Capítulo 5 - Nahuel

4789 Palavras
"Atenção passageiros da primeira classe para o vôo 744, saída às 07h com destino a Flórida - última chamada para o embarque. Atenção, última chamada para o embarque". Era a voz tediosa nos auto falantes novamente me irritando. Por pouco não lancei uma pedra naquele aparelho para que se calasse, mas sabia que isso só causaria prejuízo e não impediria que o avião decolasse. - Renesmee, temos que ir agora - disse meu pai, tocando meu pulso. Sua impaciência já transparecendo na voz. Nada pude fazer a não ser soltar um suspiro, parar de quicar no banco, resmungar um "eu sei" e virar meu corpo para o portão de embarque, onde um funcionário nos observava com curiosidade.  Ainda sim não pude deixar de olhar uma última vez para janela de vidro que proporcionava uma vista completa do aeroporto, me agarrando ao último fiapo de esperança que de repente pudesse ver uma cabeça mais alta entre todas as outras pessoas. Senti os braços frios e carinhosos de minha mãe ao redor dos meus, me guiando na direção certa. - Sinto muito, querida, mas deve ter acontecido alguma coisa importante para ele não aparecer. - Será mesmo? - me ouvi dizendo, mas não queria ter falado aquilo, era muito egoísta da minha parte. - Tenho certeza - a convicção da minha mãe me comoveu, peguei minha mala e entreguei meu cartão de embarque ao funcionário, entrando por último no avião. Foram necessárias duas escalas para finalmente chegar em Manaus e a partir dali alugarmos um carro. Apesar das trinta horas de vôo, eu m*l havia notado o tempo passar, tão perdida em pensamentos que estava. De vez em quando meus pais me lembravam que eu precisava me mexer um pouco e agir como humana, já que ficava tão imóvel quanto qualquer vampiro quanto estava pensativa. Não troquei muitas palavras durante o percurso, meu pai sabia tudo que eu estava pensando e contava para minha mãe, que ficava mais preocupada a cada hora. Ela tentava de vez em quando puxar algum assunto comigo, mas como eu só respondia vagamente, desistiu depois de algum tempo. Eu sabia que não conseguiria evita-los. O problema é que eu estava mortificada de preocupação desde que havia deixado Jacob na floresta. Assim que cheguei em casa corri direto até Carlisle e avisei sobre o lobo atacado e que precisaríamos da sua ajuda. Carlisle já estava com seu equipamento médico pronto e eu estava logo atrás dele quando meus pais me impediram de acompanhá-lo, dizendo teríamos que sair para pegar o avião em Washington dentro de poucas horas. Gritei com eles, dizendo que essa viagem estúpida teria que esperar, tínhamos assuntos mais urgentes, mas eles insistiram que não poderíamos remarcar, já estava tudo pronto e esse problema era assunto da matilha e não nosso. Eu queria explicar que estranhamente isso parecia um problema meu também, aqueles garotos também eram meus irmãos, minha família… Eu queria protegê-los. Foi somente através de Billy que conseguimos descobrir que Jacob seguiu com o grupo de caça atrás de quem atacou o lobo, então não retornaria para casa tão cedo. Mesmo com toda a minha insistência e relutância, apenas Carlisle partiu para La Push para esperar que trouxessem o lobo ferido, e quando chegamos em Washington soubemos que ele ainda estava esperando. Mas antes de sairmos de casa, fiz com que cada m****o da minha família me prometesse que mandariam todas as notícias. Eu havia me desculpado com meus pais pelo m*l comportamento recente. Não sabia o que tinha dado em mim, nunca fui de ataques de fúria, mas naquele momento a viagem pareceu tão sem sentido… Claro que eles me desculparam de antemão, mas ainda sim não pude deixar de me sentir culpada. Todavia, apesar das baixas probabilidades, eu ainda mantinha a expectativa de que Jacob abandonaria tudo e apareceria com as malas prontas para a viagem. Essa era apenas uma fraca névoa de esperança, a realidade era que eu sabia que ele não viria. Eu mesmo tinha pedido para que ficasse com sua matilha e estranhamente sabia que ele atenderia cegamente até meus pedidos mais loucos. Contudo, eu intimamente admiti que precisava de um tempo dele para pensar no que fiz, caso contrário teria abandonado essa viagem de vez. Meus pensamentos já tinham me deletado ao meu pai assim que ele me viu, lembranças que involuntariamente voltavam da cena do beijo sem que eu pudesse evitar, até porque tinha sido algo tão mágico para mim que ainda estava abalada, apesar de todo o resto.  