O vôo de volta para Washington foi curto e rápido, do jeito que eu sonhara. Queria chegar em casa o mais rápido possível, tinha segurado minha ansiedade para saber das novidades até agora, surpresa comigo mesma por não ter ligado para Carlisle nenhuma vez. Mas agora precisava saber o que tinha acontecido em La Push desde que deixara a reserva, o que a chegada daquele lobo significava e porque Jacob não pôde ir ao Brasil conosco. Para ser bem honesta comigo mesma, eu estava até certo ponto receosa em descobrir a verdade. Tinha a estranha sensação de que alguma coisa errada estava acontecendo e não estava gostando disso.
- Quer parar para comer alguma coisa, filha? Aquele lanche do avião não deve ter sido o suficiente - perguntou meu pai enquanto esperávamos o carro alugado.
- Não, vou comer em casa.
Ele me olhou pelo canto do olho e não disse mais nada.
Quando finalmente chegamos em Forks e cruzamos a entrada para o grande terreno dos Cullen, não fiquei surpresa ao ver toda a minha família esperando na varanda, mas estava genuinamente feliz
- Bem vindos de volta - disse vó Esme ao me abraçar e depois se dirigir a minha mãe. - Estávamos com saudade.
Cumprimentei a todos e ainda recebi um despentear de cabelos do tio Emmett, o que tentei me desvencilhar, mas foi inútil, ele ria de minha tentativa frustrada.
- E então? Conte-nos como foi no Brasil - pediu Carlisle amorosamente.
- Agora não, quero saber o que aconteceu na reserva e principalmente porque vocês não ligaram para nos contar, como eu havia pedido - reclamei, com as mãos na cintura.
Olhei de Carlisle para Alice, que tinham as expressões mais culpadas, então provavelmente eram quem estavam à frente disso.
Senti no mesmo instante uma onda de relaxamento percorrer todo o meu corpo e encarei tio Jasper, automaticamente relaxando os braços.
- Sinto muito - disse Carlisle - não conseguimos contato com vocês depois do que aconteceu. Levou dias para que eu voltasse para casa.
- Mas foi algo tão r**m assim? - perguntou minha mãe ao erguer a própria mala.
Nós já estávamos cruzando a sala quando Carlisle voltou a falar.
- Encontramos uma loba violentamente atacada por um vampiro próximo a reserva, e a aldeia Makah foi completamente dizimada - seu tom apresentava tanto cansaço como desespero.
- Uma loba? - perguntei, incrédula.
Então todos os membros da minha família se revezaram em contar tudo o que havíamos perdido, um completando o outro quando o assunto ficava pesado demais para uma pessoa só.
Eu e meus pais escutamos em um só assombro sobre quem era a garota, Mia, e sobre como ela havia se transformado em lobo ao encontrar um vampiro em sua aldeia. A parte mais chocante para mim foi saber da criança, que rapidamente deduzi ser um híbrido como eu, pela descrição de Carlisle. Descobrimos também que a garota estava brutalmente ferida e até agora enfrentando muita dificuldade em se recuperar, devido as mordidas. Quanto à aldeia, nos espantamos ao saber como foi encoberto o rastro do vampiro e como nem minha família e nem os lobos sabiam do paradeiro do assassino, que desapareceu fugindo pelo mar. Todas essas emoções foram devidamente podadas pelo dom de tio Jasper.
- Mas temos que fazer alguma coisa. Um vampiro não pode fazer tudo isso tão perto de nossa casa e simplesmente fugir - eu disse depois de Carlisle explicar sobre as rondas da matilha.
Ele suspirou pesadamente antes de continuar.
- Eu sei, mas já esgotamos todas as nossas chances de busca. Entrei em contato com todos os meus amigos ao redor do mundo e ninguém faz a remota ideia de quem seria capaz de fazer tudo isso.
- Será que não foram os Volturi? - perguntou minha mãe ao meu lado.
- Eu teria visto se fosse algum deles - respondeu Alice.
- Além do mais, isso não parece ser coisa dos Volturi - completou tio Jasper - Esse foi um dos motivos de não seguirmos em mais buscar, não queremos chamar a atenção deles.
- Mas vocês disseram que o vampiro estava com uma criança, certo? E pelo visto, parecia ser uma criança híbrida, não pode ter sido Joham? - questionei.
