É isso que você pensa, Isabella?

1008 Palavras
— Vem. — Ele diz suavemente. — Vamos ver os corais. Se você está impressionada com os peixes, precisa ver o colorido intenso dos corais. Seguindo suas palavras, mergulhamos nos corredores iluminados por aquários gigantescos. Cada ambiente parece mais encantador que o anterior, e, aos poucos, deixo minhas reservas se dissiparem. O brilho vibrante dos corais, o movimento gracioso das águas-vivas e a dança das raias criam um espetáculo que é ao mesmo tempo hipnotizante e tranquilizador. Percebo, então, o porquê de Raed ter me trazido aqui. O contato com a criação, com a natureza em sua forma mais pura e mágica, nos conecta com algo maior. É impossível não sentir um senso de paz e humildade diante disso tudo. Conforme os momentos correm, descubro-me relaxada ao lado de Raed, algo que não imaginei que fosse acontecer. Ele parece diferente aqui, mais humano, mais acessível. Talvez, de alguma forma, ele também esteja se deixando levar pela magia deste lugar. E, por um breve instante, permito-me esquecer de tudo que nos prende, de tudo que nos separa. No fundo do mar artificial que nos cerca, o peso das nossas circunstâncias parece ser lavado pelas águas cristalinas. Quando saímos do aquário, o sol já estava alto, marcando a passagem de mais tempo do que eu imaginava. Já era uma hora da tarde, e meu estômago começava a se manifestar. Raed sugeriu almoçarmos em um restaurante ali perto, e eu apenas concordei com um aceno. O lugar é encantadoramente típico, como se tivesse saído de um filme italiano. As mesas são cobertas com toalhas xadrez em branco e vermelho, enquanto garrafas de vinho e pedaços de queijo estão pendurados no teto, criando um ambiente rústico e acolhedor. O ar é preenchido pelo aroma de ervas frescas e azeite aquecido. Nos encaminhamos para uma mesa discreta, em um canto próximo a uma janela ampla que permite a entrada da luz natural. Raed puxa a cadeira para mim, e eu me sento de frente para ele, sentindo uma tensão familiar nos meus músculos. Não quero que ele perceba o quanto sua presença me desestabiliza. Peço um suco de uva, minha escolha habitual desde que descobri a gravidez. Enquanto isso, Raed escolhe um vinho de safra refinada, e eu me pego observando a naturalidade com que ele lida com tudo, como se o mundo girasse em torno de suas decisões. Tento não pensar demais nisso, mas é difícil. Levo o copo aos lábios, ansiosa por um gole refrescante, mas quase engasgo ao notar como ele me observa. Seu olhar não é casual. É intenso, calculado, como se estivesse tentando me decifrar e, ao mesmo tempo, me provocar. Tento manter meu semblante impassível, mas minha mente está a mil. Fique calma, digo a mim mesma. Ele é do tipo dominador, o árabe mandão que sempre quer ter tudo sob controle. Não se deixe levar. Pedimos risoto de camarão, e enquanto o prato é preparado, os minutos começam a fluir de forma inesperadamente leve. A conversa, que inicialmente parecia um campo minado, aos poucos se transforma em algo mais natural. Quando me dou conta, estou ouvindo Raed falar sobre sua paixão pela Itália. — Me apaixonei por Gênova quando vim para cá com um amigo de infância. Era só uma viagem de passeio, mas algo no ritmo da cidade, na beleza do mar, me conquistou. Desde então, sempre que posso, volto. Inclusive, já consigo arranhar um pouco no italiano. Sua voz carrega um tom de nostalgia que me surpreende, uma vulnerabilidade que ele raramente demonstra. De repente, lembro-me da governanta, Donatela, e minha curiosidade se manifesta. — E Donatela? — Pergunto. — Como conseguiu uma mulher aqui que falasse tão perfeitamente nossa língua? Raed sorri, um sorriso cheio de autossuficiência. — Isso foi uma façanha do meu secretário. Ele é um tipo faz-tudo, especializado em missões impossíveis. Consegue resolver qualquer coisa. Levanto os olhos para encará-lo, sentindo uma pontada de irritação. A facilidade com que ele descreve a solução de qualquer problema só reforça a impressão que tenho dele: o homem acostumado a ter tudo que deseja. — É, você parece o tipo que consegue tudo o que quer. — Digo, com uma pitada de ironia. Ele toma um grande gole de vinho, mas seus olhos permanecem fixos nos meus. Há um alerta claro em seu olhar, como se me dissesse para ter cuidado com minhas palavras. — Nem tudo. — Ele responde, sua voz baixa e carregada. — Cresci em uma família que parecia unida e feliz, mas era tudo fachada. Não tive o amor de uma mãe, um pai sempre ausente, e um irmão que era o centro das atenções. Suas palavras me pegam desprevenida, mas antes que eu possa processá-las, disparo uma pergunta: — Por isso está se sacrificando, se casando comigo? Ele solta um suspiro, um som que carrega um misto de exasperação e resignação. — Então é assim que me enxerga? — Ele pergunta, inclinando-se ligeiramente para frente. — Que estou me sacrificando? Antes que eu possa responder, o canto de seus lábios se curva em um sorriso provocador, quase perigoso. Ele passa seus olhos de uma forma tão lasciva que eu prendo a respiração. Há algo de diabólico em seus olhos. — É isso que você pensa, Isabella? Sua voz é baixa, mas carrega um peso que me deixa sem palavras. O jeito como ele me olha é desconcertante, como se estivesse despindo todas as minhas defesas. Sinto meu corpo congelar, minha respiração presa. Ele parece uma outra versão de si mesmo agora — o Raed que me descontrola, o homem que me assusta por me fazer sentir coisas que eu não quero sentir. Ele ri baixinho, um som que parece indicar que ele percebeu exatamente o efeito que teve sobre mim. Então, sem aviso, pega sua carteira, retira o dinheiro e joga na mesa com um gesto casual. — Vem, vamos. Levanto-me, ainda tentando recuperar o controle sobre meus próprios pensamentos. Raed, como sempre, está no comando, e eu me pergunto até quando conseguirei manter minha resistência diante dele.
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