Soube que meu pai leu meus pensamentos porque vi seu corpo se enrijecer e congelar na hora. Minha mãe chegou a perguntar qual era o problema, mas se ele contou para ela depois, não fiquei sabendo. A verdade era que nem eu havia entendido o que tinha acontecido. Estava a tempo demais lutando uma batalha interna para reprimir todos os sentimentos confusos que eu via surgindo a respeito de Jacob, mas naquele instante, naquela dança, senti que estávamos tão conectados que todos aqueles problemas eram sem importância. Porém agora tais problemas voltaram com força total. Longe de Jacob era impossível não pensar que foi uma loucura o que eu fiz. Beijá-lo foi o ato mais certo e errado que já cometi em toda minha vida. Apesar de sentir o impulso preenchendo todas as moléculas do meu ser e parecer uma atitude inevitável, a culpa me acometia até os nervos por meu comportamento impulsivo. O que só piorava era o fato de meus pais saberem de tudo isso. Por que eles não estavam me repreendendo? Dizendo que eu surtei e discursando o sermão da montanha do quanto isso era errado, que eu era uma maluca e blá blá blá? Eu nunca me senti tão irresponsável em toda minha existência. Mas o que realmente me abalou com tudo foi o fato de Jacob ter retribuído o beijo, com muito fervor diga-se de passagem. Novamente o momento parecia a coisa mais certa e inevitável, como se duas peças de um quebra cabeça se unissem de forma perfeita. Mas ainda sim era tudo tão estranho… Por que ele retribuiu? Por que não impediu o meu avanço, como fizera na praia? Será que ele estava ficando tão louco quanto eu?  Tudo isso era demais para a minha cabeça, eu não conseguia deixar de pensar nos nossos rostos colados, sorrindo um para o outro depois do beijo, como se estivéssemos selando um acordo mútuo silenciosamente. Me peguei suspirando enquanto descosturava e costurava minhas lembranças e reflexões repetidas vezes durante a viagem, repassando nossa conversa mil vezes em minha mente, nem um pouco entretida com a paisagem que se desenrolava na janela. Pouco notei da estrada rural de Manaus, as extensivas terras de plantação de frutas. Também não me dei conta que tínhamos pegado um barco particular e adentrávamos cada vez mais fundo através do rio para o interior da selvagem floresta tropical amazônica.  Quando paramos o pequeno barco na costa do rio meus pais pediram que eu ficasse e comece o que eles haviam trazido, enquanto saíam para caçar. Não demoraram trinta minutos e já estavam de volta. - Nossa, mas já? - exclamei. Minha mãe me olhou surpresa, eu já não falava uma palavra havia horas. - Sim - respondeu ela, animada - encontramos uma onça pintada a poucos quilômetros. Foi divertido.  - Emmett iria adorar lutar com uma delas - completou meu pai. A alegria deles de alguma forma me contagiou. Estava cansada de me sentir culpada e sabia que não iria adiantar ficar com a mente em casa e não aproveitar a viagem. Claro que minha preocupação não diminui nem um porcento, mas no meio daquela mata selvagem não tinha nenhum sinal de celular, estávamos incomunicáveis, e meus pais não mereciam uma companhia desagradável como a minha. - Você não está sendo desagradável, filha - respondeu Edward aos meus pensamentos - e não precisa se sentir culpada, já dissemos isso mil vezes.  