Peguei minha bolsa jogada ao lado e voltei para o carro, mas quando inseri a chave na ignição percebi que não queria ficar dentro daquele veículo de novo, estava ansiando por liberdade, por fazer alguma coisa com meu corpo. Então joguei a chave na bolsa e caminhei apressadamente até o limite mais próximo da floresta. Assim que minha silhueta foi sendo encoberta pelas árvores desatei a correr, como a algum tempo não fazia.
Era isso que eu precisava, vento batendo no rosto, pernas trabalhando freneticamente, a natureza selvagem passando por mim rápida e detalhadamente.
Infelizmente meu contentamento durou poucos minutos, pois logo comecei a ouvir passos distantes vindo atrás de mim e se aproximava rapidamente. Imaginei que fosse um dos lobos pelo som de quatro patas. Logo ele daria conta que era eu e voltaria para sua ronda. Mas os passos não desaceleraram e conforme meu perseguidor foi se aproximando eu consegui distinguir o cheiro.
Era Jacob.
Burra, como eu tinha esquecido que ele estava atrás de mim?
Acelerei ainda mais, mesmo sabendo que minha limitação humana faria com que ele me acalcasse em poucos segundos.
Eu estava bem perto de casa agora, não conseguiria fugir de um confronto e não queria a minha família envolvida agora. Se era para conversar com ele que fosse em particular.
Desacelerei os passos até parar completamente e fiquei aguardando sua transformação.
Um minuto se passou e sua figura humana, alta e parcialmente nua surgiu em meio as arvores.
Naquele instante, quando nossos olhos se encontraram, meu coração deu um pico de aceleração descontrolado. Uma emoção violenta despertou em meu peito, inundando meus olhos e tudo voltou como uma avalanche na minha cabeça. Nossos momentos de brincadeira, nossas confidencias, os sorrisos trocados, as caminhadas na praia, as refeições que compartilhamos, os abraços... os beijos... as caricias... as coisas indecentes.
E as mentiras.
Tudo.
Jacob também ficou parado me analisando em silencio, a expressão de medo e contentamento se misturando em sua feição.
- Por que você não me contou? – perguntei sem rodeio e sem ao menos me dar ao trabalho de conter minha fúria.
Ele soltou o ar com força e apertou os dedos nas têmporas.
- Fala sério Nessie, que diferença essa porcaria faz agora?
É o que? Como ele ousa?!
- Faz diferença para mim! - explodi - Você me enganou. Passei toda minha vida acreditando no seu amor e ele não passava... de uma maldita magia de lobo.
Ele deu alguns passos em minha direção, mas eu recuei, disposta a manter a distância entre nós.
- O meu amor por você é REAL. d***a, como você pode duvidar disso? - agora foi a vez dele explodir, levando as mãos nos cabelos e os torcendo como se quisesse arranca-los da cabeça. - É por isso que eu não queria te contar nada, não faz diferença no final das contas. Magia quileute ou não, você é o ponto central na minha vida, nada mais importa.
- Você tinha uma vida antes de me conhecer, tudo mudou sem que você realmente quisesse. Pelo amor de Deus, você era apaixonado por minha mãe, você odiava minha família.
Pontos vermelhos de raiva explodiam na minha frente e tive que me concentrar para não saltar sobre eles e matá-lo ali mesmo.
- ISSO NÃO IMPORTA! – berrou, a voz amplificada pelo silêncio da floresta. - Pare de pensar nessas idiotices. Eu amo você, é você, só você!
- Para com isso - o interrompi e involuntariamente imitei seu gesto, querendo arrancar os meus cabelos da raiz. Dei as costas a ele para tentar me acalmar.
O silêncio que nos cercou foi pesado, apenas o som das nossas respirações era ouvido, até a vida selvagem da floresta se calou.
Então alguma coisa estalou na minha mente, como uma lâmpada. Mais uma de suas mentiras.
Virei-me devagar de volta para Jacob, que me observava perturbado, com um misto de ansiedade e fúria no rosto.
- Me responde uma coisa - pedi, minha voz tão silenciosa quanto possível. - Se não fosse o imprinting, o que você teria feito comigo?
Como se tivesse levado um choque elétrico, Jacob pulou no lugar e depois ficou estático, me encarando com uma expressão assustada.
Ergui uma das sobrancelhas, o desafiando a falar.
Nesse momento ouvi o som dos passos de minha família vindo na nossa direção. Em menos de um minuto todos apareceram atrás de mim e pararam quando nos viram, inclusive Nahuel estava junto com eles.
Isso me surpreendeu, não sabia que ele tinha voltado. As lembranças de nosso último encontro sopraram em minha mente como uma brisa, mas o momento presente era mais importante.
Foi então que me dei conta que nunca estivemos realmente sozinhos naquela conversa, passos baixos e sincronizados de pelos menos três lobos se aproximaram, mas ainda se mantinham invisíveis na floresta.
