Somos dois rebeldes nesse mar de expectativas sufocantes.

1149 Palavras
Burak se inclina na minha direção, pensativo. — Você não teme que ela descubra que seu pai desistiu da ideia de ficar com o neto? Minha mão se fecha involuntariamente, os músculos da mandíbula enrijecendo. — Sempre há o risco, mas até lá espero que estejamos mais unidos. Quero que ela entenda meus motivos para ter omitido isso. Burak coça a cabeça, claramente intrigado. — O que houve com você? Estou surpreso. Achei que estivesse realmente interessado em Camily. Rio amargo, o som ecoando com o peso das lembranças. — Interessado? Talvez. Mas sabe como eu me sentia? Como se estivesse segurando um troféu de consolação. Algo bonito, mas sem vida, sem significado verdadeiro. E, no fundo, sempre tive a sensação de que estava deixando o verdadeiro prêmio escapar, como se estivesse abandonando algo que realmente importava. — Não consigo entender esse fascínio que você tem por Isabela. Solto o ar lentamente. — Fui um i****a. Sempre trabalhei demais e achei que poderia esquecê-la. Mas, no fundo, sabia que precisava tentar entender o que sentia toda vez que conversávamos. Se você pegar o Notebook do meu escritório, e olhar meu histórico, verá as minhas entradas no perfil dela no f*******:. Eu fazia milhões para o grupo Ibrahim e nos meus momentos de calmaria e silêncio eu entrava lá. Vendo se ela tinha postado algo ou conhecido alguém novo. Mas ela sempre foi discreta, poucas fotos, poucas amizades, e ainda assim como um vício, eu checava sua vida. — E mesmo assim ficou distante? — Quando finalmente criei coragem para me aproximar, Zein me ligou, dizendo que estava saindo com ela. Foi como um golpe. O resto, você já sabe. Burak me encara com ceticismo. — E agora? Que ela está aqui, com você... o que sente? Tamborilo os dedos na mesa, nervoso. —Sinto-me pequeno, Burak. Pequeno e... insuficiente. Ela não está aqui porque escolheu estar comigo. Ela está presa pelas circunstâncias. Eu sei que o certo seria respeitar o espaço dela, mas não consigo deixá-la ir. Não desta vez. — Você está brincando, não é? Amigo, essa mulher acabou de perder o homem que ela amava. Ela está grávida dele. — Allah! Eu sei... Mas ela mexe comigo de uma forma que ninguém mais consegue. É como se cada momento ao lado dela testasse meus limites. Preciso ser cauteloso, medir minhas ações, porque a última coisa que quero é magoá-la ainda mais. E, apesar de tudo, deixá-la partir não é uma opção. Só de imaginar Isabela enfrentando tudo sozinha, criando essa criança sem apoio, sinto como se estivesse falhando de novo com ela... Não posso permitir isso. Burak respira fundo, os olhos fixos nos meus, como se estivesse tentando decifrar a força da minha determinação. Ele balança a cabeça devagar, antes de falar: — Você poderia dar a vara para ela e ensiná-la a pescar, ao invés de dar o peixe. Comprar um apartamento, como seu pai sugeriu, contratar uma babá, garantir que ela tenha dinheiro suficiente para viver confortavelmente... As palavras dele ecoam como um desafio em minha mente. Respiro fundo, sentindo um aperto no peito enquanto as imagens de Isabela e da criança invadem meus pensamentos. — E a criança? — Minha voz sai firme, mas há um tremor quase imperceptível que carrega o peso da minha emoção. — Ela precisa de um pai. Não apenas de conforto material, Burak. Um pai de verdade. Burak me observa atentamente, como se tentasse medir a profundidade das minhas palavras. Ele solta um longo suspiro, como quem desiste de argumentar contra o inevitável. — É isso mesmo? Ou você está se enganando? — Sua pergunta vem carregada de preocupação genuína. Meus olhos se estreitam, e minha resposta vem com a firmeza de uma promessa inquebrável: — É isso. E não vou abrir mão dela dessa vez. Burak faz um gesto de rendição, levantando as mãos. — Você é quem sabe. Mas, Raed, só espero que esteja preparado para o que vem pela frente. — Estou. — A certeza em minha voz não deixa espaço para dúvidas. — E, por favor, quero total discrição sobre tudo que conversamos. Ele assente. — Claro. Você sabe que pode confiar em mim. Mas... você não acha que errou em ter contado a verdade para Camily? Meu olhar vacila por um breve instante, a dúvida invadindo minha mente como uma sombra indesejada. — Sinceramente? Não sei. Não sei o que seria pior. Contar a verdade ou esconder dela. Ambas as escolhas parecem erradas de alguma forma, mas agora já está feito. Burak apoia o queixo na mão, pensativo. — E você já marcou a data do casamento? — Ainda não. — Minha resposta é curta, mas a ansiedade pulsa nas palavras. — E como será? — Ele sorri de canto, tentando aliviar o peso da conversa. — Simples. Apenas no papel. Nunca fui muito ligado às tradições, Burak. Sempre fiz as coisas do meu jeito, mesmo que isso me colocasse contra o mundo. Burak ri baixinho, o som carregado de cumplicidade. — É, amigo, somos mesmo as ovelhas negras das nossas famílias. Assinto com um sorriso quase melancólico. Burak também, para o desgosto de seus pais, se casou com uma americana, rompendo com todas as expectativas que tinham para ele. — Por que você acha que nossa amizade durou tanto? — pergunto, sabendo a resposta, mas querendo ouvir sua perspectiva. Ele ri, apontando para mim como se fosse óbvio. — Porque você me entende, e eu entendo você. Somos dois rebeldes nesse mar de expectativas sufocantes. — Isso é verdade.— Meu sorriso ganha força, a sinceridade em suas palavras aquecendo algo dentro de mim. Burak se levanta, ajeitando o relógio no pulso. — Bem, chefe, preciso voltar ao trabalho. Você vai para o escritório hoje? Balanço a cabeça. — Não, vou tirar essa semana para mim. Preciso de tempo para pensar, organizar tudo. Ele arqueia uma sobrancelha. — Você que sabe. Afinal, você é o chefe. Mas e se seu pai perguntar por você? Um riso amargo escapa antes que eu possa evitar. — Ele não vai perguntar. — Certo, então. — Ele estende a mão para mim. — Foi bom conversar com você, meu amigo. Fico feliz que tenha se aberto. Aperto sua mão com firmeza, o gesto carregado de gratidão. — Eu também. Conversar com você me faz enxergar as coisas com mais clareza. Burak sorri, genuíno. — É isso que amigos fazem. Enquanto ele se vira para sair, lembro-me de algo importante. — Burak. Ele para na porta e olha por cima do ombro. — Sim? — Vou precisar de testemunhas para o casamento. Gostaria que você fosse e levasse sua esposa. Avisarei a data. Seu sorriso cresce, iluminando o ambiente. — Pode contar comigo, Raed. E, com isso, ele se vai deixando-me sozinho com meus pensamentos. Mas, pela primeira vez em muito tempo, sinto que não estou mais perdido.
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