Fim. É isso.
Foi algo que tive que aceitar. Não fui a primeira pessoa a passar por isso, nem a última. Todos os dias terminavam milhares de relacionamentos, era a coisa mais normal do mundo. Então, onde estava o problema? Eu tinha desperdiçado três anos da minha vida com um cara totalmente imprevisível que não sabia o que queria. Então era de se esperar que isso acabasse assim, certo? Pois é.
Eu não tinha pensado nisso antes, porque antes aquele garoto sabia o que queria: eu.
Mas isso havia mudado apenas vinte e quatro horas atrás, quando ele entrou no apartamento que dividíamos para me dizer que precisava de um tempo, que estava ficando sobrecarregado depois de sete meses morando juntos. Naquele momento eu não sabia o que fazer. Eu queria chorar ou talvez pedir para ele parar de brincar. Mas quanto mais ele falava comigo, mais raiva crescia em mim, porque eu já entendia que não era brincadeira nenhuma. E então eu o interrompi dizendo para ele não se preocupar em dizer mais nada, que o nosso assunto havia acabado e que amanhã eu pegaria as minhas coisas para ir embora.
Que o amanhã se tornou hoje, porque isso aconteceu ontem. E embora tenha sido um momento doloroso, queria que se repetisse para liberar as palavras que não passaram pela minha cabeça ontem. Mas isso não importava, eu acho. Tudo havia acabado e depois de um longo dia de trabalho eu estava indo para meu apartamento, mas não para tomar banho ou me acomodar, mas para pegar as minhas coisas e ir embora. Ir para onde? Esse era outro problema que eu teria que resolver hoje. Talvez eu pudesse passar a noite num hotel, mas só seria por hoje. E também precisava de tempo para procurar um apartamento que fosse aceitável às minhas finanças, o que não era uma tarefa fácil.
Eu bufei, oprimida por todas as coisas que tive que enfrentar, e corri para o portão.
Abri a porta ansiosamente e subi rapidamente as escadas. Eu precisava desabafar a minha tremenda raiva com alguma coisa, e subir as escadas correndo ajudou.
Roberto, meu ex-recente, não estava no apartamento e não fiquei surpresa. Ele saia do trabalho mais tarde que eu, além de ir direto para a academia. Ele não sabia para que servia a academia para ele, já que desde que entrou o seu corpo não mudou em nada.
— Maldito bastardo. Eu murmurei, me surpreendendo com o quão sombria a minha voz soava.
No chão da cozinha encontrei algumas caixas grandes de papelão, exatamente como Roberto prometeu que me forneceria. Ele até me disse que iria embora para que eu pudesse ficar, mas eu não quis. Eu não conseguiria morar aqui depois de tantas lembranças que tinha de nos dois. Eu precisava de algo novo e que não me lembrasse do passado, de nós.
Peguei as caixas vazias e levei elas para o quarto. Joguei no chão desanimada, a onda de raiva já estava me deixando. Abri o armário e tirei os cabides com as minhas roupas e joguei tudo na cama. Dobrei todas elas o suficiente para caberem em uma das caixas, e assim por diante, até que todas as minhas roupas estivessem guardadas. Não demorei muito, não tinha muitas roupas, por assim dizer. Somente o que é necessário.
Fui então pegar os meus sapatos, que estavam no fundo do armário. Não que eu tivesse muitos. Depois de recolher e guardar os meus pertences do quarto, fui até o banheiro pegar a minha maquiagem, meu pente e tudo que era meu.
Quando terminei de pegar tudo, percebi com alívio que não faltariam caixas porque o mais importante já estava lá dentro.
Na cozinha havia uma parte que dedicamos apenas para as bolsas e mochilas. Peguei um preto numa loja de roupas e lá guardei os meus filmes, meus discos musicais e meus livros.
Passando novamente em frente ao quarto vi o grande ursinho de pelúcia que estava em cima da cama. Roberto achou aquilo infantil para um quarto de casal, mas eu não me importei. Eu queria aquele urso lá porque Roberto me deu no nosso primeiro encontro.
Algo clicou na minha cabeça. Algo que era incomum para mim passou pela minha cabeça. Há uma razão pela qual dizem que o amor traz à tona o que há de pior nas pessoas. Ou talvez o melhor, eu não me importei.
Aproximei-me da cama com o pulso acelerado e peguei o urso de que tanto gostava. Mas eu não queria nada dele, nada que me lembrasse daquele traidor. Abracei o urso enquanto caminhava até a cozinha e de uma gaveta peguei uma faca, a mais afiada.
Com o bicho de pelúcia pressionado contra o corpo e a faca na mão, fui até a sala e sentei o bicho de pelúcia no sofá, em frente à televisão. Abaixei a faca quando outro clique soou na minha cabeça. Fui para o quarto novamente, direto para o armário de Roberto. Vasculhei em baixo, onde sabia que estavam as ferramentas para pendurar um quadro ou qualquer outra coisa. Senti uma certa satisfação quando encontrei o martelo, peguei e voltei para sala, onde estava o bicho de pelúcia. A primeira coisa que fiz foi apertar o martelo com muita força com as duas mãos e olhar para a televisão que comprei para Roberto no último aniversário dele. Era cara e comprei só para deixar ele feliz, era a top em tecnologia.
Mas ele adorou e planejou comprá-la quando conseguisse economizar um pouco mais. Comprei para ele e agora não me arrependo de nada. Porque aquela televisão foi comprada com o meu dinheiro e a mesma pessoa que a comprou tem o direito de destruí-la.
E é isso que eu fiz. Balancei o martelo com mais força do que pensei que seria capaz. Instintivamente fechei os olhos e virei o rosto. Um barulho retumbante encheu a sala. Quando me virei, a tela estava rachada e oca de um lado, onde o martelo certamente havia atingido. A adrenalina já podia ser sentida nas minhas veias. Com menos força, bati mais algumas vezes na tela rachada até que ela fosse completamente destruída. Com uma martelada na base, a televisão caiu da parede e caiu no chão. Só então fiquei satisfeita. Larguei o martelo e peguei a faca. Com um suspiro de arrependimento, fui até o meu amado bichinho de pelúcia e agarrei a sua cabeça para segurá-lo. Enterrei a faca no seu peito e com dificuldade arrastei ele para baixo, abrindo-o ao meio. Então eu cortei o seu pescoço. O algodão que estava dentro dele, saiu todo para fora.