- Foi o que pensamos. Mas não sabemos como é esse vampiro e nem onde ele pode estar agora - voltou a falar Carlisle - Esperávamos que vocês pudessem nos dizer alguma coisa.
Ouvi um suspiro de meu pai.
- Sinto muito, nem Nahuel e a irmã Jennifer tem contato com Joham a décadas, e também não sabem onde ele pode estar a essa altura. De qualquer forma, pelo que vi na mente de Nahuel, o pai não é muito sentimentalista a ponto de destruir uma vila inteira por vingança de um de seus filhos mortos.
- Então voltamos à estaca zero - bufou Emmett, se jogando no sofá.
Tia Rosalie veio até mim e passou os braços pelos meus ombros.
- Acho que devemos apenas manter a vigilância por aqui enquanto os lobos cuidam do próprio território - disse ela ao me apertar delicadamente contra si.
- E esperar simplesmente que outro ataque aconteça? - perguntou Alice.
- Bom, não podemos parar nossas vidas para correr o mundo atrás de um vampiro que nem sabemos quem é.
Gostaria de ter algo a dizer, mas meus sentidos estavam começando a ficar entorpecidos, as palavras de minha família se tornando cada vez mais incoerentes.
- Renesmee, vá para o chalé descansar - disse meu pai.
- Sim, querida - disse minha mãe surpresa, como se ela devesse ter percebido meu cansaço.
- Não! - exclamei - preciso ir a La Push. Preciso ver Jacob.
Tio Jasper percebeu meu nervosismo e logo se apressou em derramar uma camada extra de calma sobre mim, não consegui lutar contra.
- Seja racional Renesmee, você não dormiu desde que saímos do Brasil e amanhã começa a suas aulas. Vá descansar e depois você fala com Jacob - disse meu pai.
- Vocês não entendem, não podem achar que depois de tudo que ouvi eu vá simplesmente dormir.
- Carlisle, explique isso pra ela - suspirou meu pai.
Olhei para Carlisle com curiosidade.
- Não é uma boa ideia algum de nós ir a La Push agora. Eu mesmo não vou até lá desde que a garota acordou.
- E por quê? - perguntei nervosa e recebendo outro olhar intenso de tio Jasper, o encarei de volta, irritada.
- A menina teve toda a aldeia e a família morta por um vampiro, ela perdeu tudo o que tinha. Creio que uma visitinha nossa não será bem vinda.
Suspirei. Eles tinham razão. Não era correto ir a La Push agora, a garota deveria estar arrasada e sofrendo muito. Eu teria que conter minha impaciência mais um pouco.
Com um arrastar de pés me despedi de toda a minha família e fui para o chalé, finalmente me entregando ao cansaço.
Enquanto relaxava cada nervo tenso de meu corpo com a água quente do banho, me perguntava onde Jacob estava naquele momento, o que estaria fazendo e se pensava em mim na mesma intensidade e desespero que eu pensava nele.
Ao deitar na cama e me ajeitar sob as cobertas desejei intimamente que em nosso próximo encontro tudo se resolvesse, que pudéssemos finalmente seguir nossas vidas juntos, como parecia tão certo acontecer. Então foi inevitável que minhas últimas lembranças antes de cair na inconsciência foram os lábios de Jacob nos meus e em seus braços grossos ao redor de meu corpo. Fiquei feliz que meus pais ainda não tivessem retornado para casa, porque agora as fantasias escapavam por todas as direções da minha mente e continuavam a se desenrolar em sonhos quentes e molhados, envoltos pela lembrança de um perfume amadeirado e rústico.
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Fiquei aliviada por estar invisível atrás do vidro escuro ao parar meu Porche azul no pequeno estacionamento da Forks High School, assim nenhum dos estudantes conseguiam enxergar me lá dentro, mas ao mesmo tempo me senti uma tapada por ter vindo com um automóvel tão chamativo. Esse fato com certeza atrapalharia meus planos de ser discreta, uma ideia que já estava fadada ao fracasso logo de cara, mesmo que eu tivesse vindo de bicicleta.
Cogitei a possibilidade de ficar ali no carro até a pequena multidão se dispersar, mas isso seria idiotice da minha parte.
