele sorriu. Foi o suficiente. Morgana largou tudo o que estava fazendo e correu. Não pensou, não mediu passos, não se importou com quem olhava. Jogou-se nos braços dele com tanta força que quase o derrubou. — Você voltou! — disse, com a voz embargada. Thiago a apertou contra o peito, sentindo o peso da saudade finalmente se dissolver. — Voltei — respondeu. — Prometi que voltaria. Ela chorava e ria ao mesmo tempo. Ele também. Não se importaram. — Por que não me contou? — perguntou ela, entre risos. — Queria ver sua reação — disse ele. — E porque precisava te ver primeiro. Morgana levantou o rosto, ainda emocionada. — Eu pensei em você todos os dias. — Eu também — respondeu ele. — Todos. Ele tirou a toalhinha do bolso e mostrou a ela. — Funcionou — disse. — Me manteve de pé. Ela sorriu, tocando o bordado com cuidado. — Eu sabia. Ficaram ali por alguns minutos, sem pressa, como se o tempo tivesse decidido ser gentil com eles pela primeira vez em meses. — Engenharia — disse ele, depois. — Passei. Os olhos dela brilharam. — Eu sabia! — disse, orgulhosa. — Eu sabia que você conseguiria. — E eu sobrevivi ao quartel — completou ele. — Sobreviveu e voltou pra mim — respondeu ela. Thiago segurou o rosto dela com carinho. — Sempre. Caminharam juntos para fora da escola, lado a lado, como se nunca tivessem se separado. Mas, por dentro, sabiam: aqueles meses mudaram tudo. Eles tinham aprendido a esperar. E agora, finalmente, podiam seguir em frente — juntos. Thiago passou a manhã inteira com um nó no estômago. Não era nervosismo comum, daqueles de prova ou decisão importante. Era outra coisa, mais profunda, mais respeitosa. Ele sabia que, apesar de tudo o que tinha vivido, apesar de ter passado pelo quartel, pela distância e pela saudade, ainda existiam limites que precisavam ser honrados. Principalmente quando se tratava de Morgana. Por isso, naquela manhã, ele respirou fundo antes de bater palmas no portão da casa dos Cameron. A pequena propriedade continuava a mesma: o cheiro de terra, o som distante dos animais, a calma simples que sempre envolvia aquele lugar. Era como se o mundo ali tivesse um ritmo próprio, mais lento, mais humano. Enzo apareceu primeiro. Estava com as botas sujas de terra e o chapéu na mão. Olhou para Thiago com atenção, aquele olhar de pai que mede intenções antes de palavras. — Bom dia, seu Enzo — disse Thiago, firme, mas respeitoso. — Bom dia, guri — respondeu ele. — Entre. Thiago entrou, sentindo o coração bater mais forte. Clara apareceu logo depois, enxugando as mãos no avental. Sorriu ao vê-lo. — Seja bem-vindo, Thiago. A Morgana ainda tá se arrumando. Ele sorriu de volta, mas sabia que precisava falar antes de qualquer coisa. — Seu Enzo… eu queria pedir uma coisa — começou. O pai de Morgana cruzou os braços, atento. — Pode falar. Thiago respirou fundo. — Eu fiquei três meses longe dela. Foi difícil pra nós dois. Eu queria saber se o senhor permitiria que hoje ela ficasse comigo a tarde. Almoçar comigo, dar uma volta… ficar um tempo juntos. O silêncio que se seguiu pareceu durar mais do que realmente durou. Enzo observava Thiago com calma, como quem já sabia a resposta, mas queria confirmar algo nos olhos dele. — Você respeitou minha filha quando foi embora — disse Enzo, por fim. — Respeitou quando voltou. Isso pra mim diz muito. Thiago engoliu em seco. — Eu amo a Morgana, seu Enzo. E vou continuar respeitando. Sempre. O homem assentiu lentamente. — Então não vejo problema — respondeu. — Só quero ela de volta antes de escurecer. O sorriso de Thiago surgiu instantâneo, sincero. — Claro. Eu mesmo trago. — Então tá combinado. Nesse momento, Morgana apareceu na porta. Ela usava um vestido simples, florido, o cabelo solto balançando levemente com o vento. Quando viu Thiago ali, falando com o pai, o coração dela quase saiu pela boca. — Pai? — chamou, curiosa. Enzo sorriu. — Vai com ele hoje à tarde. Os olhos dela se encheram de luz. — Sério? — Sério. Ela correu até Thiago e o abraçou, esquecendo completamente que os pais estavam ali. Thiago riu, segurando-a com cuidado. — Então… você aceita almoçar comigo? — perguntou ele, brincando. — Eu aceito tudo — respondeu ela, sorrindo. Clara observava a cena com os olhos marejados. Sabia o quanto aqueles meses tinham sido pesados para a filha. — Vão com Deus — disse ela. — E aproveitem. Eles foram. Thiago não levou Morgana para nenhum lugar sofisticado. Não precisava. Pararam primeiro para almoçar num restaurante simples da cidade, daqueles onde a comida parecia abraço. Sentaram-se um de frente para o outro. Por alguns segundos, apenas se olharam, como se ainda estivessem confirmando que aquilo era real. — Parece que eu tô sonhando — disse Morgana, baixinho. — Eu pensei isso no dia que te vi na frente da escola — respondeu ele. Ela sorriu. — Três meses parecem três anos. — Mas passaram — disse ele, estendendo a mão sobre a mesa. — E nós passamos juntos. Depois do almoço, caminharam sem destino pelas ruas mais calmas. Morgana contava sobre a escola, sobre as aulas, sobre os dias em que sentia medo, mas também sobre os dias em que sentia esperança. Thiago falava do quartel, das noites difíceis, das vezes em que quase desistiu, mas também das vezes em que pensava nela e encontrava força. — Teve dia que eu dormi abraçado naquela toalhinha — confessou ele, meio envergonhado. Morgana riu, emocionada. — Eu desenhei você tantas vezes que perdi a conta. Ele parou de andar e a olhou. — Senti sua falta de um jeito que nem sei explicar. Ela respirou fundo. — Eu também. Mas eu nunca duvidei que você voltaria. Sentaram-se em um banco de praça, debaixo da sombra de uma árvore antiga. O silêncio entre eles não era desconfortável. Era cheio. Thiago segurou a mão dela. — Obrigado por me esperar. — Obrigada por voltar — respondeu ela. O tempo passou sem que percebessem. Riram, conversaram, ficaram quietos. Compartilharam pequenas coisas, como se estivessem reconstruindo a rotina que a distância tentou roubar. Quando o sol começou a descer, Thiago olhou o relógio. — Preciso te levar pra casa. Morgana fez uma careta leve. — Eu sei. No caminho de volta, o clima era de gratidão. Ao chegarem, Enzo estava sentado na varanda. Levantou-se ao vê-los. — Aproveitaram? Morgana sorriu, segura da mão de Thiago. — Muito. Thiago assentiu. — Obrigado por confiar em mim, seu Enzo. O homem colocou a mão no ombro dele. — Continue merecendo. Thiago sorriu. Antes de se despedirem, Morgana abraçou Thiago mais uma vez. — Hoje foi nosso — disse ela. — E vai ser só o começo — respondeu ele. Quando Thiago foi embora, Morgana entrou em casa com o coração leve. Depois de tudo o que tinham enfrentado, aquela tarde simples tinha sido a prova mais bonita de todas: o amor deles tinha sobrevivido.
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