Minha mãe olhou para nós dois e depois voltou para mim. - Você sabe que se quiser conversar, estamos aqui, não sabe? - Sei, mas não quero falar sobre isso, pelo menos por enquanto. - Tudo bem - suspirou. Enquanto eu terminava meu jantar, meus pais arrastaram o barco até o meio das árvores e o camuflaram com galhos e folhas altas.  - Tudo bem. Zafrina disse que após o rio teríamos que correr mais quinze quilômetros ao norte, assim conseguiríamos sentir seu cheiro. - disse meu pai, olhando um ponto em particular das árvores - Tudo certo para você, Renesmee? A corrida vai ser longa. - Sem problema algum. Eu estava contente em voltar a me mexer com as minhas próprias pernas e principalmente pela distração que um ambiente novo proporcionava. - E você tem certeza que Nahuel irá nos encontrar com as irmãs, Edward? - perguntou minha mãe. - Sim, eles já estarão lá, na verdade. A viagem do Chile até aqui não leva mais que três horas, até mesmo para um híbrido. Senti uma onda de excitação percorrer meu corpo. Zafrina tinha ido nos visitar junto com seu clã por duas vezes, mas seria a primeira vez que eu veria Nahuel desde que ele serviu de testemunha crucial no confronto contra os Volturi. Eu não passava de uma criança, mas me lembrava perfeitamente de todos aqueles momentos, e lembrava da figura de Nahuel, forte e de pele escura, com cabelos longos e pretos preso em uma trança e olhos castanhos como os meus. O percurso até a aldeia de Zafrina foi tranquilo. Meus pais tiveram que diminuir o ritmo um pouco para que eu pudesse acompanhar e logicamente todos os pequenos e grandes animais nos arredores fugiram deles, seus instintos naturais alertando do perigo. Passamos por uma pequena cachoeira e meu pai fez questão de espirrar água em mim e em minha mãe, que não queríamos nos molhar. Em vingança minha mãe pulou sobre ele sem que estivesse esperando e o derrubou no chão, enquanto eu chegava até eles derrapando na terra propositalmente, nos sujando por inteiro. - Ah, então são as duas contra mim - brincou meu pai, se agachando em posição de ataque. Ficamos brincando durante todo o trajeto, rindo e tentando sujar ao máximo um ao outro. Quando meu pai finalmente alertou que estávamos próximos, me senti envergonhada pela sujeira de lama e folhagem que cobria todo o meu corpo.  Cruzamos uma grande clareira cercada de galhos de alto abaixo, no final dela eu já conseguia sentir o cheiro de três vampiros diferentes. Foi quando as três figuras femininas entraram no nosso campo de visão, todas com trajes e expressões selvagens no rosto, mas sorrindo gentilmente.  - Kachiri, Zafrina, Senna - cumprimentou meu pai gentilmente. - Que prazer revê-las. - Meus amigos, há quanto tempo - cumprimentou a mais alta das mulheres, Zafrina - para nós parece que o tempo não passou, mas quando vemos o quanto Nessie está crescida... Sorri com simpatia. - É ótimo rever todas vocês e principalmente conhecer finalmente sua floresta - respondeu minha mãe, não contendo a ansiedade ao admirar toda a vegetação ao redor. - Sabemos que o clima é totalmente diferente do que vocês estão acostumados, mas por favor, se sintam à vontade - disse agora Kachiri.  Ela tinha razão, o clima era tão pesadamente quente e úmido que a cada respiração eu sentia que podia me afogar.  - E como estão meus amigos, Alice e Jasper? - voltou a falar Kachiri. - Estão todos bem, eles pedem desculpas por não terem vindo - respondeu meu pai com cortesia - e onde estão Nahuel e Huilen?  As três mulheres se entreolharam rapidamente, de forma quase imperceptível. - Eles foram caçar, chegaram aqui há três dias - respondeu Zafrina. - Pelo que vejo vocês se divertiram no caminho - agora ela examinava nossas roupas sujas e sorria com deboche. - Ah sim - falei pela primeira vez. - Deixe-me mostrar suas acomodações e a cachoeira onde vão poder se banhar. A não ser que prefiram se alimentar primeiro. Meu estômago roncou em resposta e todos nós rimos. Eu havia comido em menos de três horas, mas o alimento fora tão limitado que eu já estava faminta.  - Iríamos adorar um banho, mas Renesmee deve comer alguma coisa primeiro - respondeu minha mãe e percebi que ela estava doida para ter um momento a sós com meu pai no meio de toda aquela floresta. Tive que me esforçar para não revirar os olhos.  Acompanhamos as três vampiras por uma pequena trilha que surgiu do nada e levava até uma cabana de tamanho considerável, cercada de mais folhagem e arbustos, quase invisível a olhos humanos. Por dentro era bem iluminado e aconchegante. As Amazonas me ofereceram todos os tipos de alimentos que dispunham no momento, já previamente avisadas da minha dieta. Me deliciei com todas as frutas da região principalmente, pois tinham um sabor melhor que a comida preparada por elas, um tal de bolinho de tapioca e mandioca, que particularmente tinha gosto de terra.  Quando meus pais voltaram de seu pequeno passeio até a cachoeira, já limpos e arrumados, eu estava de barriga cheia e era minha vez de me banhar.  Zafrina me apontou o encontro de duas pedras gigantescas e disse que abaixo delas havia uma cachoeira e um pequeno riacho.  Foi fácil encontrar, na verdade, com o recém rastro dos meus pais, eu seria capaz de chegar naquele lugar de olhos vendados. A cachoeira era proporcionalmente grande e fazia muito barulho, mas me acalmava. Tirei meus sapatos e mergulhei a ponta dos pés. A água era fria e refrescante se comparado com aquela noite abafada. Tirei o resto das roupas, com exceção das peças íntimas, e as coloquei sobre uma pequena rocha. Mergulhei meu corpo no rio e senti os músculos relaxarem gradativamente. Depois de retirar toda a sujeira e me sentir limpa, comecei a apreciar o lugar.  A água estava tão deliciosa que deixei meu corpo flutuar e boiar sobre o rio. Conseguia sentir cada cheiro ao meu redor, mas principalmente de terra molhada e flores. Somado aos outros sons, o ambiente era ainda mais imersivo, com a torrente da cachoeira, o silvo dos animais noturnos e das folhas das árvores balançando ao vento. Naquele lugar mágico era muito fácil acreditar que tudo estava no seu lugar, que meus sentimentos em relação a Jacob eram puros e sinceros, e o melhor de tudo, ele retribuía com a mesma devoção. Seria muito simples imaginar ele me recebendo de braços abertos quando voltasse e todas as questões problemáticas que tanto me atormentava, como sobre ele sempre ter sido meu irmão e amigo, sobre o passado que teve com a minha mãe, tudo isso se consumisse em fumaça. Será que ele estava pensando em mim naquele momento? Uma sensação estranha me dizia que sim. - ... prazer em vê-lo - ouvi a voz do meu pai indistintamente. Assustada, me levantei e voltei a mergulhar o corpo na água. Não encontrei Edward em canto algum, mas na direção de sua voz consegui ver uma silhueta masculina sem camisa de costas para mim, com cabelos negros e brilhantes.  - Pai? - chamei e o homem se virou na minha direção. Ele tinha um rosto muito bonito, pele brilhante e bronzeada, com as maçãs do rosto alta e olhos castanhos intensos. Foi então que ouvi o som de seu coração bater em um ritmo anormal e soube imediatamente de quem se tratava. - Estou aqui Renesmee - respondeu meu pai no meio das árvores, eu ainda não conseguia vê-lo. - Desculpe, senhorita, eu não queria ser um grosseiro - respondeu o homem com um sotaque acentuado - estava voltando a aldeia da Zafrina e ouvi você no rio, só fiquei curioso. Muito prazer, me chamo Nahuel. - Eu sei, me lembro de você - sorri com simpatia. Eu era muito pequena quando o vi pela última vez, tinha me esquecido de todas as semelhanças que compartilhávamos. Isso era muito reconfortante. - Renesmee, terminou de nadar? Volte para a aldeia para descansar um pouco - voltou a falar meu pai - Nahuel, gostaria de me acompanhar de volta?  