Desentendimentos

1304 Palavras
Oliver Após quase dez minutos que Nicole tinha saído sem explicar para onde estava indo, eu comecei a ficar bastante preocupado e pedi licença ao casal de amigos. Não foi tão fácil me afastar de Elena, mas eu fui bastante incisivo ao dizer que precisava procurar a minha namorada, o que trouxe uma expressão de desdém ao rosto dela que eu fiz questão de ignorar. Pensar que já considerei aquela mulher uma grande amiga me fez questionar a minha capacidade de ler as pessoas e até mesmo a minha competência como advogado, afinal, eu me deixei enganar totalmente pela Martina e agora constatei que por alguns que eu considerava como amigos também tinha acontecido o mesmo. Melhor esquecer de Elena e deixar para o Marcus o papel de controlar a sua língua ferina e ir procurar Nicole, pensei ao me afastar dos dois. Mas não foi nenhum pouco fácil encontrá-la em meio a tantas pessoas as quais eu nem mesmo poderia perguntar se a tinham visto passar. Eu já tinha tentado ligar para ela algumas vezes, mas ela não atendeu nenhuma das minhas chamadas e isso estava me deixando preocupadíssimo com a minha garota. Consultei o relógio e deduzi que já haviam se passado mais de vinte vinte minutos, o que é completamente impensável quando se trata de Nicole. Será que ela foi embora da festa sem ao menos me avisar que pretendia fazer isso? O meu cérebro gritou a possibilidade e isso me deixou gelado, pois isso seria um indicativo muito grande de que as coisas estão bem mais complicadas do que eu imaginei. — Está procurando aquela garota que estava com você? — Ouvi a pergunta repentina. A pergunta havia sido feita por uma mulher que reconheci como uma das amigas de Martina e mesmo que eu nunca tenha apreciado a forma esnobe com que ela tratava a todos à sua volta e tampouco a forma como ela fez aquele questionamento, eu concordei com um aceno afirmativo. Não devo explicação alguma sobre a minha vida para aquela mulher e tudo o que preciso agora é saber onde Nicole está. Pelo visto, todas as amigas de Martina tinham a mesma forma de agir e apenas eu não tinha percebido antes, concluí ao lembrar de Elena. — Eu a encontrei no banheiro feminino há alguns minutos — a mulher informou. Suspirei um pouco mais aliviado. Não é normal que ela esteja por tanto tempo dentro de um banheiro, mas ao menos eu tinha uma pista e foi para lá que caminhei, permanecendo o mais próximo que a minha condição de homem e a boa educação permitia. Não demorou para que eu a visse sair do local e sorri para ela, demonstrando toda a minha alegria ao vê-la. — Eu estava preocupado — Falei logo que me vi perto o suficiente — Por que demorou tanto? — Eu quero ir para casa — foi a sua resposta apressada. Percebi que a voz de Nicole estava trêmula e ao analisá-la melhor, ela também parecia prestes a chorar ali mesmo, o que me deixou em desespero. — O que aconteceu? — Só me leva para casa, por favor. Eu não estava me sentindo disposto a esperar por uma resposta quando os meus nervos estão agora à flor da pele, mas me contentei com o fato. — Vamos — falei, tentando segurar sua mão. Nicole simplesmente se esquivou do meu toque e entendi que algo estava muito errado agora. Aquela noite eu precisava ter uma longa conversa com ela. Se algo está deixando-a triste e até mesmo a fazendo recusar o meu toque, então eu preciso saber o que é. Caminhamos em silêncio até a saída. Percebi quando passamos pela mesma mulher que me disse onde eu poderia encontrar Nicole e o sorriso em seu rosto era algo realmente estranho. Ela nos olhou com um brilho inexplicável de satisfação e eu senti que havia algo que ela parecia saber e que eu não. ********* O trajeto até em casa foi feito em um silêncio pesado e todas as vezes em que tentei conversar com Nicole, ela me ignorou completamente, me deixando desnorteado com o seu comportamento estranho. Há dias ela parecia estar incomodada com alguma coisa, mas após a sua saída aquilo estava gritante. — Podemos conversar? — perguntei ao jogar a chave do carro sobre o aparador da sala. — Estou cansada. Nicole não me esperou dizer mais nada, caminhando até o corredor. Eu a segui. Não poderia deixar aquela conversa para outro dia. Já tinha adiado o suficiente. — Nós precisamos conversar, Nicole — insisti, andando atrás dela — Algo está acontecendo e eu preciso saber o que é. — Amanhã — prometeu. Para o meu completo espanto, Nicole segurou a maçaneta da porta do quarto de Eloá e aquilo despertou um alerta em mim. — O que vai fazer aí? — Eu vou dormir no quarto de Eloá — ela avisou me deixando realmente surpreso e aterrorizado ao mesmo tempo. — Mas… por que? — perguntei incrédulo — O que eu fiz, me fala, por favor! Porque eu não estou entendendo nada. — Estou cansada, Oliver. Amanhã a gente conversa, está bem? O que mais eu poderia dizer além de “OK”? Não havia outra resposta. Eu precisava respeitar a sua vontade, mesmo que isso me deixasse arrasado e até mesmo um pouco ferido. — Tudo bem. Nicole fechou a porta do quarto sem ao menos dizer algo em despedida, um “boa noite” que fosse. Como chegamos a esse ponto sem que eu me desse conta? Eu estava mais uma vez errando, sem perceber as coisas que acontecem ao meu redor e isso estava bastante claro agora. Sentindo-me como um perfeito i****a mais uma vez, pensei em caminhar até o meu quarto e tentar dormir um pouco. Quem sabe à luz do dia tudo parece menos tenebroso do que está agora? Mas pensar em algo racionalmente e fazer aquilo são duas coisas bem diferentes e tudo o que consegui fazer foi sentar na porta do quarto, me prometendo que seria apenas por alguns minutos. Ao menos até que eu consiga aceitar que estamos brigados pela primeira vez desde que Nicole e eu decidimos seguir nossos corações e aceitar o nosso sentimento, e eu nem mesmo sabia o motivo disso. Permaneci ali por muito tempo, resgatando todas as nossas interações e conversas, tentando entender o que fez Nicole decidir dormir em quartos separados, mas nada parecia fazer sentido. Até que um pensamento se insinua lentamente. Talvez ela só estivesse cansada de esperar o meu divorcio. De esperar para oficializar a nossa relação. De todas as loucuras de Martina, quando ela visitava Eloá, conforme o juiz tinha determinado. Martina não tinha conseguido a guarda da nossa filha, apenas algumas visitas ocasionais, as quais ela geralmente faltava. O fato de Martina não cumprir com o acordado nos deixava aliviados. Ela nunca foi uma boa mãe e agora não seria diferente. Minha ex esposa continua a mesma mulher mesquinha e fria de antes. Mas ela continuava com as suas tentativas de resgatar o nosso casamento, sempre tentando contato comigo e se insinuando de maneira s****l. Eu sempre mantive essa situação fora do conhecimento de Nicole, mas talvez ela tenha descoberto por si mesma. E isso poderia causar todo esse m*l-estar que estamos vivendo agora e eu serei o único culpado. O que me fez entender que preciso dizer a verdade antes que seja tarde demais e cause desconfianças infundadas. Eu não tenho interesse algum na Martina e Nicole precisa ter segurança sobre isso. Não percebi o momento que isso aconteceu, mas acabei dormindo ali mesmo, sentado de encontro a parede ao lado da porta do quarto da minha filha, onde a minha namorada tinha preferido ficar naquela noite, ao invés de estar em meus braços.
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