Suspirei, peguei minha bolsa que estava no banco ao lado e reuni o máximo de coragem para abrir a porta do motorista.
Por um breve momento pensei nas palavras de meu pai antes de sair de casa, sobre a real necessidade de eu frequentar uma escola, já que tinha aprendido até mais que um vetereno em sua terceira universidade. Mas todos nós sabíamos que o objetivo não era de fato acadêmico e sim que, além de Charlie questionar constantemente porque eu não estava em uma escola como qualquer garota normal, eu queria verdadeiramente ter alguma parcela de normalidade na minha vida, e os dramas do ensino médio pareciam muito adequados. Além do mais, eu não podia ignorar para sempre a parte humana dentro de mim, precisava alimentar ela de alguma forma, e o desejo de interagir com outras pessoas - pessoas comuns - estava ficando cada vez mais forte.
Porém, mesmo eu abrindo todo esse espaço para minha humanidade aflorar, não era possível ignorar que eu também era vampira, e isso era bem evidente pelo fato de que vários humanos curiosos olhavam para mim com curiosidade e estranheza. Minha mãe me preveniu que isso certamente aconteceria, mas eu tentei não pensar muito nesse assunto porque, covarde como eu era, certamente cederia ao negativismo de meu pai.
Tentei me convencer de que eles estavam apenas olhando para uma aluna nova, mas não qualquer uma, e sim uma Cullen, sobrinha distante adotada por Edward e sua esposa. Alguém bem digno de curiosidade em uma cidade tão pequena onde nada acontece.
Tia Rosalie dissera que quando eles entraram na Forks High School também fora motivo de grande alarde. "Mas vocês estavam em cinco" dissera eu, "E a auto repeliação que os humanos sentem por vampiros é muito instintiva. Isso não acontece comigo". Quanto a isso ela não tinha argumentos.
Todos esses tormentos passavam em minha mente enquanto ainda andava pela fileira de carros e me dirigia até a secretaria, o percurso parecendo mais longo do que realmente era. Não queria demonstrar arrogância, então simplesmente abaixei a cabeça e tentei não encarar ninguém.
Ao cruzar a porta que dava a pequena saleta respirei mais fundo, tudo ocorreu bem até então. Me dirigi ao balcão no meio do cômodo, onde uma senhora de cabelos grisalhos e óculos redondos olhava atentamente uma papelada, não percebendo eu alí parada.
- Olá - pigarreei.
A senhora olhou para cima, os óculos sobre a ponte do nariz, e se endireitou abruptamente, algumas folhas caíram no chão.
- Meu nome é Renesmee Cullen, hoje é meu primeiro dia.
- Ah, claro é… Srta. Cullen. Aqui está - e me entregou um papel que estava ao seu lado - Aqui estão todas as suas aulas, a primeira é no prédio três, inglês.
- Obrigada - e me virei para a saída.
- Seja bem vinda! - gritou ela assim que fechei a porta, provavelmente lembrando de última hora da cortesia.
Me dirigi em direção ao prédio três numa triste tentativa de parecer invisível, mas isso parecia surtir o efeito contrário.
- Sim, eu acho que é a nova Cullen - ouvi alguém dizer do outro lado do corredor.
- Olha a aluna nova - murmurou outro.
- Ela é gata demais.
Tentei ignorar as vozes ao lado, não que algum deles estivesse realmente tentando falar baixo. Eu me perguntei como meu pai conseguia aguentar ouvir, além disso, suas mentes.
Graças ao meu esforço em ficar s***a, cheguei a primeira aula mais rápido do que imaginara, então me apresentei ao professor e me dirigi ao fundo da sala.
Como esperado, tudo naquela aula eu já sabia. Essa devia ser a pior parte, o tédio. Não! A curiosidade excessiva dos alunos tinha sido a pior parte até agora. Me afundei ainda mais na cadeira, cruzando os braços sobre o corpo. Eu não iria falar com ninguém, não imporia minha presença dessa forma, por mais que estivesse com vontade, então tentei distrair minha mente.
Ainda ardia de preocupação sobre o que tinha acontecido na matilha e isso já estava se tornando ridículo. Tudo bem que eu havia aceitado o argumento de Carlisle sobre a garota, mas cada vez que pensava no assunto chegava a conclusão de as chances de algo dar errado eram mínimas, talvez eu nem a encontrasse, quem sabe no meio do caminho eu conseguisse farejar o cheiro de Jacob e poderia topar com ele na floresta mesmo.