Voltei a olhar para minha família, para todos aqueles rostos que eu amava, e aquele sentimento de traição voltou a me atingir. Eram todos mentirosos assim como Jacob. Quantas partes de mim ainda faltavam ser dilacerada? Achei que tivesse acabado.
- Talvez outra hora Jacob - disse a voz de Edward. Ele encarava Jacob numa expressão cautelosa.
- Não! - exclamou Jacob.
Então ele chegou mais perto e de repente ficou tão grande sobre mim que a sua sombra me cobriu. Pegou meu rosto com suas mãos enormes e quentes e segurou a centímetros do seu rosto.
Foi demais para mim, eu estava tão brutalmente sensível daquela situação toda, que poderia ceder a ele a qualquer momento. Meu corpo, alma e coração imploravam para que eu cedesse. Lutei para manter a razão funcionando.
Mas ele estava tão perto… e eu queria tanto acreditar nas suas palavras.
- Vai embora Jacob - sussurrei.
- Não vou. Me perdoe.
- Eu acreditava no seu amor - rebati.
- Pois continue, ele ainda está aqui
A força de seus olhos sobre mim me anestesiava como uma injeção. Eu lutava para manter o raciocínio.
Reuni todas as forças que ainda me restavam e o empurrei para longe e corri até ficar a dez metros de distância.
- Eu vejo – disse ele ao longe, respirando com dificuldade, o olhar completamente louco. - Posso ver em seus olhos que você não quer nada disso, não quer que eu me afaste.
Precisei de um tempo mais longo para pensar na resposta e rebater seu argumento, mas desisti.
- Não vou discutir com você Jacob, não importa mais. O estrago está feito.
Ele me encarou com mais intensidade, os olhos desesperados, tendo que se apoiar numa árvore para manter o equilíbrio.
Ele estava ofegante.
Eu odiava tudo que lhe causava dor, mas não podia simplesmente desistir das minhas convicções.
- Não era para ter acontecido desse jeito, não era para…
- Eu ficar sabendo? - respondi rudemente, a raiva tingindo minha mente de vermelho novamente.
- Eu esperava que você pudesse perceber um dia, era tão óbvio
Me lembrei das palavras de Emily mais cedo. Pelo visto todos esperavam que eu percebesse o que estava óbvio, mas ninguém se deu ao trabalho de me contar.
- Você esperava que eu me desse conta sozinha da farsa que é tudo o que sentimos um pelo outro?
Ele me encarava em completo choque, como se cada palavra dita fosse o tiro de uma bala em sua têmpora. Eu nunca tinha visto Jacob chorar, mas parecia que estava bem perto de acontecer.
De repente sua postura se tornou suplicante e ele estava sussurrando, a voz rouca e embargada.
- Por favor, o sentimento existe, é real. Vamos começar de novo, sem mentiras ou segredos... por favor, eu preciso de você - seu corpo estava tão curvado que seus joelhos se dobravam levemente, implorando.
A dor sufocava minha garganta. Eu queria poder mudar o que sentia por ele.
- Você quer que eu simplesmente passe uma borracha em tudo isso? - dei uma risada amarga. - Não posso fazer isso. Por favor, vá embora.
Ele arfou de repente, a boca aberta, como se algo tivesse lhe tirado o ar, depois respirou fundo. Seu rosto não havia nada além de uma tristeza suplicante
- Nahuel não… - ouvi a voz de meu pai, mas quando me virei para olhar, Nahuel já estava ao meu lado, me puxando pelo braço.
- Venha Nessie.
Olhei de volta para Jacob e uma expressão de raiva tomou conta dele.
- Solte ela, estamos conversando - sibilou Jacob, quase rosnando.
- Não, terminamos aqui - disse eu.
Seu rosto raivoso mudou para agonia em uma fração de segundo e ele estendeu a mão para mim.
- Não faz isso com a gente. Você é a minha vida.
Fechei os olhos com força, lutando para manter a razão no controle. Se eu cedesse por um momento… ah, e como eu queria.
- Vai embora Jacob - sussurrei.
Não sei quanto tempo fiquei de olhos fechados, mas quando os abri ele havia sumido.
Fiquei ali parada, confusa e devastada, perguntando mil vezes porque aquilo estava acontecendo comigo.
- Filha, nós prometemos a ele - disse a voz de meu pai, tão amargurada e triste, como se tivesse acabado de confessar um crime. - Prometemos que não iríamos interferir nisso.
Eu o encarei furiosa.
Vocês sabiam como eu me sentiria, pensei, incapaz de pronunciar qualquer som. Edward apenas concordou com a cabeça e abaixou o olhar.
Eu podia agora sentir o bombardear de calma e relaxamento que tio Jasper despejava sobre mim. Era difícil resistir aquilo, mas eu resisti.
Olhei para cada rosto da minha família.
O choque de Emmett.
A imparcialidade de Rosalie.
A compostura de Carlisle.
A ternura de Esme.
A calma de Jasper.
A tristeza de Alice.
A angústia de Edward
Mas a piedade no olhar de minha mãe foi a gota d'agua
Dei as costas a todos eles e corri na direção oposta da que Jacob tinha ido.