A rispidez no tom de voz de Edward agora não estava nenhum pouco disfarçada. Eu já tinha sacado tudo: meu pai provavelmente flagrou Nahuel me observando na água e não gostou nenhum pouco disso. Revirei os olhos. - Claro - respondeu Nahuel e antes de se virar de volta para a mata me lançou um sorriso estonteante, que deixaria qualquer humana desavisada sem fôlego. *:*:*:*:*:*:*:*:*:*:*:*:*:*:*:*:* Os dias que se passaram com as Amazonas foram muito divertidos, para não dizer o mínimo. Todas eram extremamente engraçadas e tinham uma conexão com a floresta impressionante. Meus pais adoravam particularmente as excursões de caça, pois Senna sabia onde encontrar os melhores e mais selvagens predadores, mas sempre retornavam com uma grande cesta de frutas para mim. A meia irmã mais nova de Nahuel, Jennifer, chegou à aldeia no dia seguinte, já era esperada por todos. A garota era baixa e magra, de cabelos loiros curtos e repicados, um rosto tão angelical quanto o de tia Rosalie, mas com aspecto infantil. As outras irmãs de Nahuel, Serena e Maysun, também eram esperadas, mas não apareceram. Quando perguntamos a Jennifer o porquê, ela simplesmente disse que elas não gostavam muito de se misturar, preferiam a companhia do pai, Joham. Nahuel não pareceu nenhum pouco incomodado com isso.  Logo após a sua chegada, meus pais começaram o interrogatório investigativo sobre a híbrida. Porém, infelizmente, nada que ela tenha nos contado foi de muita novidade. Jennifer nasceu em Ohio, em 1991 e, assim como as irmãs, não chegou a conhecer sua mãe, pois foi morta durante o parto. Porém, ao contrário de Nahuel, ela não veio ao mundo sem saber quem era, seu pai e a irmã mais velha, Serena, logo a tomaram para si e a criaram.  Assim como as irmãs, Jennifer também atingiu a "maioridade" depois de dez anos de vida e a partir de então seu corpo não se desenvolveu nunca mais. Ela também não tinha veneno, assim como eu, então não poderia transformar outro ser humano em vampiro, ao contrário de Nahuel que transformara sua tia Huilen ainda quando bebê. Por sinal, Huilen era uma vampira bem tímida, por assim dizer, quase não falava uma palavra e sempre se mantinha no canto mais distante do cômodo. Teve até momentos em que me esqueci que ela estava alí. Ao longo de nossas conversas fui percebendo o modo como Nahuel tratava a irmã caçula, quase em tom paternal, e deduzi que ele deveria ser um ótimo irmão mais velho. Ele também era muito engraçado, inteligente e sempre quando falava tinha um tom imponente, que fazia com que todos se silenciassem para ouvi-lo. Porém, depois de mais alguns dias eu já estava munida de toda a informação que nossos amigos poderiam nos fornecer, mas meus pais insistiram em levar Jennifer para mais uma última excursão de caça, onde fariam mais perguntas. Sinceramente eu não via como eles poderiam tirar mais coisas sobre a raça de vampiros híbridos alí, apesar de não sermos uma espécie comum, nossas histórias eram muito limitadas. Então dessa vez insisti para ficar na aldeia, queria muito voltar para aquela cachoeira e aproveitar mais um pouco da floresta antes de voltarmos aos Estados Unidos no dia seguinte.  Nahuel também insistiu em ficar, argumentando que estava saciado. Então permanecemos na aldeia eu, ele e sua tia Huilen, que não desgrudava do sobrinho.  Já era quase hora do crepúsculo quando me dirigi pelo caminho de árvores que serpenteavam a cachoeira, já até conseguia ouvir o som da queda d´água ao longe.  Estava terminando de retirar os sapatos na beira do rio quando senti passos atrás de mim e de um coração batendo. Quando me virei, Nahuel estava passando despreocupadamente pelo arvoredo e se postando ao meu lado, um sorriso moldando seu rosto. - Está me perseguindo, por acaso? - perguntei em tom de brincadeira. - Um pouco senhorita. Eu quero conversar com você - respondeu com aquele sotaque forte ao se sentar em uma pedra cheia de limo próximo a mim.  