cap 20

882 Palavras
Depois de algum tempo eu me conformo. Vou embora, deixando que ela passe o resto da noite suando naquele quarto quente. A meteorologia disse que amanhã vai fazer ainda mais calor. Este assassino é um estaqueador clássico — disse o Dr. Lawrence Zucker. — Alguém que usa uma faca para obter prazer s****l secundário ou indireto. O estaqueamento é o ato de apunhalar ou cortar, repetidamente, qualquer penetração da pele com um objeto afiado. A faca é um símbolo fálico... um substituto para o órgão s****l masculino. Em lugar de executar um intercurso s****l normal, nosso assassino obtém seu prazer submetendo sua vítima a dor e terror. É o poder que o excita. Poder definitivo, poder de vida e morte. A detetive Jane Rizzoli não era de se assustar fácil, mas o Dr. Zucker provocava-lhe arrepios. Ele parecia um pálido e enorme John Malkovich, e sua voz era sussurrante, quase feminina. Enquanto falava, seus dedos moviam-se com elegância serpentina. Não era policial, era um psicólogo criminalista da Northeastern University que prestava consultoria para o Departamento de Polícia de Boston. Rizzoli trabalhara com Zucker uma vez antes, num caso de homicídio, e ele também a deixara nervosa naquela ocasião. Não era apenas sua aparência, mas a forma como penetrava completamente a mente do criminoso, e o prazer óbvio que derivava de perambular nessa dimensão satânica. Ele gostava da viagem. Rizzoli olhou em volta e se perguntou se algum dos outros quatro detetives estava com medo dessa aberração, mas tudo que viu foram expressões cansadas. Já eram cinco da tarde. Todos estavam exaustos. Ela própria dormira menos de quatro horas na noite anterior. Esta manhã havia acordado na escuridão que precede a alvorada, sua mente entrando direto na quarta marcha enquanto processava um caleidoscópio de imagens e vozes. Ela havia absorvido o caso Elena Ortiz tão profundamente no subconsciente que em seus sonhos ela e a vítima haviam tido uma conversa, ainda que absurda. Não tinha havido revelações sobrenaturais nem pistas do além, apenas imagens geradas por contorções de células cerebrais. Ainda assim, Rizzoli considerou o sonho significativo. O sonho tinha lhe dito o quanto este caso significava para ela. Ser a detetive encarregada de uma investigação importante era como caminhar numa corda bamba sem rede de proteção. Pegue o assassino, e todo mundo vai aplaudir. Fracasse, e o mundo inteiro vai ver você se esparramar no chão. Essa agora era uma investigação importante. Dois dias atrás a seguinte manchete estampara a primeira página do tablóide local: “O Cirurgião Corta Novamente.” Graças ao Boston Herald, seu assassino não identificado tinha uma alcunha, e até os policiais a estavam usando. O Cirurgião. Deus, ela estava preparada para fazer um número de corda bamba, preparada para a chance de flutuar ou cair por seus próprios méritos. Uma semana atrás, quando ela entrara no apartamento de Elena Ortiz como detetive encarregada, sabia que esse era o caso que iria fazer sua carreira, e estava ansiosa por provar seu valor. Como as coisas tinham mudado depressa! Num só dia, seu caso tinha inflado para uma investigação muito mais ampla, liderada pelo Tenente Marquette. O caso Elena Ortiz fora introduzido no caso Diana Sterling, e a equipe crescera para cinco detetives, além de Marquette: Rizzoli e seu parceiro, Barry Frost; Moore e seu parceiro gordo, Jerry Sleeper; mais um quinto detetive, Darren Crowe. Rizzoli era a única mulher na equipe; na verdade, era a única mulher na própria delegacia, e alguns homens nunca a deixavam esquecer isso. Sim, ela se afinava com Barry Frost, apesar do seu bom humor irritante. Jerry Sleeper era fleumático demais para se indispor com alguém. E quanto a Moore... bem, apesar de suas reservas iniciais, estava começando a gostar dele e a respeitá-lo por seu trabalho discreto e metódico. Mais importante, ele parecia respeitá-la. Sempre que falava, sabia que Moore a ouvia. Não, o problema era o quinto policial da equipe: Darren Crowe. Ele e ela tinham diferenças. Diferenças grandes. Agora estava sentado à mesa, de frente para ela, seu rosto bronzeado exibindo um sorriso zombeteiro, como quase sempre fazia. Rizzoli havia crescido com garotos como ele. Garotos cheios de músculos, cheios de namoradas. Cheios de ego. Ela e Crowe desprezavam um ao outro. Uma pilha de papéis correu pela mesa. Rizzoli pegou uma cópia e viu que era o perfil policial que o Dr. Zucker tinha acabado de completar. — Sei que alguns de vocês pensam que meu trabalho é puro charlatanismo — disse Zucker. — Assim, permitam-me explicar meu raciocínio. Sabemos as seguintes coisas sobre nosso assassino não identificado. Ele entra na residência da vítima por uma janela aberta. Faz isso nas primeiras horas da manhã, em algum momento entre a meia-noite e as duas horas. Ele surpreende a vítima em sua cama. Imediatamente a incapacita com clorofórmio. Despe a vítima e a imobiliza amarrando-a à cama passando silver tape em torno dos punhos e dos tornozelos. Para reforçar, passa a fita também na parte superior das coxas e no meio do torso. Por último, passa a fita na boca da vítima, para calá-la. O que obtém com isso? Controle absoluto. Quando acorda logo depois, a vítima não pode se mover, não pode gritar. É como se estivesse paralisada, mas ainda assim acorda, e consciente de tudo que está acontecendo.
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