Mas eu sabia intimamente que esse meu desejo de vê-lo não era baseado em apenas preocupação por tudo que havia acontecido, a realidade maior era de que eu ardia de saudade e desejo por ele. Eu finalmente resolvera admitir isso para mim mesma, até porque já estava ficando exaurida de tanto lutar contra esse sentimento que parecia ser maior do que eu havia imaginado.
Jacob era meu sol, e sem ele eu era um dia nublado. Eu sentia falta dele como as flores da chuva, e todos esses dias sem ele estavam me deixando cada vez mais cinza. Então, não me surpreendi de que os meus sonhos, antes tomados de agonia pela espera, agora tivessem assumido um tom alaranjado e quente, depois que admiti para mim mesma que eu estava louca por ele mesmo. Sonhos que antes me despertavam em completo desespero, agora me acordavam com o corpo ofegante e ardência entre as pernas, ainda com a sensação de estar em seus braços ouvindo-o gemer meu nome.
Ora, como eu era tolinha, m*l havia dado o primeiro beijo em um homem e já estava tendo sonhos eróticos com ele, declarando amor e paixão como uma Julieta apaixonada. Não era de espantar que eu quisesse tanto estar naquele ambiente juvenil de escola, combinava muito com meu estado de espírito no momento. Será que talvez fosse isso? Eu precisava de mais experiências nesse ramo para poder ter uma opinião concreta? Algo dentro de mim dizia que não. Jacob era uma certeza na minha vida.
Sobressaltei-me quando o sinal do fim da primeira aula soou, me trazendo de volta a realidade. Apressei em apanhar minhas coisas que estavam intocadas, eu não havia me dado ao trabalho de anotar nada.
- Com licença – disse uma voz masculina atrás de mim. Ao me virar me deparei com um garoto alto de aspecto gentil, com cabelos loiros caindo até os olhos azuis, um sorriso tímido que formava meias luas na bochecha. – Eu peguei para você a lista de livros que o professor Barney pediu que nós lêssemos para a próxima aula.
- Como é? – perguntei tolamente.
- Desculpe, eu vi que estava distraída e anotei para você.
Ele estendeu um pedaço de papel dobrado para mim. Passei rapidamente os olhos pela lista que ele havia anotado. Todos eu já tinha lido e poderia recitá-los de cór.
- Muito obrigada.
- A propósito meu nome é Liam Davis – ele estendeu a mão para mim e eu apertei receosa. Ele percebeu a temperatura elevada da minha pele, pois a olhou automaticamente, mas não fez nenhum comentário.
Ele parecia ser um garoto legal, ao menos tinha sido gentil até então. Tinha que admitir também que fiquei comovida com seu gesto, parecia ser uma boa maneira de abordar um estranho, e como não estava dispensando companhia, tentei dar um melhor sorriso que consegui ao responder.
- Sou Renesmee Cullen.
- Muito prazer – ele fez uma leve curvatura com a cabeça – quase uma reverência, reverência! – ao responder e sorriu. – Qual é sua próxima aula?
- Hum... biologia, prédio quatro.
- Eu posso te acompanhar se quiser, minha próxima aula é a caminho da sua.
- Claro, vou adorar. Muito obrigada – peguei minhas coisas e ele me deu passagem para ir na frente.
- Imagino que não deve estar sendo fácil para você hoje, principalmente sendo quem é.
Ergui uma das sobrancelhas, curiosa.
- E o que você quer dizer com isso?
Ele olhou para mim com desconforto, imaginei que estava preocupado em ter sido rude.
- É que sabe, você é uma Cullen, todos nessa cidade conhecem sua família.
- Conhecem o que?
- Bom, sabemos que Isabella Cullen é filha do chefe de polícia e que o Dr. Cullen é um médico esplêndido, que poderia ganhar milhões em qualquer lugar no mundo – ao dizer isso ele olhou para minhas roupas, como se tentasse descobrir se eu tinha um milhão guardado no bolso.
