4 - Tudo pode acontecer

1153 Palavras
ELOISE As ondas quebram e a água está fria sob meus pés. Caminho devagar, levo o cigarro aos lábios de vez em quando e olho para a lua. É bem tranquilo aqui. Prefiro à noite porque não faz tanto calor, e eu sempre gostei mais da noite, de qualquer forma. Quando vejo uma concha-do-mar preta, ajoelho-me, pego-a, tiro a areia e a guardo no bolso da minha flanela. A ideia de encher um pote de vidro com elas e colocá-lo no meu dormitório me ocorreu hoje. Não havia hora melhor do que agora para começar, já que eu não conseguia dormir. Um sonho perturbador me acordou, algo a ver com Liam e Christian, embora eu não consiga me lembrar muito dele agora, porque nunca fui capaz de me lembrar dos meus sonhos. O que eu lembro é que me deixou desconfortável o suficiente para que eu precisasse tomar um ar, fosse lá o que fosse. — Elô? Oi. Meus pensamentos são interrompidos e olho rapidamente para Christian. Ele caminha lentamente pela areia, em minha direção, com as mãos enfiadas nos bolsos. É uma calça cargo larga e parece deslocada nele. Não me detenho e olho para ele porque ele não está de camisa, e noto rapidamente como a calça está pendurada nos quadris. Ele está em forma, não é? Principalmente para um homem na casa dos quarenta. Também não me detenho nesse pensamento. Olho para mim mesma e ajeito a blusa aberta, me atrapalhando para abotoar alguns botões. — Olá, senhor Ashford. Ele revira os olhos e sorri. — Christian, por favor. — ele murmura e tira um maço de cigarros do bolso de trás. Observo enquanto ele acende um e nós dois olhamos em direção à água. — Não conseguiu dormir? Ou ficou acordada até tarde? — Não consegui dormir. — eu digo. — Nunca fui boa em dormir. E você? Ele sorri novamente. — A Grace teve um pesadelo, então foi para a cama comigo e com a Katherine. Ela costuma me dar um chute na lateral do corpo quando dorme com a gente. Então, não, eu também não consegui dormir. A primeira coisa que me vem à mente é que uma das crianças também os interrompeu na piscina. Será que isso acontece com frequência e o incomoda? Ele não parece incomodado. Só cansado, eu acho. — Isso acontece com frequência? — Mais do que eu acho que deveria na idade dela. Gosto de sair e caminhar quando não consigo dormir. Paro e me abaixo para pegar outra concha preta, depois decido me sentar. Fico surpresa quando ele me segue, sentando-se ao meu lado. Olho para ele por um instante até que a água chega até onde estamos, acima dos nossos pés, e isso me faz olhar para baixo. Nenhum de nós está de sapato. — Seus pais estão felizes por você ter sido aceita na NYU? — Não. Ele franze a testa. — Não? — Bem... eles teriam que estar cientes para se orgulharem. E minha mãe é... Minha voz se interrompe e olho para a lua novamente. Não é algo sobre o qual eu falo. — Sua mãe é o quê? — Minha mãe é viciada em crack. E eu não sei quem é meu pai. Então, não, eles não têm orgulho. Eles nem sabem que fui aceita. Ele fica em silêncio e eu fecho os olhos com força. Tornei tudo desconfortável e constrangedor entre nós e quero me bater por dizer isso. Liam nem sabe que não tenho ideia de quem é meu pai. Ele sabe que não gosto da minha mãe, que meu pai não está por perto, mas nunca mencionei que ela é viciada ou que nem sei a aparência do meu pai. Então, por que estou contando isso ao Christian? — Sinto muito, Elô. — ele diz depois de algum tempo. — Isso parece duro. Dou de ombros novamente, mas não consigo olhar para ele. Estou envergonhada demais. Tenho certeza de que ele cresceu rico, provavelmente teve pais que o amavam e cuidavam dele. — Bem, eu estou orgulhoso de você. Isso me faz olhar para ele rapidamente. Pergunto-me distraidamente por que essa frase faz meu coração apertar. — Você nem me conhece, Christian. Como pode se orgulhar de mim? — Não preciso te conhecer para me orgulhar de você por ter conquistado algo assim. É algo extraordinário. Espero que você saiba disso. — Antes que eu possa falar, ele continua. — Mas eu te conheço um pouquinho, Elô. Dá para ver como você é inteligente. E como é doce. Você é uma boa pessoa. Só lamento que seus pais não possam te dizer isso. Nós nos encaramos. Acho que ele está sendo sincero e eu pigarreio. — Obrigada. — digo baixinho. Ele coloca a mão no meu ombro e o aperta delicadamente. Isso me faz prender a respiração, o que me surpreende e me confunde, mas faço bem em não demonstrar e apenas sorrio de volta. — De nada. Eu... acho que devo voltar para dentro. — OK. — A menos que você queira companhia? O que você está fazendo com essas conchas que estava recolhendo? — Ah, elas... Vou colocá-las num pote de vidro. Para decoração, eu acho. Ele concorda. — Você gostaria de ajuda com isso? — Certo. Claro. Seria legal. Começamos a caminhar lado a lado novamente, agora ambos catando conchas. Cada vez que ele encontra uma, me mostra e eu aceno em aprovação. Um trovão começa a ribombar à distância enquanto seguimos em frente, e nós dois olhamos em sua direção. Ele suspira. — Vai chover logo. Você consegue sentir o cheiro? — Cheiro de quê? — Questiono confusa. — De chuva? — Hum-hum. Você consegue? Inspiro lentamente, sentindo um cheiro diferente do que conheço do oceano, e concordo. É um aroma fresco e limpo que não consigo descrever. Não me lembro de já tê-lo sentido antes. Nunca prestei muita atenção nisso. — Sim. Eu gosto. — Eu também. A gente devia voltar para casa, não acha? — Ok. E assim o fazemos, ainda caminhando lado a lado, ouvindo o trovão continuar, cada vez mais perto. — É realmente lindo aqui. — Concordo. — diz ele. — Às vezes também viemos aqui no Natal. Você vai ter que vir. Eu rio. — Ok. — O que é engraçado? — Nada. O Natal ainda está muito longe. Ele olha para mim. — E o que tem isso? Você não tem certeza se você e Liam ainda estarão se vendo até lá? Olho para ele de volta. Acho engraçado e peculiar que seja nisso que ele pense. Seu primeiro instinto é se perguntar sobre o estado do nosso relacionamento. Eu disse a ele esta tarde que estava feliz. Talvez ele pense diferente. — Não tenho certeza de nada, na verdade. Só sei que tudo pode acontecer em... quando é o natal? Em sete meses? Ele sorri. — É verdade. Tudo pode acontecer.
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