Esperei ele começar a falar, me sentando ao seu lado e admirando a cachoeira. - Fiquei curioso com seu modo de vida, sabe? Não só o seu, mas de toda a sua... família? - perguntou, sua testa franzindo, como se estivesse em dúvida se era a palavra correta. - Sim, é o que nos consideramos, por assim dizer. Você viu isso da última vez que nos visitou. Tentamos não chamar a atenção para ninguém, mas o estilo de vida "vegetariano" que levamos nos proporciona sentimentos muito humanos, como pertencimento a algum lugar, uma família - dei de ombros. Ele parou para refletir brevemente sobre minhas palavras. - Entendo. Eu também me sinto assim com Huilen e de alguma forma com minha falecida mãe, apesar de nunca a ter conhecido. Cresci com minha tia falando muito sobre ela. Elas eram bem próximas. - Sua tia não parece gostar muito de nós. Ele começou a fazer desenhos com o dedo na pedra despreocupadamente. - Não é isso, ela não gosta de ficar longe da nossa casa. Ela também não confia em nenhum outro vampiro, Joham foi muito eficiente em criar essa aversão. - agora seu tom de voz era de completa amargura - Você entende isso, sim? - Entendo. E você já se perdoou pela morte de sua mãe? Ele me olhou intrigado, como se eu tivesse acabado de dizer a coisa mais fascinante do mundo. Um pequeno sorriso começou a surgir no canto dos seus lábios e me lembrei do quanto ele era bonito.  - Como você sabe disso? - perguntou, num sussurro, ainda me encarando intensamente. A forma como seu olhar se tornava um buraco n***o magnético me desconcertava. De vez em quando recebia esse olhar sempre que eu contava sobre minha vida em nossas reuniõezinhas.  - Pai leitor de mentes, se lembra? E um perfeito fofoqueiro também - disse batendo com os dedos em sua cabeça.  - Ah sim - respondeu ele, soltando uma risada gostosa. - Bem, ver seus pais biológicos juntos e felizes me fez pensar muito durante todos esses anos.  Era difícil assimilar que Nahuel tinha mais de 150 anos. Além de ser novo, ele era mais parecido com um humano do que com um vampiro. Será que minha família e Jacob pensariam isso de mim também ao longo das décadas? A lembrança de Jacob me trouxe uma enxurrada de sentimentos de volta. Ele estava constantemente em meus pensamentos, lógico, tanto que chegava a dar nos nervos. Mas de certa maneira parecia que esse tempo em que estávamos distantes ajudava a pensar em outras coisas, o que até estava me fazendo bem. Não recebi mais notícias desde que cheguei ao Brasil e isso ainda me incomodava muito. Não sabia o que tinha acontecido com o lobo branco que encontraram na floresta, nem se ele sobreviveu... Na verdade parecia que isso havia acontecido a tanto tempo, em outra vida, uma em que a bolha que Jacob e Renesmee estavam criando não tinha sido bruscamente estourada pela realidade.  - Mas não consigo ter esse sentimento de família com Joham, sabe? - voltou a falar Nahuel, depois de tanto tempo em silêncio, me despertando de minhas reflexões. - Por mais que ele seja meu pai e tente me visitar com frequência, eu sei que não passo de um experimento científico que ele deixou escapar. - Isso parece horrível... - sussurrei. - Bom, eu não ligo mais, sabe? Tenho minha tia e minhas irmãs. Apesar de Serena e Maysun serem próximas demais de Joham para o meu gosto. Serena é pior ainda, sempre ajudando ele nas suas aventuras, não consigo entender isso - ele franzia a testa agora, frustrado. - Talvez ela esteja procurando esse mesmo sentimento de família, como você - ao dizer isso senti mais uma vez seu olhar profundo sobre mim, mas eu estava concentrada em encarar a cachoeira. - Sabe... você é ainda mais impressionante do que eu tinha pensando, senhorita - disse ele em tom simpático. - Ora, muito obrigada - respondi timidamente. - Não, é verdade, não estou brincando! Você é uma surpresa. Quando se olha a primeira vez imagina uma menina tímida, mas cada vez que você fala alguma coisa é um fenômeno interessantíssimo. Nunca é nada que eu espero. É fascinante, sabe? Nunca alguém tinha me elogiado de forma tão detalhada numa tacada só. Fiquei sem saber o que dizer. Ele percebeu isso e tentou voltar a conversa. - Mas então, me conte mais sobre você. - O que gostaria de saber? - o encarei ao trazer meus joelhos para o peito e abraçando-os.  