Fiquei aliviada, nada daquilo podia comprometer minha família. Meus tios e pais se dedicavam em trabalhar e estudar fora da cidade, longe dos olhos daquela comunidade, mas Carlisle ainda trabalhava no hospital local e todos os dias recebia uma boa camada de maquiagem elaborada por tia Alice para aparentar no mínimo cinco anos mais velho.
- Desculpe ter sido indelicado – se apressou a dizer Liam, preocupado com meu silêncio. O estranho era que ele não falava como qualquer outro adolescente, era muito formal e cortês.
- Não se preocupe – garanti – estou amando essa atenção que estou recebendo de todos – e revirei os olhos.
Ele riu.
- E você esperava outra coisa de uma cidade como essa?
- Ah, claro que não. Com certeza amanhã estarei com o rosto estampando a primeira página do jornal: “Garota Cullen estranha, que estudou a vida toda em casa, finalmente resolve sair do ninho”.
Liam gargalhou alto.
- E logo abaixo da notícia vai haver mais uma receita de bolo da Sra. Hoper.
- Bom, talvez eu cometa algum assassinato para garantir mais entretenimento.
- É melhor não hein, como estou do seu lado, é provável que me associam cúmplice.
Ficamos rindo até chegar à porta da minha próxima aula. Fiquei feliz por ter conhecido pelo menos uma pessoa e conseguido conversar sem maiores problemas.
- Gostaria de almoçar com a gente hoje? – perguntou Liam.
- A gente?
- Sim, comigo e minha “turma” – ele riu de si mesmo – São só dois rapazes, Anne e Julie.
- Eu iria adorar – se todos fossem tão legais como Liam talvez o ensino médio fosse bem divertido.
- Combinado então, vou te esperar aqui mesmo.
Entrei na sala de biologia e o professor já tinha começado, então foi bem merecido os olhares que recebi de todos os alunos. A aula ocorreu mais tediosa ainda, eu já conhecia tudo aquilo e automaticamente deixei minha mente vaguear novamente.
Quanto sai apressada da sala, ansiosa por conhecer pessoas novas, Liam já me esperava no corredor como prometido, mas dessa vez estava acompanhado de uma garota baixa de cabelos cacheados e pele escura.
- Renesmee, essa é Julie – apresentou Liam. A garota sorriu.
- Muito prazer, seja bem vinda.
- Muito obrigada. Você é da “turma” do Liam, certo? – disse dando um sorrisinho ao garoto.
- Se existe uma turma ela certamente é minha, eu sou a cabeça pensante da equipe – disse Julie e deu um tapinha na cabeça de Liam, sendo necessário dar um pulinho para conseguir.
- Aham, sei – Liam passou o braço cumprido pelo pescoço da amiga, tentou imitar uma chave de braço enquanto com a outra mão bagunçava seu cabelo.
Fomos conversando animadamente até o refeitório, onde fui apresentada a “turma” do Liam e Julie, composta basicamente por dois garotos gêmeos, Ben e Dilan, simpáticos, mas bem infantis, e Anne, outra garota baixinha, mas que, ao contrário de Julie, era muito tímida. Como eu era a novidade, fui bombardeada de perguntas sobre minha educação em casa, minha família e até um dos garotos gêmeos – que eu não sabia diferenciar qual foi – me perguntou se eu tinha um namorado. Fui salva de dar essa resposta pelo alarme da escola e acompanhei Julie até a próxima aula, que felizmente fazíamos juntas. Ao final do dia encontrei Liam no estacionamento e ele me acompanhou até meu carro, que a essa altura estava cercado de alunos babando em cima do capô.
- Bem, isso com certeza vai sair no journal amanhã - disse Liam ao admirar o carro.
Ele se despediu de mim com mais um de seus sorrisos fáceis e se afastou. Liam sem sombra de dúvida foi a pessoa mais legal que eu conheci naquele dia.
Enquanto deixava o estacionamento e pensava no tédio que me aguardava em casa, fui tomada por uma súbita inspiração e repentinamente alterei a rota de destino até a estrada que levaria a La Push, sem refletir muito nas consequências. Com sorte eu talvez encontrasse algum lobo no caminho, então dirigi prestando mais atenção nas árvores ao meu redor, mantendo o meu olfato e audição bem apurados. Porém minhas expectativas foram frustradas, já que não consegui identificar qualquer movimento na floresta e seria burrice da minha parte sair procurando mato a dentro antes de conferir na vila.
Circulei devagar pelas pequenas ruas da reserva até chegar ao limite, e retornei tudo novamente sem encontrar sinal algum da matilha. Suspirei, derrotada, eu teria que ir até a casa de Jacob mesmo, se ele não estivesse lá, com certeza Billy estaria.
Estacionei o carro no pequeno espaço na lateral da casa dos Black e já conseguia ouvir barulhos vindo lá de dentro. Porém eu m*l havia saído do carro quando a porta da frente se abriu num rompante e uma garota apenas de camisola saiu enfurecida da casa, longos cabelos negros como a noite balançavam com o vento e olhos azuis muito cristalinos e horrorizados cravados na minha direção.
- Mia volte! - gritou a voz de Billy de dentro da casa.
- Mas que diabos… - rosnou a garota, agora a menos de cinco metros de mim.
Droga, aquela devia ser a garota lobo, ela não deveria ter me visto. Eu pensava que ela estivesse se recuperando na casa de Sue e não dos Black, uma vez que Carlisle não poderia vir novamente a aldeia.
- O que esse monstro está fazendo aqui?! - vociferou ela.
- Renesmee, é melhor voltar outra hora - disse Billy muito abalado da porta de casa.
- Desculpe - sussurrei, voltando para meu carro.
- Renesmee? É essa aí? - ouvi a garota de novo e quando me virei de volta para ela seu corpo todo estava tremendo violentamente.
- MIA, NÃO! - Billy berrou ainda mais alto.
Eu fiquei paralisada onde estava, sem saber o que fazer. A garota não estava mais lá, em seu lugar havia um enorme lobo branco, rosnando e babando furiosamente contra mim. Tentei me preparar para lutar enquanto a fera corria em minha direção, mas m*l ela havia dado dois passos quando um ganido horrendo saiu de sua garganta e ela se atirou ao chão como se tivesse levado um tiro.
- Ah meu Deus - arfei, correndo até ela, mas o rosnado de fúria, mesmo fraco e dolorido, que ela soltou me fez ficar parada de novo.
Foi quando ouvi passos pesados saindo da floresta e Jacob e Seth surgiram em forma de lobo em meio às árvores.
- Seth, vá chamar Carlisle - disse Billy com a voz rouca, ainda olhando para a loba que agora estava inconsciente, respirando fraco - Jacob, volte a forma humana e ajude a levar Mia para dentro.
- Eu posso fazer isso - disse sem perceber.
- Ótimo, então faça.
Foi com um peso de culpa maior que o peso da garota que a carreguei de volta a casa - onde ela já mudara de forma - e a cobri com um cobertor. Jacob apareceu logo em seguida vestido apenas de uma bermuda velha e uma camisa cinza. Ele m*l havia passado pela porta e eu já estava correndo até ele e enterrando meu rosto em seu peito.
- Me desculpe - disse com a voz fraca, segurando as lágrimas o máximo possível.
- Shiu… não se preocupe, não foi sua culpa - disse ele suavemente ao passar as mãos pelos meus cabelos.
- Pare de idiotices, claro que foi.
Carlisle apareceu poucos minutos depois, trazendo seus equipamentos.
- O que aconteceu? - perguntou ele ao ver meu estado.
- A garota viu Nessie e se descontrolou, Dr. Cullen. Ela se transformou em lobo, mas não conseguiu ficar nem dois minutos em pé - disse Billy, tentando dar espaço a Carlisle o máximo que o pequeno cômodo permitia.
- Hum… ela não devia ter feito isso, parece que os ossos descolaram. Vamos ter um longo trabalho pela frente. Renesmee, volte para a casa.
- Não, eu vou ficar - falei, decidida.
Bom, o meu "ficar" foi basicamente esperar do lado de fora da casa junto com Jacob enquanto ouvíamos o som de ossos se partindo repetidas vezes, cada estalo um novo arrepio.
Até que chegou um ponto que nem Jacob estava aguentando mais, ele apertou nossas mãos que estavam unidas há horas e se levantou, me puxando em seguida.
- Vem, vamos dar uma volta. Precisamos conversar - disse ele e eu o segui, sem hesitar.