Ele parou para pensar por um instante e depois seu rosto se iluminou. - Quais lugares do mundo você já conheceu? - perguntou animadamente.  - Ah, não muitos. Não saio muito para longe de onde moro. Essa é a minha primeira viagem internacional. - Jura? Nossa, eu pensei que você era super viajada. Mas fala muitas línguas, não? - Sim, mas porque eu gosto. - E não tem vontade de conhecer o mundo? Na verdade eu tinha, demais até, mas não existia lugar no mundo que eu quisesse estar sem Jacob, e como ele precisava estar na reserva... Mas eu não estava reclamando, ele estando comigo o meu mundo era completo. - Sim. Sempre ouvi minha família contar sobre os lugares que foram, parece ser incrível.  - E por que você não ia com eles? - Ah, preferia ficar em casa com Jacob, ele não pode se afastar da matilha. - Jacob era aquele homem lobo que não saia do seu lado, certo? - Esse mesmo - respondi entre risinhos. Nahuel pareceu refletir por uns instantes e voltou a contemplar a cachoeira que agora brilhava à luz da lua, parecendo uma chuva de purpurina prateada.  - Eu adoraria conhecer outros lugares, sabe? - falou por fim, quebrando o silêncio - mas Huilen nunca quer deixar Mapuche, ela tem medo pelo que eu sou e tenta me esconder o máximo possível. Acho que entendo até certo ponto… e de vez em quando consigo convencê-la, principalmente para visitar Jennifer, mas é tão aborrecido tentar... Supus que essa era sua grande paixão e sua tia, como única família de verdade, o prendia em uma aldeia mínima em um canto remoto do mundo. Ele pareceu realmente triste com isso e essa tristeza era contagiante, então me esforcei para tentar despertar outro sorriso encantador em seu rosto. - Mas me conta: para onde gostaria de ir se pudesse? Então desembestamos em uma conversa por horas e horas sobre os poucos lugares que conhecíamos e os milhares que gostaríamos de ir, não havendo limite de fronteiras ou imaginação. Conversar com Nahuel era muito simples e fácil, ele tinha uma conversa agradável e era tão bom ouvinte quanto orador. m*l percebemos a mudança do tempo, apenas quando os primeiros raios de luz começaram a surgir ao leste. Assim, finalmente nos levantamos de nossa pedra, demos um mergulho na água gelada, nos despedindo daquela cachoeira maravilhosa e voltamos para a aldeia. Poucas horas depois meus pais, as amazonas e Jennifer voltaram da caçada, trazendo mais e mais frutas para o meu café da manhã. Eu sentiria falta daquela comida, era uma pena não poder levar para casa.  No final da tarde eu e meus pais já estávamos de malas prontas para partir. Me despedi de todos com lágrimas nos olhos. - Queria que vocês pudessem ficar por mais tempo - disse Zafrina, ao me envolver em seus longos braços - Foi muito divertido. - Sim, é uma pena, mas minhas aulas na escola começam segunda, precisamos voltar - respondi ao sair de seu abraço. - Mande lembranças à Carlisle - acrescentou. - Mandaremos sim - respondeu meu pai. - Adeus a todos, até uma próxima oportunidade. - Tchau garotas, tchau Nahuel - respondeu minha mãe, com uma expressão que estaria chorando também, se fosse possível. Ela tinha se apegado muito às amazonas. As três grandes mulheres deram as mãos entre si e fizeram uma reverência única. Jennifer acenou animadamente com as mãos. Nahuel nos despediu com um sorriso, mas não chegava aos olhos, enquanto Huilen, atrás dele, acenou apenas uma vez com a cabeça. Ela estava ansiosa para voltar para a casa e eles partiriam logo depois de nós. Corri com meus pais em sincronia pela mata, me distanciando cada vez mais da aldeia.  Foi muito bom o pequeno período que passamos alí, como uma desintoxicação de todos os pensamentos sombrios que rondavam minha mente havia meses. Agora eu estava pronta e renovada para encarar o que me aguardava em Forks. Para encarar o que fosse acontecer entre mim e Jacob.
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